1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
nem semente, dizem os sinos da São Clemente? 
O’Brien tornou a fazer que sim com a cabeça. Com uma espécie de
cortesia solene, completou a estrofe:
Sem casca nem semente, dizem os sinos da São Clemente,
Esses vinténs são pra mim, cantam os sinos da São Martim
E o culpado, quem é, afinal?, perguntam os sinos do Tribunal…
A culpa é da Judite, respondem os sinos de Shoreditch.
“Você sabia o último verso!”, exclamou Winston.
“É verdade, eu sabia o último verso. E agora, infelizmente, está na hora
de você ir. Espere. É melhor pôr uma dessas pastilhas na boca.”
Quando Winston se levantou, O’Brien estendeu-lhe a mão. Com um
aperto vigoroso, esmagou os ossos da palma de Winston. À porta, Winston


olhou para trás, porém O’Brien aparentemente já estava prestes a tirá-lo da
cabeça. Aguardava com a mão no interruptor que controlava a teletela.
Atrás de O’Brien, Winston viu a escrivaninha com sua luminária verde, o
ditógrafo e os cestos de arame abarrotados de documentos. Aquela
ocorrência estava encerrada. Dentro de trinta segundos, pensou, O’Brien
retomaria o importante trabalho que, antes de ser interrompido, realizava
em favor do Partido.



9.
Winston estava gelatinoso de cansaço. Gelatinoso era a palavra certa. Ela
aparecera espontaneamente em sua cabeça. Seu corpo parecia não apenas
ter a debilidade da gelatina como sua translucidez. Sentia que se erguesse a
mão poderia ver a luz através dela. Todo o sangue e toda a linfa haviam sido
drenados de seu corpo por um imenso excesso de trabalho, deixando apenas
uma frágil estrutura de nervos, ossos e pele. Todas as sensações pareciam
ampliadas. O macacão lhe roçava os ombros, o calçamento lhe fazia
cócegas nos pés. Mesmo o esforço de abrir e fechar a mão fazia suas juntas
ranger.
Em cinco dias, trabalhara mais de noventa horas — ele e todo o pessoal
do Ministério. Agora estava tudo acabado e ele não tinha nada a fazer,
literalmente. Nenhum tipo de tarefa do Partido até a manhã seguinte. Podia
passar seis horas no esconderijo e outras nove em sua própria cama.
Devagar, sob o sol ameno da tarde, seguiu por uma rua imunda na direção
da lojinha do sr. Charrington, sempre atento à possibilidade de aparecer
alguma patrulha, mas irracionalmente convencido de que naquela tarde não
havia perigo de que alguém fosse perturbá-lo. Sua pesada pasta batia em
seu joelho a cada passo que dava. Dentro estava o livro, que permaneceria
em suas mãos por seis dias e que ainda não abrira. Nem sequer dera uma
olhadinha nele.
No sexto dia da Semana do Ódio, depois das paradas, dos discursos, dos
berros, das cantorias, das bandeiras, dos pôsteres, dos filmes, das figuras de
cera, dos rufos dos tambores, dos clangores das cornetas, do rumor dos pés
em marcha, dos rangidos das esteiras dos tanques, do estrondo das
esquadrilhas de aviões, dos estampidos dos revólveres — depois de seis
dias disso tudo, quando o grande orgasmo avançava trêmulo para o clímax e
o ódio de todos pela Eurásia fervia, formando um delírio de dimensões


