1984 Edição especial



Baixar 3.88 Mb.
Pdf preview
Página33/119
Encontro04.08.2022
Tamanho3.88 Mb.
#24481
1   ...   29   30   31   32   33   34   35   36   ...   119
1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Dicionário de Novafala?”
“Não”, disse Winston. “Não sabia que já tinha saído. No Departamento
de Documentação ainda estamos usando a nona edição.”
“Acho que a décima só vai ser publicada daqui a alguns meses. Mas uns
poucos exemplares foram distribuídos antecipadamente. Eu recebi um.
Pensei que talvez você se interessasse em dar uma espiada.”
“Claro que sim”, disse Winston, percebendo de imediato aonde aquilo
iria levar.
“Algumas das novas mudanças são extremamente engenhosas. A
diminuição do número de verbos — acho que esse é o aspecto que você
considerará mais atraente. Bom, vejamos. Que tal se eu mandar um
mensageiro com o dicionário para você? O problema é que sempre acabo
me esquecendo dessas coisas. E se você desse um pulo no meu apartamento
um dia desses? Espere um minuto. Vou lhe dar o endereço.”
Estavam em frente a uma teletela. Um tanto distraidamente, O’Brien
apalpou dois de seus bolsos e sacou uma caderneta de couro e um lápis-tinta
dourado. Bem embaixo da teletela, depois de posicionar-se de forma a que
todo aquele que estivesse observando a cena na outra ponta do sistema
pudesse ler o que ele estava escrevendo, O’Brien rabiscou um endereço,
arrancou a folha e entregou-a a Winston.
“Geralmente estou em casa à noite”, disse. “Caso não esteja, minha
empregada lhe entregará o dicionário.”
E foi embora, deixando Winston com o pedaço de papel na mão. Apesar
de que daquela vez não houvesse necessidade de ocultá-lo, Winston
memorizou cuidadosamente o conteúdo e horas depois jogou-o no buraco
da memória, junto com uma maçaroca de outros papéis.


A conversa não durara mais que alguns minutos. O episódio só podia ter
um significado. Fora planejado com o intuito de informar a Winston o
endereço de O’Brien. Isso fora necessário porque a única maneira de se
descobrir onde determinada pessoa morava era perguntando diretamente a
ela. Não havia nenhum tipo de lista de endereços. “Se um dia quiser falar
comigo, me encontrará neste endereço”, fora o que O’Brien lhe dissera.
Talvez houvesse até uma mensagem escondida no dicionário. De toda
forma, uma coisa era certa. A conspiração com que Winston sonhara de fato
existia, e ele acabara de se aproximar de seus limites externos.
Winston sabia que cedo ou tarde atenderia à convocação de O’Brien.
Talvez no dia seguinte, talvez depois de um longo interlúdio — quanto a
isso não tinha certeza. O que estava acontecendo era apenas o
desdobramento de um processo iniciado anos antes. O primeiro passo fora
um pensamento secreto e involuntário; o segundo, a abertura do diário.
Passara dos pensamentos às palavras, e agora passava das palavras às ações.
O último passo seria alguma coisa que teria lugar no Ministério do Amor.
Winston aceitara o fato. O fim estava contido no princípio. Porém era
assustador; ou, mais exatamente, era como uma prévia da morte, como estar
um pouco menos vivo. Quando conversava com O’Brien e as palavras
começaram a fazer sentido para ele, uma sucessão de arrepios percorrera-
lhe o corpo. Tinha a sensação de estar pisando na terra úmida de um
túmulo, e o fato de sempre ter sabido que o túmulo estava ali à sua espera
não melhorava muito as coisas.



7.
Winston acordara com lágrimas nos olhos. Julia, sonolenta, rolou para perto
dele murmurando alguma coisa que talvez fosse “Qual é o problema?”.
“Sonhei…”, começou ele, e em seguida se calou. Era complexo demais
para traduzir em palavras. Havia o sonho em si, e havia uma lembrança
associada ao sonho que aflorara em sua mente alguns segundos depois de
ele acordar.
Sem abrir os olhos, Winston continuou deitado, ainda embebido pela
atmosfera do sonho. Era um sonho vasto, luminoso, no qual sua vida inteira
parecia estender-se diante dele como uma paisagem depois da chuva numa
tarde de verão. Tudo o que acontecera, acontecera no interior do peso de
papel de vidro, mas a superfície do vidro era a abóbada celeste, e no interior
da abóbada celeste tudo estava inundado de uma luz muito clara e suave
que permitia que se visse a distâncias intermináveis. O sonho também
estava embutido num gesto com o braço feito por sua mãe — na verdade,
em certo sentido o sonho era exatamente aquele gesto —, e repetido trinta
anos depois pela mulher judia que vira no noticiário tentando proteger o
garotinho das balas, antes que os helicópteros os atingissem e destroçassem.
“Você sabe”, disse ele, “que até este momento eu achava que tinha
assassinado minha mãe?”
“Por que você assassinou sua mãe?”, perguntou Julia, meio adormecida.
No sonho ele se recordara da última vez que vira a mãe, e instantes
depois de acordar o aglomerado de pequenos acontecimentos que envolvia
a coisa toda voltara-lhe à lembrança. Era uma recordação que ele devia ter
afastado deliberadamente da consciência ao longo de muitos anos. Não
estava certo da data, mas ele não devia ter mais que dez anos, talvez doze,
quando aquilo se passara.


