1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Capítulo I
Ignorância é Força
Ao longo de todo o tempo registrado e provavelmente desde o fim do
Neolítico, existem três tipos de pessoas no mundo: as Altas, as Médias e as
Baixas. Essas pessoas se subdividiram de várias maneiras, responderam a
um número incontável de diferentes nomes, e seus totais relativos, bem
como sua atitude umas para com as outras, têm variado de uma época para
outra: mas a estrutura primordial da sociedade jamais foi alterada. Mesmo


depois de tremendas comoções e mudanças aparentemente irrevogáveis, o
mesmo modelo sempre voltou a se firmar, assim como um giroscópio
sempre reencontra o equilíbrio, por mais que seja empurrado nesta ou
naquela direção.
“Julia, você está acordada?”, perguntou Winston.
“Estou, meu amor. Estou ouvindo. Continue. É maravilhoso.”
Ele seguiu em frente com a leitura.
Os objetivos desses três grupos são inconciliáveis. O objetivo dos Altos é
continuar onde estão. O objetivo dos Médios é trocar de lugar com os Altos.
O objetivo dos Baixos, isso quando têm um objetivo — pois uma das
características marcantes dos Baixos é o fato de estarem tão oprimidos pela
trabalheira que só a intervalos mantêm alguma consciência de toda e
qualquer coisa externa a seu cotidiano —, é abolir todas as diferenças e
criar uma sociedade na qual todos os homens sejam iguais. Assim, ao longo
da história, um conflito cujas características básicas permanecem
inalteradas se repete uma ou outra vez. Durante longos períodos os Altos
parecem ocupar o poder de forma absolutamente inabalável, porém mais
cedo ou mais tarde sempre chega o dia em que eles perdem ou a confiança
em si mesmos ou a capacidade de governar com eficiência — ou as duas
coisas. São derrubados pelos Médios, que angariam o apoio dos Baixos
fingindo lutar por liberdade e justiça. Nem bem atingem seu objetivo, os
Médios empurram os Baixos de volta para sua posição subalterna, a fim de
se tornarem eles próprios os Altos. Nesse momento um novo grupo de
Médios se desprende de um dos dois outros grupos, ou de ambos, e o
conflito recomeça. Dos três grupos, apenas os Baixos jamais conseguem,
nem temporariamente, sucesso na conquista de seus objetivos. Seria
exagero dizer que ao longo da história nunca houve progresso material.
Mesmo hoje, num período de declínio, o ser humano médio está fisicamente
em melhor condição do que há alguns séculos. Mas nenhum progresso na
área da riqueza, nenhum refinamento da educação, nenhuma reforma ou
revolução jamais serviram para que a igualdade entre os homens avançasse
um milímetro que fosse. Do ponto de vista dos Baixos, nenhuma mudança
histórica chegou a significar muito mais que uma alteração no nome de seus
senhores.


Nos últimos anos do século 
XIX 
A recorrência desse modelo ficara óbvia
para muitos observadores. Nesse momento surgiram escolas de pensadores
que interpretavam a história como um processo cíclico e pretendiam
demonstrar que a desigualdade era a lei inalterável da vida humana. É claro
que essa doutrina sempre teve partidários, mas havia uma mudança
significativa na forma como ela era apresentada naquele momento. No
passado, a necessidade de haver uma forma hierárquica de sociedade fora a
doutrina específica dos Altos. Defendiam-na reis e aristocratas, bem como
sacerdotes, advogados e outros parasitas dos Altos, que amenizavam essa
doutrina com promessas de recompensa num mundo imaginário no além-
túmulo. Os Médios, na medida em que lutavam pelo poder, sempre faziam
uso de termos como liberdade, justiça e fraternidade. Naquele momento,
porém, o conceito de fraternidade humana começou a ser atacado por
pessoas que ainda não ocupavam posições de mando, mas que alimentavam
a esperança de ocupá-las em breve. No passado os Médios haviam feito
revoluções sob a bandeira da igualdade, para depois instalar uma nova
tirania assim que a anterior era derrubada. Na verdade os novos grupos
Médios proclamavam antecipadamente sua tirania. O socialismo, doutrina
surgida no início do século 
XIX
e que era o último elo de uma cadeia de
pensamento que remontava às rebeliões de escravos da Antiguidade,
continuava profundamente impregnado do utopismo das eras passadas. Mas
em cada variante do socialismo surgida a partir de cerca de 1900, o objetivo
de instalar a liberdade e a igualdade foi sendo abandonado cada vez mais
abertamente. Os novos movimentos surgidos na metade do século —
Socing na Oceânia, neobolchevismo na Eurásia e Adoração da Morte (como
costuma ser denominado) na Lestásia — tinham o objetivo declarado de
perpetuar a desliberdade e a inigualdade. É óbvio que esses novos
movimentos emergiram dos velhos, cujos nomes tendiam a conservar,
pagando um falso tributo a sua ideologia. Mas o objetivo de todos eles era
deter o progresso e congelar a história num dado momento. O tão conhecido
movimento pendular ocorreria mais uma vez, depois se interromperia.
Como sempre, os Altos virariam Médios, e estes se transformariam nos
Altos; só que dessa vez, por razões estratégicas deliberadas, os Altos teriam
condições de manter sua posição indefinidamente.
As novas doutrinas, até certo ponto, surgiram devido ao acúmulo de
conhecimento histórico e ao desenvolvimento do sentido histórico, quase


