1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Dizem que o tempo tudo cura
E que no fim sempre se esquece,
Mas risos e choros — até parece
Que a vida passa e eles perduram!
A mulher parecia saber de cor e salteado todos os versos daquela canção
melosa. Sua voz adejava com o doce ar estival, extremamente melodiosa,
transportando uma espécie de melancolia feliz. Tinha-se a impressão de que
ela se sentiria perfeitamente satisfeita se a noite de junho fosse infinita e o
estoque de roupas inesgotável, obrigando-a a passar mil anos ali,
pendurando fraldas no varal e cantarolando bobagens. De repente ocorreu a
Winston como era curioso que ele nunca tivesse ouvido um membro do
Partido cantar sozinho, espontaneamente. Seria uma atitude pouco
ortodoxa, uma excentricidade perigosa, como falar consigo mesmo. Talvez
as pessoas só tivessem um assunto sobre o qual cantar quando viviam em
algum patamar próximo da inanição.


“Pode olhar agora”, disse Julia.
Winston se virou e levou quase um segundo para reconhecê-la.
Imaginava que a veria nua. Mas ela não estava nua. A transformação
ocorrida era muito mais surpreendente que isso. Julia se maquiara.
Devia ter entrado furtivamente em alguma loja dos bairros proletários e
comprado um estojo completo de maquiagem. Seus lábios estavam muito
vermelhos; suas maçãs, rosadas; seu nariz, empoado; havia até algo
sutilmente aplicado sob os olhos para deixá-los mais brilhantes. O trabalho
não tinha sido muito bem-feito, porém os padrões de Winston nesse quesito
não eram elevados. Ele nunca tinha visto nem imaginado uma mulher do
Partido com cosmético no rosto. A melhora na aparência de Julia era
impressionante. Com algumas pinceladas de cor nos lugares certos, ela
ficara não apenas mais bonita como, sobretudo, muito mais feminina. Os
cabelos curtos e o macacão de menino somente reforçavam o efeito. Ao
tomá-la nos braços, uma onda de violetas sintéticas inundou as narinas de
Winston. Ele se lembrou da semiescuridão de uma cozinha de subsolo e da
boca cavernosa de uma mulher. Era exatamente o mesmo perfume; porém
no momento aquilo não pareceu ter a menor importância.
“E perfumada!”, disse.
“Sim, amor, perfumada. E sabe qual vai ser a próxima coisa que eu vou
fazer? Vou arrumar um vestido de verdade em algum lugar e vou usá-lo em
vez destas malditas calças. E meias de seda, e sapatos de salto alto! Neste
quarto serei uma mulher, não uma camarada do Partido!”
Tiraram a roupa e subiram na imensa cama de mogno. Foi a primeira vez
que Winston ficou nu na presença dela. Até então, sentira muita vergonha
de seu corpo macilento e descarnado, com veias salientes e varicosas nas
panturrilhas e a mancha descorada no tornozelo. Não havia lençóis, o
cobertor sobre o qual se deitaram era surrado e liso, e as dimensões da
cama, assim como as molas do colchão, deixaram os dois abismados. “Deve
estar cheio de percevejos, mas e daí?”, disse Julia. Não havia mais cama de
casal em lugar nenhum; só nas casas dos proletas. Na infância, Winston por
vezes dormira numa cama de casal; Julia, até onde se lembrava, jamais se
deitara numa.
Pouco depois, adormeceram. Quando Winston acordou, os ponteiros do
relógio marcavam quase nove da noite. Não se mexeu, pois Julia dormia
com a cabeça apoiada em seu braço. A maior parte da maquiagem se