tamanhas que se a multidão pusesse as mãos nos dois mil criminosos de
guerra eurasianos que seriam enforcados num ato público no último dia dos
festejos, indubitavelmente tê-los-ia estraçalhado —, justo nesse momento
fora anunciado que a Oceânia na realidade não estava em guerra com a
Eurásia. A Oceânia estava em guerra com a Lestásia. A Eurásia era uma
aliada.
É óbvio que não houve nenhum reconhecimento de que algo mudara.
Simplesmente tornou-se sabido, de maneira muito repentina e em toda parte
ao mesmo tempo, que agora o inimigo era a Lestásia — e não a Eurásia.
Winston participava de uma manifestação em uma das praças centrais de
Londres no momento em que isso se deu. Estava escuro, e os rostos brancos
e as bandeiras escarlates, iluminados, tinham um aspecto sinistro. A praça
estava tomada por vários milhares de pessoas, inclusive uma tropa de cerca
de mil escolares envergando o uniforme dos Espiões. Num palanque
recoberto de panos escarlates drapeados, um orador do Núcleo do Partido,
homem miúdo e esguio de braços desproporcionalmente longos e um vasto
crânio calvo sobre o qual se viam algumas mechas extraviadas de cabelo
liso, discursava para o povo. O pequeno personagem lembrava
Rumpelstiltskin; contorcido de ódio, pendurava-se ao microfone com uma
das mãos e com a outra, enorme na ponta de um braço ossudo, dilacerava o
ar, ameaçador. Sua voz, que os amplificadores tornavam metálica, atroava a
praça, despejando um catálogo infinito de horrores, massacres, deportações,
saques, estupros, torturas de prisioneiros, bombardeio de civis, propagandas
enganosas, agressões injustas, tratados rompidos. Era quase impossível
ouvi-lo sem ficar primeiro convencido, depois irado. A cada poucos
minutos a fúria da multidão transbordava e a voz do orador era afogada
pelos rugidos selvagens que subiam, descontrolados, de milhares de
gargantas. Os brados mais selvagens eram os dos escolares. O discurso já
durava uns vinte minutos quando um mensageiro subiu correndo ao
palanque e enfiou um pedaço de papel na mão do orador. Ele desdobrou o
papel e leu o que estava escrito, sem interromper sua fala. Nada alterou sua
voz, nem sua atitude, tampouco o teor do que dizia, mas de repente os
nomes haviam mudado. Sem que uma só palavra de advertência fosse
pronunciada, uma onda de entendimento percorreu a multidão. A Oceânia
entrara em guerra com a Lestásia! No momento seguinte houve uma
comoção fenomenal. As bandeiras e os pôsteres que decoravam a praça


estavam todos errados! Pelo menos metade deles ostentava os rostos
errados. Sabotagem! Coisa dos agentes de Goldstein! Houve um interlúdio
tumultuado em que pôsteres foram arrancados das paredes e bandeiras
foram despedaçadas e em seguida pisoteadas. Os Espiões entraram numa
atividade prodigiosa, escalando os telhados e cortando as bandeirolas que
tremulavam presas às chaminés. Dois ou três minutos depois, porém, tudo
voltara à paz. O orador, sempre agarrado ao microfone, ombros encolhidos,
inclinado para a frente, a mão livre dilacerando o ar, não interrompera seu
discurso. Um minuto depois, os rugidos animalescos de fúria emitidos pela
multidão voltaram a explodir. O Ódio prosseguiu exatamente como antes,
com a única diferença de que seu alvo mudara.
Ao pensar no que havia acontecido, o que impressionou Winston foi o
orador ter trocado o sentido de seu discurso no meio de uma frase, não
apenas sem pausa como sem ruptura de sintaxe. No momento, contudo,
preocupava-se com outras coisas. Foi durante o momento de desordem,
enquanto os pôsteres estavam sendo arrancados, que um homem cujo rosto
não chegou a ver lhe dera um tapinha no ombro, dizendo: “Desculpe, acho
que o senhor deixou cair sua pasta”. Winston pegara a pasta distraído, sem
dizer nada. Sabia que seria preciso esperar alguns dias para ter a
oportunidade de dar uma olhada em seu conteúdo. Assim que a
manifestação chegou ao fim, tomou o rumo do Ministério da Verdade,
embora já fossem quase onze da noite. Todo o pessoal do Ministério fizera
o mesmo. As teletelas já emitiam ordens, convocando todos a ocupar seus
postos, mas eram ordens totalmente desnecessárias.
A Oceânia estava em guerra com a Lestásia: a Oceânia sempre estivera
em guerra com a Lestásia. Boa parte da literatura política dos últimos cinco
anos se tornara completamente obsoleta. Relatórios e publicações de todo
tipo, jornais, livros, panfletos, filmes, trilhas sonoras, fotografias — tudo
tinha de ser corrigido à velocidade da luz. Embora jamais se emitissem
instruções precisas, sabia-se que os chefes do Departamento pretendiam que
em uma semana já não existissem em lugar nenhum referências à guerra
com a Eurásia ou à aliança com a Lestásia. Era um trabalho enlouquecedor,
ainda mais porque os processos envolvidos não podiam ser designados por
seus próprios nomes. No Departamento de Registros, todos trabalhavam
dezoito horas por dia com dois intervalos de três horas para dormir. Vieram
colchões do subsolo, que foram espalhados pelos corredores: as refeições