inexistente antes do século 
XIX
. O movimento cíclico da história tornara-se
inteligível, ou pelo menos dava a impressão de sê-lo — e se era inteligível,
também era alterável. Mas a causa principal, subjacente, era que, já no
início do século 
XX
, a igualdade humana se tornara tecnicamente possível.
Além disso, continuava sendo verdade que os homens não eram iguais no
que dizia respeito a seus talentos inatos, e que era preciso especializar as
funções de maneira a favorecer este indivíduo em detrimento daquele; mas
já não havia a menor necessidade real de existir distinções de classe ou
grandes diferenças de riqueza. Em épocas anteriores, as distinções de classe
tinham sido não apenas inevitáveis como desejáveis. A desigualdade era o
preço da civilização. Com o desenvolvimento da produção mecanizada,
porém, a situação se alterara. Embora continuasse necessário que os seres
humanos realizassem diferentes tipos de tarefas, já não era necessário que
vivessem em níveis sociais ou econômicos diferentes. Desse modo, do
ponto de vista dos novos grupos que estavam em vias de assumir o poder, a
igualdade humana já não era um ideal a perseguir, mas um perigo a evitar.
Em épocas mais primitivas, quando de fato era impossível existir uma
sociedade justa e pacífica, não houvera a menor dificuldade em acreditar
em sua viabilidade. Havia milhares de anos que a ideia de um paraíso
terrestre onde os homens vivessem juntos em total fraternidade, sem leis
nem um trabalho brutal, perseguia o imaginário humano. E essa visão
exercia um certo poder inclusive sobre os grupos que na verdade se
beneficiavam de cada mudança histórica. Os herdeiros das revoluções
francesa, inglesa e americana haviam em parte acreditado em seus próprios
chavões sobre direitos humanos, liberdade de expressão, igualdade perante
a lei e assim por diante, permitindo inclusive, dentro de certos limites, que
sua conduta fosse influenciada por eles. Só que aproximadamente nos anos
1940
Todas as principais correntes de pensamento político eram autoritárias.
O paraíso terrestre fora desacreditado exatamente no instante em que se
tornara praticável. Todas as novas teorias políticas, seja lá como se
autodenominassem, reeditavam as ideias de hierarquia e regimentação. E no
enrijecimento geral de perspectivas instaurado por volta de 1930, algumas
práticas havia muito abandonadas, em alguns casos centenas de anos —
prisões sem julgamento, escravização de prisioneiros de guerra, execuções
públicas, tortura para extrair confissões, uso de reféns e deportação de
populações inteiras —, não apenas voltaram a se tornar comuns como eram


