1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
qualquer coisa —, mas não podem fazê-lo acreditar nisso. Não podem
entrar em você.”


“Não”, disse ele, um pouco mais esperançoso. “Não conseguem mesmo.
É verdade. Não conseguem entrar em você. Se você conseguir sentir que
vale a pena continuar humano, mesmo que isso não tenha a menor utilidade,
você os venceu.”
Winston pensou na teletela, com seu ouvido que nunca dorme. Podiam
espionar sua vida noite e dia, mas se você não perdesse a cabeça
conseguiria ser mais esperto do que eles. Com toda a sua inteligência, eles
jamais haviam dominado o segredo de descobrir o que outro ser humano
está pensando. Talvez isso fosse menos verdadeiro a partir do momento em
que você estivesse efetivamente nas mãos deles. Ninguém sabia o que se
passava dentro do Ministério do Amor, mas era fácil adivinhar: torturas,
drogas, instrumentos delicados que registravam suas reações nervosas,
desgaste progressivo em decorrência da falta de sono, da solidão, de
interrogatórios incessantes. Os fatos, pelo menos, não podiam ser mantidos
ocultos. Era possível desvendá-los por meio de investigações, extraí-los de
você com o recurso da tortura. Mas… e se seu objetivo não fosse
permanecer vivo, e sim permanecer humano? Que diferença isso faria no
fim? Eles não tinham como alterar seus sentimentos: aliás, nem mesmo
você conseguiria alterá-los, mesmo que quisesse. Podiam arrancar de você
até o último detalhe de tudo que você já tivesse feito, dito ou pensado; mas
aquilo que estava no fundo de seu coração, misterioso até para você, isso
permaneceria inexpugnável.



8.
Tinham reunido coragem, enfim tinham reunido coragem!
A sala em que se encontravam era comprida e suavemente iluminada. O
som da teletela se reduzira a um murmúrio; a suntuosidade do carpete azul-
escuro dava a impressão de que a pessoa pisava num pedaço de veludo.
O’Brien estava na outra extremidade do aposento, sentado a uma mesa sob
uma luminária verde, entre duas pilhas enormes de documentos. Não se
dera ao trabalho de levantar a cabeça quando o criado fez Julia e Winston
entrar.
O coração de Winston martelava tanto que ele não sabia se seria capaz de
falar. Tinham reunido coragem, enfim tinham reunido coragem, era tudo o
que conseguia pensar. Fora uma temeridade ir até lá, e loucura completa
terem chegado juntos, muito embora houvessem feito caminhos diferentes e
tivessem se encontrado apenas diante da porta do apartamento de O’Brien.
Contudo, o simples ato de pôr os pés num lugar como aquele já
demonstrava uma enorme ousadia. Somente em ocasiões muito raras a
pessoa conhecia por dentro a residência dos membros do Núcleo do Partido,
e até passar pelo bairro da cidade em que eles moravam era um
acontecimento incomum. A atmosfera do imenso bloco de apartamentos, a
opulência e a amplidão de tudo, os odores estranhos da comida e do tabaco
de boa qualidade, os elevadores silenciosos, subindo e descendo a
velocidades incríveis, os criados de paletó branco correndo de um lado para
outro — tudo era intimidador. Conquanto tivesse um bom pretexto para
estar ali, a cada passo que dava Winston era assolado pelo temor de que um
guarda de uniforme escuro surgisse de repente e exigisse seus documentos e
o mandasse embora dali. Porém o criado de O’Brien não hesitara em abrir a
porta para eles. Era um homenzinho moreno de paletó branco, com um
rosto em forma de losango completamente destituído de expressão, um


