1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
semente, dizem os sinos da São Clemente!”.
Para sua perplexidade, Julia completou:
Esses vinténs são pra mim, cantam os sinos da São Martim,
E o culpado, quem é, afinal?, perguntam os sinos do Tribunal…
“Não me lembro mais como continuava. Só sei que terminava assim: 
para a cama e seja um bom moço, ou vem a cuca e te corta o pescoço!”.
Era como as duas partes de uma contrassenha. Mas devia haver outro
verso depois de os sinos do Tribunal… Talvez desse para desencavá-lo da
memória do sr. Charrington, se o provocasse com o estímulo adequado.
“Quem lhe ensinou isso?”, perguntou Winston.
“Meu avô. Costumava cantar para mim quando eu era pequena. Foi
pulverizado quando eu tinha oito anos… Enfim, desapareceu. Eu gostaria
de saber o que era um limão”, acrescentou, despreocupada. “Laranjas eu já
vi. São uma espécie de fruta amarela e redonda, de casca grossa.”
“Me lembro dos limões”, disse Winston. “Eram muito comuns nos anos
1950. Tão azedos que só de sentir o cheiro a pessoa ficava arrepiada.”
“Aposto que está cheio de percevejos atrás desse quadro”, disse Julia.
“Vou tirá-lo daqui e dar uma boa limpada nele um dia desses. Acho que
deve estar na hora de irmos embora. Preciso tirar a maquiagem. Que droga!
Depois eu limpo o batom do seu rosto.”
Winston permaneceu mais alguns minutos deitado. O quarto estava
escurecendo. Virou-se para a luz e ficou admirando o peso de papel de
vidro. A fonte inesgotável de interesse não era o fragmento de coral, mas o
próprio interior do vidro. Havia tamanha profundidade ali, e no entanto o
vidro era quase tão transparente quanto o ar. Era como se a superfície do
vidro fosse o arco do céu, encerrando um mundo minúsculo em sua


atmosfera completa. Winston tinha a sensação de que seria capaz de entrar
ali e de que na verdade estava ali dentro, ele, a cama de mogno, a mesinha
de abas dobráveis, o relógio, a gravura de aço e o próprio peso de papel. O
peso de papel era o quarto onde ele estava, e o coral era a vida dele e a de
Julia, fixadas numa espécie de eternidade no coração do cristal.



5.
Syme sumira. Uma bela manhã ele não apareceu no trabalho: algumas
pessoas desavisadas comentaram sua ausência. No dia seguinte ninguém
mais falou nele. No terceiro dia, Winston entrou no vestíbulo do
Departamento de Documentação para dar uma olhada no quadro de avisos.
Uma das notas trazia uma lista impressa dos membros do Comitê de
Xadrez, do qual Syme fizera parte. Tinha quase exatamente o mesmo
aspecto de antes — nada estava riscado —, mas faltava um nome. Era o que
bastava. Syme deixara de existir; aliás, nunca existira.
Estava um calor de matar. No labiríntico Ministério, as salas sem janelas,
ventiladas por aparelhos de ar condicionado, mantinham a temperatura
habitual, mas do lado de fora os calçamentos esfolavam os pés dos
caminhantes e o mau cheiro do metrô na hora do pico era tremendo. Os
preparativos para a Semana do Ódio iam de vento em popa, e os
funcionários de todos os ministérios trabalhavam além do horário. Desfiles,
reuniões, paradas militares, conferências, exposições de personagens de
cera, exibições de filmes, programas de teletela — era preciso organizar
tudo; era preciso construir estandes e imagens, criar slogans, compor
músicas, fazer circular boatos, forjar fotografias. A seção de Julia no
Departamento de Ficção fora desligada da produção de romances e estava
criando em regime de urgência uma série de panfletos sobre atrocidades.
Winston, além de fazer seu trabalho regulamentar, passava longos períodos,
todos os dias, verificando arquivos antigos do Times e alterando e
embelezando trechos de notícias que depois seriam citadas nos discursos.
Tarde da noite, quando levas de proletas desordeiros perambulavam pelas
ruas, a cidade exibia um ar estranhamente febril. As bombas-foguetes
estouravam com maior frequência do que nunca e às vezes, à distância, bem