consistiam em sanduíches e café Victory distribuídos por carrinhos
operados por funcionários da cantina. Toda vez que Winston interrompia o
trabalho para seu turno de sono, tentava deixar a escrivaninha arrumada,
sem trabalho em andamento, e sempre que se arrastava de volta para seu
lugar, de olhos grudentos, todo dolorido, constatava que outra montanha de
cilindros de papel recobrira a escrivaninha como uma nevasca, quase
enterrando o ditógrafo e escorregando para o chão, de modo que sua
primeira tarefa era sempre empilhá-los com uma certa aparência de ordem
para abrir espaço e poder trabalhar. O pior de tudo era que seu trabalho não
tinha nada de mecânico. Muitas vezes bastava trocar um nome pelo outro,
mas todo relatório mais detalhado exigia cuidado e imaginação. Mesmo o
conhecimento geográfico necessário para transferir a guerra de um lugar do
mundo para outro era considerável.
No terceiro dia, a dor que sentia nos olhos era insuportável e seus óculos
precisavam ser limpos de poucos em poucos minutos. Era como ver-se
diante de uma tarefa física monumental, algo que a pessoa teria o direito de
recusar-se a fazer e que mesmo assim, neuroticamente, quer realizar. Até
onde Winston conseguia se lembrar, não se sentia incomodado pelo fato de
que toda palavra que murmurava ao ditógrafo, todo traço de seu lápis-tinta,
era uma mentira deliberada. Estava tão ansioso quanto os demais
funcionários do Departamento para que a contrafação ficasse perfeita. Na
manhã do sexto dia, a chuva de cilindros amainou. Durante meia hora, nada
saiu do tubo pneumático; então veio outro cilindro e em seguida mais
nenhum. Por toda parte, mais ou menos à mesma hora, o trabalho estava
rareando. Um suspiro profundo, embora secreto, percorreu o Departamento.
Um feito grandioso, que jamais poderiam mencionar, acabava de ser
realizado. Agora nenhum ser humano seria capaz de provar com uma
evidência documental que algum dia a Oceânia estivera em guerra com a
Eurásia. À meia-noite houve um anúncio inesperado: todos os funcionários
do Ministério estavam de folga até a manhã seguinte. Winston, sempre com
a pasta que continha o livro — e que permanecera entre seus pés enquanto
ele trabalhava e debaixo de seu corpo enquanto dormia —, foi para casa, fez
a barba e quase adormeceu no banho, embora a água estivesse pouco mais
que tépida.
Com uma espécie de estalo voluptuoso nas juntas, subiu a escada que
levava aos altos da lojinha do sr. Charrington. Estava cansado, mas já não


sentia sono. Abriu a janela, acendeu o pequeno e sujo fogareiro a óleo e pôs
uma panela com água para esquentar, com a intenção de fazer um café. Julia
chegaria em breve: enquanto isso, tinha o livro. Sentou-se na poltrona
desmazelada e abriu a pasta.
Era um pesado volume negro, encadernado por algum amador, sem título
nem autor na capa. A impressão também parecia um tanto irregular. As
páginas estavam gastas nas bordas e soltavam-se facilmente, como se o
livro tivesse passado por muitas mãos. No frontispício, constava:

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