rosto que poderia muito bem pertencer a um chinês. Conduziu-os por um
corredor acarpetado, com papel de parede creme e lambris brancos, tudo
extremamente limpo. Isso também era uma fonte de intimidação. Winston
não se lembrava de algum dia ter visto corredores cujas paredes não
estivessem encardidas pelo contato de corpos humanos.
O’Brien segurava uma tira de papel entre os dedos e parecia estudá-la
concentradamente. O rosto de feições pesadas, curvado para baixo de
maneira a exibir o contorno do nariz, parecia a um só tempo amedrontador
e perspicaz. Por cerca de vinte segundos, manteve-se imóvel. Depois puxou
o ditógrafo e ditou uma mensagem no jargão híbrido dos ministérios:
Itens um vírgula cinco vírgula sete todamente aprovados ponto
sugestão contida item seis duplomais ridícula beirando
crimepensar revogada ponto improsseguir construtivamente
anteobter estimativas maisveras custo maquinário ponto fim
mensagem.
O’Brien se ergueu com determinação da cadeira e andou na direção
deles, atravessando com passos silenciosos o piso acarpetado. A atmosfera
oficial pareceu tornar-se menos marcada quando ele deixou de usar o
vocabulário em Novafala, porém sua expressão estava mais severa do que
de costume, como se a interrupção o aborrecesse. De repente, o pavor que
Winston já sentia foi atingido por um fio de embaraço perfeitamente
comum. Pareceu-lhe bem possível ter cometido um equívoco estúpido. Pois
que evidência tinha de que O’Brien estava de fato envolvido em algum tipo
de conspiração política? Nenhuma, além de uma rápida troca de olhares e
um comentário ambíguo; fora isso, tudo se resumia a suas próprias
fabulações secretas baseadas num sonho. Não podia nem mesmo recorrer ao
pretexto de que viera pegar o dicionário emprestado, pois nesse caso seria
impossível explicar a presença de Julia. Ao passar pela teletela, O’Brien
pareceu lembrar-se de alguma coisa. Estacou, virou para o lado e
comprimiu um interruptor na parede. Ouviu-se um estalido seco. A voz
emudecera.
Julia emitiu um som minúsculo, uma espécie de gritinho de surpresa.
Mesmo em pânico, Winston estava abismado demais para conseguir segurar
a língua.


“Vocês podem desligar!”, exclamou.
“É”, disse O’Brien, “podemos. Temos esse privilégio.”
Estava na frente deles agora. Sua figura sólida elevava-se sobre os dois, e
a expressão em seu rosto permanecia indecifrável. Esperava, com alguma
severidade, que Winston falasse — mas o quê? Mesmo àquela altura, era
perfeitamente admissível que O’Brien não fosse mais que um homem
ocupado que se indagava, irritado, por que fora interrompido por aqueles
dois. Ninguém abria a boca. Depois que a teletela fora desligada, um
silêncio sinistro tomara conta da sala. Os segundos iam passando, imensos.
Com dificuldade, Winston mantinha os olhos fixos nos de O’Brien. Então,
de repente, a expressão carrancuda se desfez e deu lugar a algo que poderia
ser o princípio de um sorriso. Com o gesto que lhe era característico,
O’Brien ajeitou os óculos no nariz.
“Falo eu ou falam vocês?”, disse.
“Eu falo”, disse Winston prontamente. “Essa coisa está mesmo
desligada?”
“Está. Está tudo desligado. Estamos a sós.”
“Viemos até aqui porque…”
Fez uma pausa, dando-se conta pela primeira vez de quão vagos eram os
seus motivos. Como não sabia efetivamente que tipo de ajuda O’Brien
poderia lhe oferecer, não era fácil dizer o que fora fazer ali. Prosseguiu,
ciente de que o que estava dizendo parecia inconsistente e pretensioso:
“Acreditamos que exista algum tipo de conspiração, algum tipo de
organização secreta trabalhando contra o Partido e que o senhor está
envolvido nela. Somos inimigos do Partido. Descremos dos princípios do
Socing. Somos criminosos do pensamento. Também somos adúlteros. Estou
contando isso porque queremos nos colocar em suas mãos. Se desejar que
nos incriminemos de alguma outra forma, estamos à sua disposição.”
Parou e olhou por cima do ombro, com a sensação de que a porta se
abrira. E, de fato, o criado de semblante amarelo entrara sem bater. Winston
percebeu que ele trazia uma bandeja com uma garrafa e taças.
“Martin é dos nossos”, disse O’Brien, impassível. “Traga os drinques
para cá, Martin. Deixe em cima da mesa redonda. Temos cadeiras
suficientes? Então vamos nos sentar e conversar confortavelmente. Vá
pegar uma cadeira para você, Martin. O negócio é sério. Pode deixar de ser
criado pelos próximos dez minutos.”


O homenzinho se sentou com bastante naturalidade, mas ainda assim seu
ar era servil — o ar de um empregado que desfruta momentaneamente de
um privilégio. Winston o observava com o rabo do olho. Ocorreu-lhe que a
vida do sujeito era representar um papel, e que ele devia achar perigoso
abandonar, mesmo por alguns instantes, aquela personalidade fictícia.
O’Brien pegou a garrafa pelo gargalo e encheu as taças com um líquido
vermelho-escuro. Aquilo despertou em Winston lembranças confusas de
algo visto num passado longínquo, num muro ou num tabique: uma garrafa
enorme, composta de lâmpadas elétricas, que parecia movimentar-se para
cima e para baixo, despejando seu conteúdo num copo. Vista de cima, a
coisa parecia quase preta; na garrafa, porém, cintilava como um rubi. Tinha
um aroma agridoce. Winston viu Julia pegar sua taça e cheirá-la com franca
curiosidade.
“Chama-se vinho”, disse O’Brien, esboçando um sorriso. “Tenho certeza
de que já leram a respeito em algum livro. Infelizmente, não costuma
chegar ao Partido Externo.” Seu rosto tornou a adquirir um aspecto solene,
e ele ergueu sua taça: “Creio que seria apropriado se começássemos com
um brinde. Ao nosso Líder. A Emmanuel Goldstein”.
Winston pegou sua taça com certa avidez. Vinho era algo sobre o qual
havia lido e com que sonhava. Como o peso de papel de vidro ou as
quadrinhas parcialmente rememoradas do sr. Charrington, pertencia a um
passado extinto, romântico, o tempo de antigamente, como gostava de
denominá-lo em seus pensamentos secretos. Por algum motivo, sempre
imaginara que vinho teria um sabor extremamente doce, como o de geleia
de amora, além de causar embriaguez imediata. Quando o tragou, porém,
ficou profundamente decepcionado. A verdade era que, depois de anos
bebendo gim, mal conseguia sentir o gosto daquilo na boca. Deixou a taça
vazia em cima da mesa.
“Quer dizer que existe mesmo um homem chamado Goldstein?”,
indagou.
“Existe, sim, e está bem vivo. Onde, não sei.”
“E a conspiração — a organização? É real? Não se trata apenas de uma
invenção da Polícia das Ideias?”
“É real também. Nós a chamamos de Confraria. Vocês nunca saberão
coisa alguma a seu respeito, além do fato de que ela existe e de que
pertencem a ela. Volto já a esse ponto.” O’Brien consultou o relógio de


pulso. “É imprudência manter a teletela desligada por mais de meia hora —
até para um membro do Núcleo do Partido. Vocês não deviam ter vindo
juntos e terão de sair separadamente. Você, camarada — curvou a cabeça
para Julia —, irá primeiro. Temos vinte minutos. Sei que compreenderão a
necessidade de eu começar com algumas perguntas. Em termos gerais, o
que estão dispostos a fazer?”
“Tudo o que estiver a nosso alcance”, disse Winston.
O’Brien se virara um pouco na cadeira de modo a ficar de frente para
Winston. Praticamente ignorava Julia, dando a impressão de considerar que
Winston falava por ela. Por um instante, as pálpebras desceram sobre seus
olhos. Começou a fazer as perguntas numa voz baixa, inexpressiva, como se
aquilo fosse um procedimento rotineiro, uma espécie de catecismo cujas
respostas soubesse, na maioria, de antemão.
“Dispõe-se a comprometer sua vida?”
“Sim.”
“Está preparado para cometer assassinatos?”
“Sim.”
“Concorda em cometer atos de sabotagem que podem causar a morte de
centenas de inocentes?”
“Sim.”
“Trair seu país em benefício de potências estrangeiras?”
“Sim.”
“Enganar, falsificar, chantagear, corromper crianças, distribuir drogas que
causam dependência, estimular a prostituição, disseminar doenças venéreas
— fazer tudo o que possa causar a desmoralização e o enfraquecimento do
poder do Partido?”
“Sim.”
“Se, por exemplo, jogar ácido sulfúrico no rosto de uma criança for uma
ação que de alguma forma atenda a nossos interesses, será capaz de
executá-la?”
“Sim.”
“Dispõe-se a perder a identidade e passar o resto da vida trabalhando
como garçom ou estivador?”
“Sim.”
“Está preparado para cometer suicídio se e quando lhe for ordenado fazer
isso?”