longe, ouviam-se explosões fortíssimas que ninguém sabia explicar e sobre
as quais corriam boatos dantescos.
A nova melodia destinada a ser a canção-tema da Semana do Ódio (a
Canção do Ódio, como a chamavam) já estava composta e era transmitida
incessantemente pelas teletelas. Tinha um ritmo selvagem, que lembrava
latidos e que não podia exatamente ser chamada de música, assemelhando-
se à batida de um tambor. Rugida, mais que cantada, por centenas de vozes
ao som de pés em marcha, era aterrorizante. A música caíra no gosto dos
proletas, e na madrugada das ruas competia com “Era um capricho e nada
mais”. Os filhos dos Parsons tocavam a Canção do Ódio a qualquer hora do
dia ou da noite, usando um pente e um pedaço de papel higiênico — algo
francamente intolerável. As noites de Winston estavam mais ocupadas do
que nunca. Grupos de voluntários, organizados por Parsons, preparavam a
rua para as celebrações da Semana do Ódio costurando faixas, pintando
cartazes, erguendo mastros nos telhados e, perigosamente, estendendo
arames de um lado a outro da rua para neles pendurar bandeirolas. Parsons
gabava-se de que as Mansões Victory sozinhas exibiriam quatrocentos
metros de bandeiras. Estava em seu elemento natural e feliz como um
passarinho. O calor e o trabalho manual lhe haviam fornecido, inclusive,
um pretexto para, depois do trabalho, retomar o uso do short e da camisa
aberta. Estava em toda parte a todo momento, empurrando, puxando,
serrando, martelando, improvisando, animando todo mundo com exortações
amistosas e desprendendo de cada dobra de seu corpo o que poderia ser
descrito como uma reserva inesgotável de suor acre.
Um novo pôster surgira de repente nas ruas de Londres. Não tinha
dizeres e mostrava simplesmente a figura monstruosa de um soldado
eurasiano de três ou quatro metros de altura, avançando com um rosto
mongólico desprovido de expressão, botas imensas, apontando uma
metralhadora que apoiava no quadril. Onde quer que você se posicionasse
com relação ao pôster, o cano da metralhadora, ampliado pela perspectiva,
parecia estar sempre apontando para você. O pôster fora colado em todos os
espaços disponíveis de todas as paredes da cidade, suplantando em número
os retratos do Grande Irmão. Os proletas, normalmente apáticos no que
dizia respeito à guerra, estavam sendo incitados a entrar em um de seus
surtos periódicos de patriotismo. Para completar a cena, ultimamente as
bombas-foguetes estavam matando mais do que o normal. Uma delas


atingiu um cinema apinhado em Stepney, sepultando várias centenas de
vítimas sob os escombros. Toda a população vizinha se reuniu para um
cortejo fúnebre interminável, que levou várias horas e que na realidade era
um encontro de indignados. Outra bomba caiu num terreno baldio usado
como playground, e dezenas de crianças foram destroçadas. Houve novas
demonstrações de ira, a imagem de Goldstein foi queimada, centenas de
cópias do pôster do soldado eurasiano foram arrancadas e jogadas nas
fogueiras e diversas lojas foram saqueadas no decorrer do tumulto. Em
seguida circulou o boato de que as bombas-foguetes estavam sendo
manobradas por controle remoto por espiões, e um casal idoso suspeito de
ser de procedência estrangeira teve sua casa incendiada e pereceu sufocado
pela fumaça.
No aposento dos altos da loja do sr. Charrington, sempre que conseguiam
chegar lá, Julia e Winston ficavam deitados lado a lado numa cama
desprovida de lençóis sob a janela aberta, nus por causa do calor. O rato
nunca mais voltara, mas com o calor os percevejos haviam se multiplicado
tremendamente. Pelo jeito, não fazia diferença. Sujo ou limpo, aquele
quarto era o paraíso. Nem bem chegavam, aspergiam tudo com pó de
pimenta comprado no mercado negro, arrancavam a roupa e faziam amor
com corpos suarentos, depois adormeciam e despertavam para constatar que
os percevejos haviam se unido e preparavam um contra-ataque maciço.
Quatro, cinco, seis — sete vezes eles se encontraram durante o mês de
junho. Winston abandonara o hábito de beber gim a todo momento. Parecia
ter perdido a necessidade daquilo. Engordara um pouco, sua úlcera varicosa
melhorara, deixando apenas uma mancha marrom na pele acima do
tornozelo, as crises matutinas de tosse haviam cessado. O processo de viver
deixara de ser intolerável, ele já não sentia o impulso de fazer caretas para a
teletela ou de gritar insultos a plenos pulmões. Agora que possuíam um
esconderijo seguro, quase um lar, nem parecia uma provação o fato de se
verem só de vez em quando, e por um par de horas de cada vez. O
importante era que o quartinho nos altos da loja existisse. Saber que estava
lá, inviolado, era quase o mesmo que estar nele. O quarto era um mundo,
um bolsão do passado onde animais extintos podiam se mover. Para
Winston, o sr. Charrington também era um animal extinto. A caminho do
andar superior, Winston costumava parar para conversar com o sr.
Charrington por alguns minutos. Pelo visto, o velho nunca, ou quase nunca,


saía de casa e, por outro lado, quase não tinha fregueses. Levava uma
existência fantasmagórica entre a lojinha minúscula e sombria e uma
cozinha ainda mais exígua nos fundos, onde preparava suas refeições, e que
continha, entre outras coisas, um gramofone incrivelmente antigo, com uma
trompa enorme. Ele parecia feliz com a oportunidade de conversar.
Circulando entre as mercadorias sem valor, com seu nariz comprido, seus
óculos grossos e seus ombros caídos envergando o paletó de veludo, ele
sempre dava a impressão de ser um colecionador, mais que um comerciante.
Com uma espécie de entusiasmo apagado, manipulava este ou aquele
exemplar de lixo — uma rolha de porcelana, a tampa pintada de uma caixa
de rapé quebrada, um medalhão sem valor contendo um cacho de cabelo de
algum bebê morto havia muito tempo —, nunca demonstrando desejo de
que Winston comprasse a coisa, mas simplesmente de que a admirasse.
Falar com ele era como ouvir a musiquinha de uma caixa de música gasta.
Dos recantos da memória, ele extraíra novos fragmentos de quadrinhas
esquecidas. Havia uma sobre vinte e quatro melros, outra sobre uma vaca
de chifre torto, outra sobre a morte do coitado do pintarroxo. “Fiquei
pensando que talvez o senhor se interessasse”, dizia, com um riso
constrangido, sempre que aparecia com um novo fragmento. Só que nunca
conseguia se lembrar de mais que uns poucos versos de toda e qualquer
quadrinha.
Os dois sabiam — de certa maneira, estava sempre na cabeça deles —
que o que estava acontecendo não iria se manter por muito tempo. Em
certos momentos a morte iminente lhes parecia tão palpável quanto a cama
onde estavam deitados, e eles se abraçavam com uma espécie de
sensualidade desesperada, como uma alma penada agarrando-se à última
migalha de prazer minutos antes de o relógio dar a hora fatal. Mas também
havia vezes em que acreditavam na ilusão não só da segurança como da
permanência. Enquanto estivessem naquele quarto, pensavam Winston e
Julia, ninguém poderia lhes fazer mal. Era difícil e perigoso chegar lá, mas
o quarto em si era um santuário. Era como quando Winston fitava o centro
do peso de papel com o sentimento de que seria possível penetrar naquele
mundo vítreo e de que, uma vez lá dentro, o tempo deixaria de transcorrer.
Muitas vezes fantasiavam fugas. Teriam sorte indefinidamente e levariam
seu caso adiante, exatamente como agora, pelo resto de suas vidas. Ou
então Katharine morreria e, graças a manobras sutis, Winston e Julia


conseguiriam se casar. Ou então cometeriam suicídio juntos. Ou então
desapareceriam, se disfarçariam de modo a não ser reconhecidos,
aprenderiam a falar com sotaque proletário, arrumariam emprego numa
fábrica e viveriam suas vidas numa viela qualquer sem que ninguém se
desse conta. Ideias absurdas — os dois sabiam. Na verdade, não havia
escapatória. Nem o único daqueles planos que era praticável, o do suicídio,
eles pretendiam levar a cabo. Ir tocando dia após dia, semana após semana,
prolongando um presente sem futuro, parecia um impulso irrefreável, tal
como nossos pulmões sempre haverão de aspirar o alento seguinte enquanto
houver ar disponível.
Outras vezes falavam em rebelar-se ativamente contra o Partido, mas sem
ter a menor ideia de como dar o primeiro passo nesse sentido. Mesmo que a
fantasiosa Confraria fosse real, restava a dificuldade de saber como fazer
para encontrá-la. Ele falou a ela da estranha intimidade que existia, ou
parecia existir, entre ele e O’Brien e do impulso que às vezes sentia de
simplesmente se apresentar a O’Brien, informá-lo de que era inimigo do
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