toleradas e defendidas até por pessoas consideradas esclarecidas e
progressistas.
Somente depois de transcorrida uma década de guerras nacionais, guerras
civis, revoluções e contrarrevoluções em todos os recantos do mundo, o
Socing e seus rivais emergiram como teorias políticas integralmente
formuladas. Só que elas haviam sido empanadas pelos diversos sistemas,
em geral denominados totalitários, surgidos no início do século, e as
principais características do mundo que emergiriam do caos imperante
estavam óbvias havia muito tempo. O tipo de gente que haveria de controlar
esse mundo estava igualmente óbvio. A nova aristocracia era formada em
geral por burocratas, cientistas, técnicos, representantes de sindicatos,
especialistas em publicidade, sociólogos, professores, jornalistas e políticos
profissionais. Essas pessoas, cujas origens situavam-se nas classes médias
assalariadas e nas camadas superiores da classe trabalhadora, haviam sido
moldadas e agrupadas pelo mundo desolado do monopólio industrial e do
governo centralizado. Comparadas às aristocracias precedentes, eram
menos avarentas, menos tentadas pela ostentação, mais famintas de poder
em sua forma pura e, acima de tudo, mais conscientes do que estavam
fazendo e mais atentas ao aniquilamento da oposição. Esta última diferença
era fundamental. Comparadas à de hoje, todas as tiranias do passado eram
vacilantes e ineficazes. Os grupos dominantes estavam sempre um tanto
infectados pelas ideias liberais e não se preocupavam com o fato de deixar
ações incompletas por todo lado, considerando apenas os atos explícitos,
totalmente desinteressados do que pensavam seus súditos. Até a Igreja
católica da Idade Média era tolerante se comparada aos parâmetros
modernos. Em parte, a razão disso era que no passado nenhum governo
conseguira manter seus cidadãos completamente sob controle. A invenção
da imprensa, contudo, facilitara a tarefa de manipular a opinião pública, e o
cinema e o rádio aprofundaram o processo. Com o desenvolvimento da
televisão e o avanço técnico que possibilitou a recepção e a transmissão
simultâneas por intermédio do mesmo aparelho, a vida privada chegou ao
fim. Todos os cidadãos, ou pelo menos todos os cidadãos suficientemente
importantes para justificar a vigilância, podiam ser mantidos vinte e quatro
horas por dia sob os olhos da polícia, ouvindo a propaganda oficial, com
todos os outros canais de comunicação fechados. A possibilidade de obrigar
todos os cidadãos a observar estrita obediência às determinações do Estado


e completa uniformidade de opinião sobre todos os assuntos existia pela
primeira vez.
Passado o período revolucionário dos anos 1950 e 60, a sociedade se
reagrupou, como sempre, nas categorias Alta, Média e Baixa. Mas o novo
grupo Alto, à diferença de seus antecessores, não agiu instintivamente,
sabendo o que era preciso para proteger sua posição. Havia um bom tempo
sabia-se que a única base segura para a oligarquia é o coletivismo. Riqueza
e privilégio são defendidos com grande eficácia quando possuídos
conjuntamente. A assim chamada “abolição da propriedade privada”,
ocorrida nos anos intermediários do século, na verdade significara
concentração da propriedade num número muito menor de mãos: mas com
a diferença de que os novos proprietários eram um grupo, e não uma massa
de indivíduos. Nenhum membro do Partido possui nada individualmente,
com exceção de bens pessoais insignificantes. Coletivamente, o Partido
possui tudo o que há na Oceânia, pois controla todas as coisas e dispõe dos
produtos como bem entende. Nos anos que se seguiram à Revolução, teve
oportunidade de ocupar essa posição de comando praticamente sem
oposição, pois o processo como um todo era representado como um ato de
coletivização. Sempre se acreditara que se a expropriação da classe
capitalista ocorresse, o socialismo adviria daí: e inquestionavelmente os
capitalistas haviam sido expropriados. Fábricas, minas, terras, casas,
transporte — tudo lhes fora confiscado: e visto que essas coisas haviam
deixado de ser propriedade privada, concluía-se que com certeza agora
eram propriedade pública. O Socing, que emanara dos primórdios do
movimento socialista e que dele herdara sua fraseologia, na verdade
conseguira concretizar o que havia de mais importante no programa
socialista; com o resultado, antecipadamente previsto e pretendido, de que a
desigualdade econômica se tornara permanente.
Mas o problema de perpetuar uma sociedade hierárquica é mais profundo
do que isso. Há somente quatro maneiras de um grupo dominante perder o
poder: ou bem é vencido de fora, ou governa tão mal que as massas são
levadas a revoltar-se, ou permite que um grupo Médio forte e descontente
passe a existir, ou perde a autoconfiança e o desejo de governar. Essas
causas não atuam de modo separado; quase sempre estão todas presentes
em alguma medida. Uma classe dominante capaz de proteger-se de todas


elas ficaria permanentemente no poder. No fim das contas, o fator decisivo
é a atitude mental da própria classe dominante.
Na verdade, a partir de meados do século 
XX
o primeiro desses perigos
deixara de existir. Cada uma das três potências que hoje dividem o mundo
é, com efeito, inconquistável, e só poderia tornar-se conquistável depois de
ocorrerem lentas mudanças demográficas que um governo dotado de
amplos poderes pode evitar com facilidade. Também o segundo perigo não
passa de um perigo teórico. As massas nunca se revoltam por iniciativa
própria, e nunca se revoltam não só porque são oprimidas. Acontece que
enquanto não lhes for permitido contar com termos de comparação, elas
nunca chegarão sequer a dar-se conta de que são oprimidas. As crises
econômicas recorrentes de épocas passadas foram totalmente desnecessárias
e hoje em dia não se permite que ocorram, mas podem sobrevir — e
sobrevêm — outros deslocamentos igualmente grandes sem que se
verifiquem resultados políticos, porque a insatisfação não tem como tornar-
se articulada. Quanto ao problema do excedente de produção, latente em
nossa sociedade desde o desenvolvimento do aparato técnico, esse se
soluciona por intermédio do mecanismo da atividade guerreira permanente
(ver Capítulo 
III
), que também é útil para ajustar o moral público ao timbre
adequado. Do ponto de vista de nossos atuais governantes, portanto, os
únicos perigos reais são o surgimento de um novo grupo de pessoas
capazes, subempregadas e com fome de poder, e o crescimento do
liberalismo e do ceticismo em suas fileiras. Isso significa que o problema é
educacional. Trata-se de moldar incessantemente a consciência tanto do
grupo dirigente como do grupo executivo situado logo abaixo dele. Quanto
à consciência das massas, só é necessário influenciá-la de modo negativo.
Tudo isso considerado, seria possível deduzir, caso já não a
conhecêssemos, qual é a estrutura geral da sociedade oceânica. No topo da
pirâmide está o Grande Irmão. O Grande Irmão é infalível e todo-poderoso.
Todos os sucessos, todas as realizações, todas as vitórias, todas as
experiências científicas, todo o conhecimento, toda a sabedoria, toda a
felicidade, toda a virtude seriam um produto direto de sua liderança e
inspiração. Ninguém jamais viu o Grande Irmão. Ele é um rosto nos
cartazes, uma voz na teletela. Podemos alimentar razoável certeza de que
jamais morrerá, e já existe considerável discussão quanto ao ano em que
nasceu. O Grande Irmão é o disfarce escolhido pelo Partido para mostrar-se


ao mundo. Sua função é atuar como um ponto focal de amor, medo e
reverência, emoções mais facilmente sentidas por um indivíduo do que por
uma organização. Abaixo do Grande Irmão está o Núcleo do Partido, com
efetivos limitados a seis milhões, ou um pouco menos de dois por cento da
população da Oceânia. Abaixo do Núcleo do Partido vem o Partido
Exterior, que, se o Núcleo do Partido é descrito como cérebro do Estado,
poderia ser adequadamente visto como as mãos do Estado. Abaixo estão as
massas ignaras que habitualmente denominamos “os proletas”, totalizando
cerca de oitenta e cinco por cento da população. Nos termos de nossa
classificação anterior, os proletas são os Baixos, porque as populações
escravizadas das terras equatoriais, que passam o tempo todo de um para
outro conquistador, não são uma parte permanente ou necessária da
estrutura.
Em princípio, ser membro de um desses três grupos não está ligado a
uma situação hereditária. O filho de pais pertencentes ao Núcleo do Partido
teoricamente não nasceu no seio do Núcleo do Partido. Ser admitido nesse
ou naquele setor do Partido depende de um exame prestado aos dezesseis
anos. Tampouco existe qualquer tipo de discriminação racial, ou domínio
perceptível de uma província sobre outra. Judeus, negros e sul-americanos
de pura origem índia são encontrados nos mais altos escalões do Partido, e
os administradores de qualquer área sempre são escolhidos entre os
habitantes daquela área específica. Em nenhum ponto da Oceânia os
habitantes têm a sensação de ser uma população colonial governada a partir
de uma capital distante. A Oceânia não tem capital, e seu chefe titular é
uma pessoa cujo paradeiro ninguém conhece. Fora o fato de o inglês ser sua
principal língua franca e a Novafala sua língua oficial, nada na Oceânia é
centralizado. Seus governantes não estão ligados por laços de parentesco,
mas pela adesão a uma doutrina comum. É verdade que nossa sociedade é
estratificada — e muito rigidamente estratificada, aliás — de um modo que
à primeira vista parece corresponder a linhagens hereditárias. Verifica-se
um trânsito muito menor entre os diferentes grupos do que o verificado
durante o capitalismo, ou mesmo durante os períodos pré-industriais.
Ocorre uma certa dose de intercâmbio entre os dois planos do Partido, mas
apenas o suficiente para garantir que os fracos sejam excluídos do Núcleo
do Partido e os membros ambiciosos do Partido Exterior neutralizados em
seu desejo de ascensão. Na prática, os proletários não têm autorização para


entrar no Partido. Os mais brilhantes, que talvez se tornassem núcleos de
descontentamento, são simplesmente identificados pela Polícia das Ideias e
depois eliminados. Mas não há razão para que esse estado de coisas seja
permanente, nem se trata de uma questão de princípios. O Partido não é
uma classe, no antigo sentido do termo. Seu objetivo não é transmitir o
poder para seus próprios filhos, enquanto tais; e se não houvesse outra
maneira de manter as pessoas mais capazes no topo, estaria perfeitamente
disposto a recrutar toda uma nova geração nas fileiras do proletariado. Nos
anos decisivos, o fato de o Partido não ser uma entidade hereditária
contribuiu sobremaneira para neutralizar a oposição. Os socialistas da velha
escola, treinados para lutar contra uma coisa chamada “privilégio de
classe”, partiam do princípio de que o que não é hereditário não pode ser
permanente. Não percebiam que a permanência de uma oligarquia não
precisa ser física, nem paravam para pensar que as aristocracias hereditárias
sempre foram de curta duração, ao passo que já aconteceu de organizações
de adoção, como a Igreja católica, durarem centenas e mesmo milhares de
anos. A essência da regra oligárquica não é a hereditariedade de pai para
filho, mas a persistência de determinada visão de mundo e de um certo
estilo de vida impostos pelos mortos sobre os vivos. Um grupo dominante
continua sendo um grupo dominante enquanto puder nomear seus
sucessores. O Partido não está preocupado com a perpetuação de seu
sangue, mas com a perpetuação de si mesmo. Não importa quem exerce o
poder, contanto que a estrutura hierárquica permaneça imutável.
Todas as crenças, hábitos, preferências, emoções e atitudes mentais que
caracterizam nosso tempo são, na verdade, maneiras de reforçar a mística
do Partido e de impedir que a verdadeira natureza da sociedade atual seja
percebida. A rebelião física, ou toda e qualquer movimentação preliminar
no rumo da rebelião, é impossível no momento. Nada a temer do lado dos
proletários. Abandonados a si mesmos, continuarão trabalhando,
reproduzindo-se e morrendo de geração em geração, século após século,
não apenas sem o menor impulso no sentido de rebelar-se, como incapazes
de perceber que o mundo poderia ser diferente do que é. Os proletários só
teriam como tornar-se perigosos se o avanço da técnica industrial exigisse
que recebessem melhor educação; contudo, visto que a rivalidade entre os
militares e os comerciantes deixou de ser importante, o nível da educação
popular na verdade está em declínio. Seja qual for a opinião que as massas


adotam ou deixam de adotar, essa opinião só merece indiferença. As massas
só podem desfrutar de liberdade intelectual porque carecem de intelecto.
Num membro do Partido, porém, o menor desvio de opinião sobre o mais
insignificante dos assuntos é intolerável.
Os membros do Partido passam a vida, do nascimento à morte, sob o
controle da Polícia das Ideias. Mesmo quando sozinhos, nunca podem ter
certeza de que estão sós. Onde quer que estejam, dormindo ou acordados,
trabalhando ou descansando, no banho ou na cama, podem ser
inspecionados sem aviso e sem tomar conhecimento de que estão sendo
inspecionados. Nada do que fazem é indiferente. Seus amigos, suas
distrações, seu comportamento para com esposa e filhos, a expressão de
seus rostos quando estão sozinhos, as palavras que murmuram no sono,
mesmo os movimentos característicos de seus corpos, são rigorosamente
escrutinados. Não apenas seus delitos efetivos, mas toda excentricidade, por
menor que seja, toda mudança de hábitos, todo maneirismo nervoso que
apresente a possibilidade de ser sintoma de um conflito interno, não deixam
de ser detectados. Eles não têm liberdade de escolha sobre coisa nenhuma.
Por outro lado, seus atos não são regulamentados por lei nem por qualquer
outro código de conduta claramente formulado. Na Oceânia não existe lei.
Os pensamentos e os atos que, se descobertos, significam morte certa não
são formalmente proibidos, e os infinitos expurgos, detenções, torturas,
aprisionamentos e vaporizações não são infligidos na qualidade de castigo
para crimes de fato cometidos, sendo apenas a obliteração de pessoas que
talvez pudessem cometer um crime em algum momento futuro. De um
membro do Partido exige-se que tenha não apenas a opinião certa, mas os
instintos certos. Muitas das crenças e atitudes que se esperam dele jamais
são expostas com clareza — e não poderiam sê-lo sem que as contradições
inerentes ao Socing ficassem visíveis. Se esse membro do Partido for uma
pessoa naturalmente ortodoxa (em Novafala um benepensante), em toda e
qualquer circunstância saberá, sem precisar pensar, qual é a crença
verdadeira e qual a emoção desejável. De qualquer forma, porém, um
elaborado treinamento mental aplicado na infância e relacionado às palavras

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