transferira para o rosto dele ou para o travesseiro, porém uma leve nódoa de
ruge ainda revelava a beleza de seu malar. Um raio amarelo do sol poente
passava pelo pé da cama e iluminava a lareira, onde a panela de água estava
em franca ebulição. No quintal, a mulher já não cantava, porém ainda se
ouviam os gritos das crianças na rua. Impossível que tivesse havido um
tempo em que tudo aquilo parecesse corriqueiro. Julia despertou, esfregou
os olhos e apoiou-se no cotovelo para olhar para o fogareiro.
“Metade da água já evaporou”, disse. “Vou me levantar e fazer um café
num instante. Temos uma hora. A que horas apagam as luzes no seu
prédio?”
“Às onze e meia.”
“Na pensão é às onze. Mas a gente tem que chegar antes disso porque…
Ei! Sai daí, bicho nojento!”
Julia se curvou de repente na cama, pegou um sapato no chão e o
arremessou na direção de um dos cantos do quarto com um movimento
brusco do braço, feito um menino, o mesmo movimento que Winston a vira
fazer ao atirar o dicionário em Goldstein, naquela manhã, durante os Dois
Minutos de Ódio.
“Que foi?”, perguntou, surpreso.
“Um rato. Eu vi quando ele pôs o focinho asqueroso para fora do lambri.
Tem um buraco ali embaixo. Pelo menos dei um bom susto nele.”
“Ratos!”, murmurou Winston. “Neste quarto!”
“Estão em todos os lugares”, disse Julia com indiferença, tornando a se
deitar. “Já apareceram até na cozinha da pensão. Algumas áreas de Londres
estão infestadas deles. Sabia que eles atacam as crianças? Atacam mesmo.
Há ruas em que as mães não se atrevem a deixar os bebês sozinhos nem por
dois minutos. São uns ratões marrons, esses que atacam. E o pior é que eles
sempre…”
Por favor, pare! ”, disse Winston, fechando os olhos com força.
“Querido! Você está pálido. Está se sentindo mal? Esses bichos deixam
você com náuseas?”
“Um rato… O pior dos horrores que há no mundo!”
Julia estreitou-se contra ele e o cingiu com as pernas, como se
pretendesse tranquilizá-lo com o calor de seu corpo. Winston não abriu
imediatamente os olhos. Tivera por alguns instantes a sensação de estar de
volta a um pesadelo que desde a infância o afligia ocasionalmente. Era


sempre mais ou menos a mesma coisa. Ele se via diante de uma muralha de
escuridão, e do outro lado havia uma coisa insuportável, algo horrível
demais para ser encarado. No sonho, seu sentimento mais profundo era
sempre o da autoilusão, porque no fundo ele sabia o que havia atrás da
muralha. Se fizesse um esforço abominável, como o de arrancar um pedaço
do próprio cérebro, seria capaz até de arrastar a coisa para a luz. Sempre
acordava sem descobrir o que era, porém tinha alguma relação com o que
Julia estava dizendo quando ele a interrompeu.
“Desculpe”, disse. “Não foi nada. É que não gosto de rato, só isso.”
“Não se preocupe, amor, não vamos deixar esses bichos nojentos
entrarem aqui. Vou tampar o buraco com um pedaço de pano antes de irmos
embora. E da próxima vez trago um pouco de argamassa e fecho tudo bem
direitinho.”
O momento negro de pânico já estava quase esquecido. Um pouco
envergonhado de si mesmo, Winston sentou-se na cama, apoiando as costas
na cabeceira. Julia se levantou, vestiu o macacão e fez o café. O cheiro que
saía da panela era tão forte e estimulante que eles fecharam a janela, com
medo de que alguém do lado de fora o sentisse e desconfiasse de alguma
coisa. Ainda melhor que o gosto do café era a textura sedosa que o açúcar
lhe conferia, algo de que Winston tinha quase se esquecido depois de anos
de sacarina. Com uma mão no bolso e um pedaço de pão com geleia na
outra, Julia circulou pelo quarto, olhando com indiferença para a estante de
livros, observando qual seria a melhor forma de consertar a mesa de abas
dobráveis, deixando-se cair na poltrona surrada para ver se ela era
confortável, examinando o absurdo relógio de doze horas com uma espécie
de deleite tolerante. Levou o peso de papel de vidro para a cama para poder
vê-lo sob uma luz melhor. Winston tirou-o de suas mãos, fascinado como
sempre pelo aspecto delicado do vidro, com as bolinhas que lembravam
gotas de chuva.
“Você tem ideia do que seja isto?”, indagou Julia.
“Acho que não é nada — quer dizer, acho que nunca foi usado para nada.
É justamente por isso que gosto dele. É um pedacinho da história que se
esqueceram de alterar. Uma mensagem de cem anos atrás, se alguém
soubesse como lê-la.”
“E aquele quadro ali” — Julia fez um gesto com a cabeça, indicando a
gravura na parede oposta —, “será que tem cem anos?”


“Deve ter mais. Eu diria que tem uns duzentos. Mas não dá para saber.
Hoje é impossível descobrir a idade do que quer que seja.”
Julia foi observar a gravura mais de perto. “Foi aqui que aquele bicho
botou o focinho para fora”, disse, chutando o lambri logo abaixo do quadro.
“Que prédio é esse? Já vi em algum lugar.”
“É uma igreja; quer dizer, era. Chamava-se São Clemente dos
Dinamarqueses.” Lembrou-se do pedaço da quadrinha que o sr. Charrington
havia lhe ensinado e acrescentou, meio nostálgico: “Sem casca nem

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