1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
TEORIA E PRÁTICA DO
COLETIVISMO OLIGÁRQUICO
de
Emmanuel Goldstein
Winston começou a ler:
Capítulo I
Ignorância é Força
Ao longo de todo o tempo registrado e provavelmente desde o fim do
Neolítico, existem três tipos de pessoas no mundo: as Altas, as Médias e as
Baixas. Essas pessoas se subdividiram de várias maneiras, responderam a
um número incontável de diferentes nomes, e seus totais relativos, bem
como sua atitude umas para com as outras, têm variado de uma época para
outra: mas a estrutura primordial da sociedade jamais foi alterada. Mesmo
depois de tremendas comoções e mudanças aparentemente irrevogáveis, o
mesmo modelo sempre voltou a se firmar, assim como um giroscópio
sempre reencontra o equilíbrio por mais que seja empurrado nesta ou
naquela direção.
Os objetivos desses três grupos são de todo inconciliáveis…
Winston interrompeu a leitura, principalmente para poder apreciar o fato
de que estava lendo, com conforto e em segurança. Estava sozinho: nada de
teletela, nada de ouvido no buraco da fechadura, nada de impulso nervoso
de olhar por cima do ombro ou de cobrir a página com a mão. A aragem
suave do verão acariciava seu rosto. De algum lugar ao longe chegavam-lhe
gritos abafados de crianças: no quarto propriamente dito, não havia som
algum exceto a voz de inseto do relógio. Acomodou-se melhor na poltrona


e apoiou os pés no guarda-fogo. Aquilo era estado de graça, era eternidade.
De repente, como às vezes fazemos com um livro que sabemos que vamos
ler e reler palavra por palavra, abriu-o numa página diferente e constatou
que estava no terceiro capítulo. Retomou a leitura:
Capítulo III
Guerra é Paz
A divisão do mundo em três grandes superestados foi um evento que já
podia ser previsto — e o foi de fato — antes de meados do século 
XX
. Com
a absorção da Europa pela Rússia e do Império Britânico pelos Estados
Unidos, formaram-se duas das três potências hoje existentes: a Eurásia e a
Oceânia. A terceira delas, a Lestásia, só emergiu como unidade distinta
depois de mais uma década de confusos conflitos armados. Em alguns
lugares as fronteiras entre os três superestados são arbitrárias, em outros
oscilam de acordo com os acasos da guerra, mas em geral acompanham
características geográficas. A Eurásia compreende a totalidade da parte
norte dos continentes europeu e asiático, de Portugal ao estreito de Bering.
A Oceânia inclui as Américas, as ilhas atlânticas — inclusive as britânicas
—, a Australásia e a parte sul da África. A Lestásia, menor que as outras e
com uma fronteira ocidental menos definida, inclui a China e os países ao
sul da China, as ilhas do Japão e uma parcela grande mas flutuante da
Manchúria, da Mongólia e do Tibete.
Em 
combinações 
variáveis, 
esses 
três 
superestados 
estão
permanentemente em guerra: tem sido assim nos últimos vinte e cinco anos.
A guerra, contudo, já não é o confronto desesperado, aniquilador, que era
nas primeiras décadas do século 
XX
. É uma luta de objetivos limitados entre
combatentes que não têm como destruir-se uns aos outros, carecem de
causas concretas para lutar e não estão divididos por nenhuma diferença
ideológica genuína. Isso não significa que a prática concreta da guerra ou a
atitude predominante em relação a ela tenha se tornado menos sanguinária
ou mais cavalheiresca. Ao contrário, a histeria guerreira é contínua e
universal em todos os países, e atos como violações, saques, matança de
crianças, redução de populações inteiras à escravidão e represálias contra
prisioneiros — acontece por exemplo de eles serem jogados em água
fervente ou enterrados vivos — são considerados normais e, quando


cometidos pelas tropas amigas, meritórios. Num sentido físico, porém, a
guerra envolve efetivos mínimos — em geral especialistas muito bem
treinados — e causa relativamente poucas baixas. A luta, quando ocorre, se
realiza nas fronteiras imprecisas cuja localização o homem comum só pode
adivinhar, ou em torno das Fortalezas Flutuantes que montam guarda em
pontos estratégicos das rotas marítimas. Nos centros de civilização, guerra
significa simplesmente escassez contínua de bens de consumo e, por vezes,
a explosão de uma bomba-foguete capaz de provocar algumas dezenas de
mortes. Na verdade, as características da guerra mudaram. Mais
exatamente, a ordem de importância das razões pelas quais se travam
guerras mudou. Motivos que até certo ponto já estavam presentes nas
grandes guerras do início do século 
XX
tornaram-se preponderantes e são
conscientemente reconhecidos e levados em consideração.
Para compreender a natureza da guerra atual — pois, a despeito do
reagrupamento que se verifica a cada poucos anos, trata-se sempre da
mesma guerra —, é preciso que se compreenda antes de mais nada que é
impossível que ela seja decisiva. Nenhum dos três superestados poderia ser
definitivamente conquistado — nem mesmo com a aliança dos outros dois.
Existe um equilíbrio muito marcado entre eles, e suas defesas naturais são
gigantescas. A Eurásia é protegida por seus vastos espaços territoriais, a
Oceânia pela extensão do Atlântico e do Pacífico, a Lestásia pela
fecundidade e industriosidade de seus habitantes. Em segundo lugar, já não
existe, no sentido material, nada pelo qual combater. Com o
estabelecimento de economias autossustentáveis, nas quais a produção e o
consumo calibram-se reciprocamente, a disputa de mercados, um dos
principais motivadores das guerras passadas, chegou ao fim; a competição
por matérias-primas deixou de ser questão de vida ou morte. Seja como for,
os três superestados são tão vastos que cada um deles obtém quase todas as
matérias-primas de que necessita dentro de suas próprias fronteiras. Na
medida em que a guerra tem um objetivo econômico direto, trata-se de uma
guerra por força de trabalho. Entre as fronteiras dos superestados, e sem
pertencer permanentemente a nenhum deles, situa-se um quadrilátero
grosseiro cujos ângulos localizam-se em Tânger, Brazzaville, Darwin e
Hong Kong, e que contém em seu interior cerca de um quinto da população
terrestre. É pelo domínio dessas regiões densamente povoadas, bem como
da calota de gelo do polo Norte, que as três potências lutam sem cessar. Na


prática, nenhuma potência chega a controlar a totalidade da área disputada.
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