Seu pai desaparecera algum tempo antes; quanto tempo antes, era incapaz
de se recordar. Lembrava-se melhor das circunstâncias penosas,
tumultuadas da época: os pânicos periódicos envolvendo os ataques aéreos,
a necessidade de abrigar-se nas estações de metrô, pilhas de escombros por
toda parte, os decretos incompreensíveis afixados nas esquinas, as gangues
juvenis, todos usando camisas da mesma cor, as filas intermináveis em
frente às padarias, as rajadas intermitentes de metralhadora ao longe —
acima de tudo, o fato de nunca haver comida suficiente. Lembrava-se de
passar longas tardes com outros meninos escarafunchando latas de lixo e
montes de detrito, recolhendo talos de repolho, cascas de batata, às vezes
até restos azedos de pão, dos quais eles cuidadosamente retiravam as
cinzas; e lembrava-se também de esperar pela passagem dos caminhões que
viajavam por determinada estrada e que sabidamente transportavam ração
para gado e que, ao passarem por um remendo malfeito da estrada, com o
solavanco, às vezes deixavam cair alguns fragmentos de bolo de linhaça.
Quando seu pai desaparecera, a mãe não demonstrara supresa nem dor
violenta. De um momento para o outro ficara diferente, só isso. Parecia ter
perdido toda a vivacidade. Até Winston percebia claramente que ela estava
à espera de alguma coisa que sabia que iria acontecer. Fazia tudo o que
tinha de fazer — cozinhava, lavava, remendava, arrumava a cama, varria o
assoalho, tirava o pó do aparador —, sempre muito devagar e com uma
estranha ausência de movimentos supérfluos, como o manequim de um
pintor que se movesse por conta própria. Seu grande corpo bem-feito
parecia recolher-se naturalmente à inação. Passava horas sem fim sentada
quase imóvel na cama, embalando a irmã menor de Winston, uma criança
miudinha, doentia, muito silenciosa, de uns dois ou três anos, cujo rosto a
magreza tornara simiesco. Muito ocasionalmente, a mãe tomava Winston
nos braços e o apertava contra o peito durante muito tempo, sempre sem
dizer nada. Ele se dava conta, a despeito de sua pouca idade e de seu
egoísmo, que sua atitude de alguma maneira se relacionava àquela coisa
jamais mencionada que estava a ponto de acontecer.
Lembrava-se do quarto onde viviam, um quarto escuro, cheirando a
fechado, que uma cama coberta por uma colcha branca ocupava quase por
inteiro. Atrás do guarda-fogo havia um fogareiro a gás e uma prateleira
onde ficavam os mantimentos, e fora, no alpendre, havia uma pia marrom
de argila, usada pelos ocupantes de vários quartos. Lembrava-se do corpo


