1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
4 de abril de 1984.
Recostou-se na cadeira. Estava possuído por uma sensação de absoluto
desamparo. Para começar, não sabia com certeza se estava mesmo em 1984.
Devia ser por aí, visto que estava seguro de ter trinta e nove anos e
acreditava ter nascido em 1944 ou 1945; mas nos tempos que corriam era
impossível precisar uma data sem uma margem de erro de um ou dois anos.
Para quem, ocorreu-lhe perguntar-se de repente, estava escrevendo
aquele diário? Para o futuro, para os não nascidos. Sua mente deu voltas por
um momento em torno da data duvidosa na página, depois, com um
solavanco, colidiu com um termo em Novafala: duplipensamento. Pela
primeira vez deu-se conta da dimensão de seu projeto. Como fazer para
comunicar-se com o futuro? Era algo impossível por natureza. Ou bem o
futuro seria semelhante ao presente e não daria ouvidos ao que ele queria
lhe dizer, ou bem seria diferente e sua iniciativa não faria sentido.
Ficou sentado por algum tempo contemplando estupidamente o papel. A
teletela passara a transmitir uma música militar estridente. Estranho, parecia
não apenas ter perdido a capacidade de se expressar, como inclusive ter
esquecido o que originalmente pretendia dizer. Durante semanas se
preparara para aquele momento e jamais lhe passara pela cabeça que
pudesse ter necessidade de alguma outra coisa que não coragem. Escrever,
em si, seria fácil. Bastava transferir para o papel o monólogo infinito e
incansável que ocupava o interior de sua cabeça havia anos, literalmente.
Naquele momento, porém, mesmo o monólogo estancara. Para rematar, sua
úlcera varicosa começara a comichar, uma coisa torturante. Não ousava
coçar-se, porque sempre que fazia isso a úlcera inflamava. Os segundos se
sucediam. Só estava consciente da página vazia diante dele, da comichão na


pele acima do tornozelo, do clangor da música e de uma leve tontura
provocada pelo gim.
De repente começou a escrever de puro pânico, percebendo apenas de
modo impreciso o que ia anotando. Sua letra miúda, infantil, se espalhava
pela página em linhas incertas, abandonando primeiro as maiúsculas, depois
até mesmo os pontos-finais.
4 de abril de 1984. Ontem à noite cineminha. Só filme de
guerra. Um muito bom do bombardeio de um navio cheio de
refugiados em algum lugar do Mediterrâneo. Público achando
muita graça nos tiros dados num gordão que tentava nadar para
longe perseguido por um helicóptero. primeiro ele aparecia
chafurdando na água como um golfinho, depois já estava todo
esburacado e o mar em volta ficou rosa e ele afundou tão de
repente que parecia que a água tinha entrado pelos buracos.
público urrando de tanto rir quando ele afundou. depois
aparecia um bote salva-vidas cheio de crianças com um
helicóptero pairando logo acima. tinha uma mulher de meia-
idade talvez uma judia sentada na proa com um garoto de uns
três anos no colo. garoto chorando de medo e escondendo a
cabeça entre os seios dela como se tentasse se enterrar nela e a
mulher envolvendo o garoto com os braços e tentando acalmá-
lo só que ela mesma estava morta de medo, e o tempo todo
cobria o garoto o máximo possível como se achasse que seus
braços iam conseguir protegê-lo das balas. aí o helicóptero
largou uma bomba de vinte quilos bem no meio deles clarão
terrível e o bote virou um monte de gravetos. depois uma
tomada sensacional de um braço de criança subindo subindo
pelo ar um helicóptero com uma câmera no nariz deve ter
acompanhado o braço subindo e muita gente aplaudiu nos
assentos do partido mas uma mulher sentada no meio dos
proletas de repente começou a criar caso e a gritar que eles não
tinham nada que mostrar aquilo não na frente das crianças não
deviam não era direito não na frente das crianças não era até
que a polícia botou ela botou pra fora acho que não aconteceu


nada com ela ninguém dá a mínima para o que os proletas
falam típica reação de proleta eles nunca…
Winston parou de escrever, em parte porque estava com cãibra. Não sabia
o que o levara a derramar aquela torrente de idiotices. Mas o estranho era
que enquanto ele fazia aquilo uma lembrança completamente diferente se
definira em sua mente, a tal ponto que quase decidira registrá-la. Fora por
causa desse outro incidente, percebia agora, que tomara a decisão repentina
de ir para casa e começar o diário.
Acontecera naquela manhã no Ministério, se é que se podia dizer que
algo assim tão nebuloso pudesse ser chamado de acontecimento.
Eram quase onze da manhã, e no Departamento de Documentação, onde
Winston trabalhava, já arrastavam as cadeiras para fora das estações de
trabalho para reuni-las no centro do salão, na frente da grande teletela, nos
preparativos para os Dois Minutos de Ódio. Winston estava a ponto de se
instalar em uma das fileiras centrais, quando de repente duas pessoas a
quem conhecia de vista mas com quem nunca trocara uma só palavra
entraram no aposento. Uma delas era uma garota com quem muitas vezes
cruzava nos corredores. Não sabia seu nome, porém sabia que trabalhava no
Departamento de Ficção. Supunha — já que a vira algumas vezes com as
mãos sujas de óleo e munida de uma chave inglesa — que tivesse uma
função de caráter mecânico em alguma das máquinas romanceadoras. Era
uma garota de ar provocador, de uns vinte e sete anos, abundante cabelo
preto, rosto sardento e movimentos bruscos, atléticos. Trazia uma faixa
estreita, escarlate, símbolo da Liga Juvenil Antissexo, enrolada na cintura
por cima do macacão, de modo a evidenciar sutilmente as formas
harmoniosas de seus quadris. Winston sentira aversão por ela desde o
primeiríssimo momento em que a vira. Sabia a razão. Era por causa da
atmosfera de quadras de hóquei, banhos frios, caminhadas comunitárias e
mente impoluta que, por alguma razão, a impregnava. Sentia aversão por
quase todas as mulheres, sobretudo as jovens e bonitas. Os adeptos mais
fanáticos do Partido, os devoradores de slogans, os espiões amadores e os
farejadores de inortodoxia eram sempre mulheres, sobretudo as jovens. Mas
aquela garota em especial lhe dava a impressão de ser mais perigosa do que
a maioria. Numa ocasião em que os dois haviam se cruzado no corredor ela
lhe dirigira um rápido olhar enviesado que parecera perfurar seu corpo e por


um instante o deixara tomado do mais profundo horror. Passara-lhe pela
cabeça, inclusive, que ela devia ser uma agente da Polícia das Ideias. Isso,
na verdade, era muito improvável. Mesmo assim ele continuava a sentir um
desconforto esquisito, uma mistura de medo e hostilidade, sempre que ela
estava por perto.
A outra pessoa era um homem chamado O’Brien, membro do Núcleo do
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