“Sim.”
“Estão dispostos, vocês dois, a se separarem e nunca mais se verem?”
“Não!”, interveio Julia.
Winston teve a impressão de que um longo tempo transcorreu antes que
ele respondesse. Por um momento pareceu-lhe inclusive ter perdido o poder
da fala. Sua língua trabalhava em silêncio, formando as sílabas iniciais,
primeiro de uma palavra, depois de outra, vezes e vezes sem conta. Até
pronunciá-la, não sabia que palavra lhe sairia da boca. “Não”, disse por fim.
“Fizeram bem em esclarecer isso”, disse O’Brien. “Precisamos saber de
tudo.”
Virou-se para Julia e acrescentou, numa voz que parecia ligeiramente
mais expressiva:
“Compreende que, mesmo sobrevivendo, ele talvez se torne outra
pessoa? Talvez sejamos obrigados a lhe dar uma nova identidade. Seu rosto,
seus movimentos, o formato de suas mãos, a cor de seus cabelos e mesmo a
voz dele talvez fiquem diferentes. E você também pode se tornar uma
pessoa diferente. Nossos cirurgiões são capazes de transformar as pessoas,
deixando-as irreconhecíveis. Isso às vezes é necessário. Há casos em que
chegamos mesmo a amputar um braço ou uma perna.”
Winston não pôde deixar de lançar mais um olhar de soslaio para o rosto
mongol de Martin. Não conseguiu identificar nenhuma cicatriz. Julia ficara
um pouco mais pálida, deixando à mostra suas sardas, porém encarava
O’Brien com audácia. Murmurou algo que pareceu ser uma aquiescência.
“Muito bom. Então estamos combinados.”
Sobre a mesa, via-se uma caixa prateada de cigarros. Com ar um tanto
distraído, O’Brien a empurrou para todos, tirou um cigarro para si e em
seguida se levantou, pondo-se a andar vagarosamente de um lado para
outro, como se em pé raciocinasse melhor. Eram cigarros de excelente
qualidade, grossos e bem embalados, com um papel de uma sedosidade
incomum. O’Brien tornou a consultar o relógio de pulso.
“É melhor você voltar para a copa, Martin”, disse. “Vou ligar daqui a
quinze minutos. Dê uma boa olhada no rosto desses camaradas antes de ir.
Você os verá outra vez. Eu talvez não.”
Exatamente como haviam feito à porta do apartamento, os olhos escuros
do homenzinho se iluminaram e cravaram-se nos semblantes de Winston e
Julia. Em sua atitude não havia um só traço de cordialidade. Estava