majestoso da mãe inclinado sobre o fogareiro enquanto ela mexia alguma
coisa numa panela. Acima de tudo, lembrava-se da fome incessante que
sentia e dos confrontos sórdidos, ferozes, da hora das refeições. Perguntava
agressivamente à mãe, uma e outra vez, por que não havia mais comida,
gritava, enfurecia-se com ela (lembrava-se até das modulações da própria
voz, uma voz que prematuramente começava a mudar e que às vezes
explodia de maneira peculiar), ou então recorria a um tom patético e
choramingas para ver se ela lhe dava mais do que sua cota. A mãe não se
incomodava de lhe dar mais do que sua cota. Para ela, era evidente que ele,
“o menino”, deveria receber a porção maior; mesmo assim, quanto mais ela
lhe dava, mais ele queria. A cada refeição ela insistia com ele que não fosse
egoísta, que se lembrasse de que a irmãzinha estava doente e também
precisava comer, mas não adiantava. Ele chorava de raiva quando ela
parava de pôr comida em seu prato, tentava arrancar a panela e a concha das
mãos dela, roubava parte do que estava no prato da irmã. Sabia que fazia as
duas passar fome, mas não conseguia agir de outra forma; achava até que
tinha o direito de fazer aquilo. A fome exasperante que sentia parecia
justificar seus atos. Entre uma refeição e outra, se a mãe não montasse
guarda, surrupiava coisas do escasso estoque de alimentos da prateleira.
Um dia distribuíram uma ração de chocolate. Havia semanas ou meses
que não aparecia chocolate. Lembrava-se muito nitidamente daquele
fragmento precioso de chocolate. Era uma barrinha de duas onças (naquele
tempo ainda se falava em onça) para os três. Era óbvio que a barrinha
deveria ser dividida em três partes iguais. De repente, como se estivesse
ouvindo outra pessoa falar, Winston ouviu a própria voz exigindo aos berros
que a mãe lhe desse a barra inteira. A mãe lhe disse para não ser guloso.
Seguiu-se uma discussão longa e irada que não saía do lugar, com gritos,
gemidos, lágrimas, advertências, barganhas. A irmãzinha, agarrada à mãe
com as duas mãos, exatamente como um filhote de macaco, olhava para ele
por cima do ombro dela com olhos enormes e tristes. No fim a mãe separou
três quartos do chocolate e entregou a Winston, dando em seguida o resto à
filha. A menininha agarrou o que lhe davam e ficou olhando para o
chocolate sem expressão, talvez por não saber o que fosse aquilo. Por um
momento, Winston a fitou. Depois, com um bote rápido e súbito, tomou o
pedaço de chocolate da mão da irmã e correu para a porta.


“Winston, Winston!”, gritara a mãe. “Volte aqui! Devolva o chocolate de
sua irmã!”
Ele estacou, mas não retrocedeu. Os olhos ansiosos da mãe estavam fixos
em seu rosto. Mesmo naquela hora ela pensava na coisa que não sabia qual
era e que estava a ponto de acontecer. A irmã, consciente de que lhe tinham
subtraído alguma coisa, começara a soltar um fiozinho de choro. A mãe
envolveu a criança com o braço e pressionou seu rosto contra o peito.
Alguma coisa naquele gesto fez Winston entender que a irmã estava
morrendo. Virou-se e disparou escada abaixo; em sua mão, o chocolate
começava a derreter.
Foi a última vez que viu a mãe. Depois que devorou o chocolate, ficou
um pouco envergonhado e perambulou pelas ruas durante várias horas, até
que a fome o fez voltar para casa. Quando chegou, a mãe havia
desaparecido. Era algo que naquela época estava se tornando normal. Não
faltava nada no quarto, só a mãe e a irmã. Não haviam levado nenhuma
roupa, nem mesmo o agasalho da mãe. Até agora Winston não tinha certeza
de que a mãe havia morrido. Era perfeitamente possível que apenas a
houvessem mandado para um campo de trabalhos forçados. Quanto à irmã,
talvez tivesse sido removida, como o próprio Winston, para uma das
colônias para crianças sem lar (Centros de Coleta, era como as chamavam)
surgidas como resultado da guerra civil; ou então, talvez tivesse sido
mandada para o campo de trabalhos junto com a mãe, ou simplesmente
abandonada em algum lugar para morrer.
O sonho ainda estava nítido em sua mente, sobretudo o gesto protetor
com que a mãe envolvera a filha com o braço — e que parecia conter todo o
seu significado. A mente de Winston recuou até outro sonho, de dois meses
antes. Exatamente na mesma posição em que a mãe um dia se sentara sobre
a cama gasta com sua colcha branca, abraçando a filha que se agarrava a
ela, no sonho a mãe aparecia sentada no interior do navio naufragado, muito
abaixo do lugar onde ele estava, afundando cada vez mais, mas sempre
erguendo os olhos para ele através da água que ia ficando turva.
Contou a Julia a história do desaparecimento da mãe. Sem abrir os olhos,
ela rolou na cama e se instalou numa posição mais confortável.
“Estou vendo que você era um verdadeiro diabinho naquela época”,
disse, engrolando um pouco as palavras. “Todas as crianças são uns
diabinhos.”