memorizando a aparência dos dois, mas não sentia o menor interesse por
eles, ou aparentava não sentir. Ocorreu a Winston que um rosto sintético
talvez fosse incapaz de mudar de expressão. Sem abrir a boca nem fazer
nenhum gesto de despedida, Martin se foi, fechando silenciosamente a porta
atrás de si. O’Brien andava de lá para cá, uma mão no bolso do macacão
preto, a outra segurando o cigarro.
“Devem entender”, disse, “que lutarão no escuro. Estarão sempre no
escuro. Receberão ordens e as obedecerão sem saber por quê. Mais tarde
lhes enviarei um livro que os instruirá sobre a verdadeira natureza da
sociedade em que vivemos e a estratégia por meio da qual pretendemos
destruí-la. Quando tiverem lido o livro, serão membros plenos da Confraria.
Mas quanto à relação entre os objetivos gerais pelos quais lutamos e as
tarefas imediatas do momento, vocês nunca saberão coisa nenhuma.
Garanto-lhes que a Confraria existe, mas não posso dizer se seus membros
chegam a uma centena ou a dez milhões. Por conhecimento próprio, vocês
jamais serão capazes de dizer se seus integrantes chegam até mesmo a uma
dúzia. Terão três ou quatro contatos, que de vez em quando desaparecerão e
serão renovados. Como este foi o primeiro contato de vocês, ele será
preservado. As ordens que receberem, terão vindo de mim. Se acharmos
necessário nos comunicar com vocês, isso será feito através do Martin.
Quando finalmente forem apanhados, vocês confessarão. Isso é inevitável.
Porém terão muito pouco o que confessar além de suas próprias ações. Não
poderão trair mais que um punhado de pessoas sem importância. É provável
que nem a mim vocês traiam. Talvez eu já esteja morto ou tenha me tornado
outra pessoa, com outro rosto.”
O’Brien continuava caminhando de lá para cá sobre o tapete macio.
Mesmo com aquele corpo avantajado, seus movimentos tinham uma
elegância notável. Isso se evidenciava até na maneira como enfiava a mão
no bolso ou manipulava um cigarro. Mais ainda que de força, O’Brien
transmitia uma sensação de confiança e de compreensão com um toque de
ironia. Por mais dedicado que fosse, não tinha nada da obstinação que
caracteriza o fanático. Quando falava em assassinato, suicídio, doenças
venéreas, membros amputados e rostos modificados, fazia-o com um leve
ar de galhofa. “Isso é inevitável”, sua voz parecia dizer, “isso é o que temos
de fazer, sem vacilar. Mas não é isso que faremos quando a vida voltar a
valer a pena.” Uma onda de admiração, quase de adoração, fluía de Winston


para O’Brien. Winston se esquecera momentaneamente da figura obscura
de Goldstein. Diante dos ombros pujantes de O’Brien e daquele rosto de
feições rudes — tão feio e todavia tão civilizado —, era impossível
acreditar que ele pudesse ser derrotado. Não havia estratagema que ele não
enfrentasse, nenhum risco que não pudesse prever. Até Julia parecia
impressionada. Deixara seu cigarro apagar e escutava com atenção. O’Brien
continuou:
“Já devem ter ouvido rumores sobre a existência da Confraria. Sem
dúvida formaram sua própria imagem dela. Com toda a probabilidade,
imaginam um vasto submundo de conspiradores reunindo-se secretamente
em porões, rabiscando mensagens em muros, reconhecendo uns aos outros
por meio de códigos ou movimentos especiais da mão. Nada disso existe.
Os membros da Confraria não têm como identificar uns aos outros, e um
membro jamais conhece mais que um reduzidíssimo número de outros
membros. O próprio Goldstein, se caísse nas mãos da Polícia das Ideias,
não teria como fornecer a lista completa dos membros do movimento nem
disporia de informações que lhes permitissem completar a lista. Não existe
tal lista. A Confraria não pode ser liquidada porque não é uma organização
no sentido usual do termo. Nada além da ideia de que é indestrutível a
mantém ativa. Vocês jamais contarão com nenhum outro alento além dessa
ideia. Não experimentarão camaradagem nem encorajamento. Quando por
fim forem apanhados, não receberão nenhuma ajuda. Nunca ajudamos
nossos membros. No máximo, quando é absolutamente necessário que
alguém seja silenciado, às vezes conseguimos introduzir às escondidas uma
navalha na cela do prisioneiro. Trabalharão por algum tempo, serão presos,
confessarão e depois morrerão. São esses os únicos resultados que haverão
de testemunhar. Não há a menor possibilidade de que ocorram mudanças
perceptíveis em nossa geração. Nós somos os mortos. Nossa única vida
genuína repousa no futuro. Participaremos dela na condição de pó e
fragmentos ósseos. Não há, porém, como saber quanto tempo decorrerá até
o advento desse futuro. Talvez mil anos. No momento, nada é possível,
exceto ampliar pouco a pouco a área de sanidade. Não temos como agir
coletivamente. Só podemos disseminar nosso conhecimento de indivíduo a
indivíduo, geração após geração. Com a Polícia das Ideias, não há outra
saída.”


Interrompeu-se e consultou pela terceira vez o relógio de pulso. “Está
quase na hora de você partir, camarada”, disse para Julia. “Espere. A
garrafa ainda está pela metade.”
O’Brien encheu as taças e ergueu a sua pela base.
“A que brindaremos desta vez?”, perguntou, ainda com a mesma
insinuação sutil de ironia. “À desorganização da Polícia das Ideias? À morte
do Grande Irmão? À humanidade? Ao futuro?”
“Ao passado”, disse Winston.
“Ao passado é mais importante”, concordou gravemente O’Brien.
Esvaziaram seus copos e em seguida Julia se levantou para sair. O’Brien
tirou uma caixinha do alto de um armário e deu a ela uma pastilha lisa e
branca, instruindo-a a colocá-la sobre a língua. Era importante, explicou,
não sair cheirando a vinho: os ascensoristas do edifício eram muito
vigilantes. Tão logo a porta se fechou atrás dela, O’Brien pareceu ter se
esquecido de sua existência. Recomeçou a andar de lá para cá, depois
estacou.
“Temos de acertar alguns detalhes”, disse. “Imagino que disponha de
algum tipo de esconderijo.”
Winston mencionou o aposento sobre a loja do sr. Charrington.
“Por ora isso serve. Mais tarde encontraremos outra coisa para você. É
importante trocar frequentemente de esconderijo. Também lhe mandarei um
exemplar do livro” — Winston notou que até O’Brien parecia pronunciar a
palavra como se ela estivesse em grifo —, “o livro de Goldstein, claro, o
mais rápido possível. Talvez leve alguns dias para eu conseguir um. Como
deve imaginar, não existem muitos. A Polícia das Ideias sai atrás deles e os
destrói quase tão depressa quanto somos capazes de imprimi-los. Não faz a
menor diferença. O livro é indestrutível. Ainda que perdêssemos o último
exemplar, poderíamos reproduzi-lo praticamente palavra por palavra.
Quando vai para o trabalho, você leva uma pasta?”, acrescentou.
“Geralmente, sim.”
“Como ela é?”
“Preta, bem velha. Com duas alças.”
“Preta, duas alças, bem velha — ótimo. Um dia, num futuro muito
próximo — não posso lhe dar uma data exata —, numa das mensagens que
você recebe pela manhã no trabalho, haverá uma palavra com um erro de
impressão e você terá de solicitar uma retransmissão. No dia seguinte, irá


para o trabalho sem a sua pasta. Em algum momento durante o dia, quando
estiver na rua, um homem tocará seu braço e dirá: ‘Acho que o senhor
deixou cair sua pasta’. Na pasta que ele vai lhe dar, você encontrará um
exemplar do livro de Goldstein. Deve devolvê-lo em catorze dias.”
Permaneceram um momento em silêncio.
“Daqui a pouco você deverá ir embora, mas ainda dispomos de alguns
minutos”, disse O’Brien. “Provavelmente nos encontraremos de novo… Se
de fato nos encontrarmos de novo…”
Winston levantou os olhos para fitá-lo. “No lugar onde não há
escuridão?”, perguntou, hesitante.
Sem demonstrar surpresa, O’Brien fez que sim com a cabeça. “No lugar
onde não há escuridão”, disse, como se reconhecesse a alusão. “E, nesse
ínterim, há alguma coisa que gostaria de me dizer antes de partir? Alguma
mensagem? Alguma pergunta?”
Winston refletiu. Não parecia ter mais nenhuma pergunta que quisesse
fazer e não sentia a menor vontade de dizer generalidades presunçosas. Em
vez de algo diretamente relacionado com O’Brien ou com a Confraria, o
que lhe veio à mente foi uma imagem em que se misturavam o quarto
escuro onde sua mãe passara os últimos dias de sua vida, o comodozinho
sobre a loja do sr. Charrington, o peso de papel de vidro e a gravura de aço
com sua moldura de pau-rosa. Disse quase à toa:
“Por acaso já ouviu uma velha quadrinha que começa assim: Sem casca

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