“É. Mas o importante da história…”
Pela respiração, dava para perceber que Julia ia adormecer outra vez. Ele
teria gostado de continuar falando sobre a mãe. Pelo que se lembrava dela,
não achava que tivesse sido uma mulher excepcional, muito menos
inteligente; contudo possuía uma espécie de nobreza, uma espécie de
pureza, pelo mero fato de seguir padrões muito particulares de
comportamento. Seus sentimentos eram próprios dela e não podiam ser
alterados por fatores externos. Jamais teria ocorrido a sua mãe que, por ser
ineficaz, um ato pudesse perder o sentido. Quando você ama alguém, ama
essa pessoa e mesmo não tendo mais nada a oferecer, continua oferecendo-
lhe o seu amor. Como não havia mais chocolate, a mãe abraçara a filha com
força. Não adiantava, não alterava coisa nenhuma, não fazia aparecer mais
chocolate, não evitava a morte da criança nem a dela mesma; mas, para a
mãe, era natural fazer aquilo. A mulher do barco também cobrira o
menininho com o braço, tão eficaz para defendê-lo das balas quanto uma
folha de papel. O que o Partido fizera de terrível fora convencer as pessoas
de que meros impulsos, meros sentimentos, não servem para nada,
destituindo-as, ao mesmo tempo, de todo e qualquer poder sobre o mundo
material. A partir do momento em que você caísse nas garras do Partido, o
que você sentia ou deixava de sentir, o que fazia ou deixava de fazer, não
fazia nenhuma diferença. Dessa ou daquela forma você sumia e nunca mais
ninguém ouvia falar de você nem de seus atos. Você era simplesmente
retirado do curso da história. Para pessoas de até duas gerações passadas,
porém, isso não teria grande importância, pois ninguém pretendia mudar a
história. Eram pessoas regidas por lealdades particulares, as quais não eram
questionadas. O que importava eram as relações individuais, e um gesto
completamente desamparado, um abraço, uma lágrima, uma palavra
dirigida a um moribundo podiam ter seu próprio valor. Os proletas —
ocorreu-lhe de repente — haviam permanecido nesse estado. Não eram
leais nem a um partido, nem a um país, nem a uma ideia: eram leais uns aos
outros. Pela primeira vez na vida não desprezou os proletas nem pensou
neles apenas como uma força inerte que um dia despertaria para a vida para
reformar o mundo. Os proletas haviam permanecido humanos. Não estavam
enrijecidos por dentro. Haviam se aferrado às emoções primitivas que ele
próprio era obrigado a reaprender mediante um esforço consciente. E ao
pensar nessas coisas lembrou-se, aparentemente sem dar muita importância,


de como algumas semanas antes vira uma mão decepada caída no
calçamento e a chutara para a sarjeta como se fosse um talo de repolho.
“Os proletas são seres humanos”, disse alto. “Nós não somos humanos.”
“Por que não?”, perguntou Julia, novamente acordada.
Ele pensou um pouco. “Alguma vez já lhe ocorreu”, observou, “que o
melhor para nós seria simplesmente ir embora daqui antes que seja tarde
demais e nunca mais nos vermos?”
“Claro, meu querido, isso já me ocorreu diversas vezes. Só que mesmo
assim não vou fazer isso.”
“Temos tido sorte”, disse Winston, “mas é impossível que continuemos
tendo sorte por muito mais tempo. Você é jovem. Parece normal e inocente.
Se ficar afastada de pessoas como eu, talvez ainda viva por mais cinquenta
anos.”
“Não. Já planejei tudo. Tudo que você fizer, também vou fazer. E não
precisa ficar tão desanimado. Sou muito boa em saber me manter viva.”
“Podemos continuar juntos por mais seis meses, um ano, não há como
saber. No fim, com toda a certeza não estaremos juntos. Você se dá conta de
como estaremos profundamente sozinhos no fim? Depois que nos
agarrarem não há nada, nada mesmo, que um de nós possa fazer pelo outro.
Se eu confesso, eles fuzilam você; se me recuso a confessar, fuzilam você
do mesmo jeito. Nada que eu possa fazer ou dizer, ou deixar de dizer, adiará
sua morte por cinco minutos que seja. Nenhum de nós dois conseguirá saber
se o outro está vivo ou morto. Nem isso. Ficaremos sem nenhum tipo de
poder. O importante é só uma coisa: que a gente não traia um ao outro —
embora nem isso faça a menor diferença.”
“Se você se refere à confissão”, disse Julia, “com certeza vamos
confessar. Todo mundo sempre confessa. Não tem como evitar. Eles
torturam você.”
“Não me refiro à confissão. Confissão não é traição. O que você faz ou
diz não importa: o importante são os sentimentos. Mas se eles conseguirem
me obrigar a deixar de amar você… Isso sim, seria traição.”
Ela considerou o assunto. “Não conseguem”, disse afinal. “É a única
coisa que não conseguem fazer. Eles podem fazê-lo dizer qualquer coisa —

Baixar 3.88 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   29   30   31   32   33   34   35   36   ...   119




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal