1984 Edição especial


Partido podia cometer, aquele era o mais difícil de encobrir. Na realidade, a



Baixar 3.88 Mb.
Pdf preview
Página29/119
Encontro04.08.2022
Tamanho3.88 Mb.
#24481
1   ...   25   26   27   28   29   30   31   32   ...   119
1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

Partido podia cometer, aquele era o mais difícil de encobrir. Na realidade, a
ideia começara por assomar à sua mente na forma de uma visão do peso de
papel de vidro refletido na superfície da mesa de abas dobráveis. Como ele
previra, o sr. Charrington não apresentara empecilhos para alugar o quarto.
Ficara perceptivelmente satisfeito com o dinheirinho extra que haveria de
ganhar. Tampouco se mostrara escandalizado ou se tornara agressivamente
malicioso quando ficara claro que Winston pretendia usar o quarto para
encontros amorosos. Em vez disso, olhou para um ponto a meia distância e
falou de generalidades com um ar tão delicado que dava a impressão de ter
se tornado parcialmente invisível. A privacidade, disse, era uma coisa muito
valiosa. Todo mundo queria ter um lugar em que pudesse estar a sós de vez
em quando. E quando alguém encontrava um lugar assim, não era senão um
gesto da mais trivial cordialidade que aqueles que soubessem do fato


guardassem a informação para si mesmos. O antiquário chegou a
acrescentar, dando a impressão de quase se dissolver no ar ao fazê-lo, que a
casa tinha duas entradas, sendo uma delas pelo quintal, que dava para um
beco.
Havia alguém cantando sob a janela. Protegido pela cortina de musselina,
Winston olhou para fora. O sol de junho ainda brilhava alto no céu, e no
pátio ensolarado uma mulher gigantesca, sólida como um pilar normando,
com braços fortes e vermelhos e avental de tecido grosseiro em volta da
cintura, andava pesadamente de lá para cá entre uma tina e um varal,
pendurando uma série de quadrados brancos que Winston identificou como
fraldas de bebê. Sempre que sua boca não estava entupida com pregadores
de roupa, ela se punha a cantar num contralto vigoroso:
Era um capricho e nada mais,
Doce como um dia de abril,
Mas seu olhar azul de anil
Roubou para sempre a minha paz!
Fazia várias semanas que só se ouvia aquilo em Londres. Era uma das
inúmeras canções, todas muito parecidas, compostas para uso dos proletas
por uma subseção do Departamento de Música. Os versos eram elaborados
— sem nenhuma intervenção humana — por um instrumento conhecido
como versificador. Porém o canto da mulher era tão melódico que
transformava aquela bobagem, aquela porcaria intragável, num som quase
agradável. Winston ouvia a mulher cantando, o ruído produzido pelo atrito
de seus sapatos nas lajes, os gritos das crianças na rua e em algum lugar
muito longe o ronco surdo do trânsito — e ainda assim o quarto parecia
curiosamente silencioso, graças à ausência da teletela.
Loucura, loucura, loucura!, tornou a pensar. Era inconcebível que
pudessem frequentar aquele lugar por mais do que algumas semanas sem
ser descobertos. Mesmo assim, a ideia de terem um esconderijo que fosse
realmente só deles, um quartinho de fácil acesso, representara para ambos
uma tentação forte demais. Depois da visita ao campanário da igreja,
haviam passado algum tempo sem conseguir organizar novos encontros. O
período de trabalho fora drasticamente ampliado em virtude dos
preparativos para a Semana do Ódio. Ainda faltava mais de um mês, mas a


enormidade e a complexidade do evento exigiam de todos cotas extras de
trabalho. Por fim, Winston e Julia conseguiram uma tarde livre no mesmo
dia. Tinham combinado voltar à clareira no bosque. Na noite da véspera,
encontraram-se rapidamente na rua. Como de hábito, ao se aproximar de
Julia em meio à multidão, Winston mal olhou para ela; porém ao vê-la de
relance, achou-a mais pálida que de costume.
“Nossos planos furaram”, murmurou ela, tão logo lhe pareceu seguro
falar. “Não vai dar amanhã.”
“Como assim?”
“Amanhã à tarde. Não vou poder ir.”
“Por que não?”
“Ah, o de sempre. Começou mais cedo desta vez.”
Por alguns instantes, Winston ficou profundamente encolerizado. Ao
longo daquele mês, desde que haviam começado a se relacionar, a natureza
do desejo que sentia por ela se modificara. No começo a coisa era muito
pouco sensual. Na primeira vez, o sexo tinha sido apenas e tão somente um
ato da vontade. Mas depois da segunda vez tudo se modificara. Ele — ou o
ar em volta dele — parecia ter-se impregnado do cheiro do cabelo de Julia,
do gosto de sua boca, da maciez de sua pele. Ela se tornara uma
necessidade física: algo que ele não apenas desejava, mas a que sentia ter
direito. Quando Julia disse que não poderia ir ao encontro, Winston teve a
sensação de que ela o estava enganando. Naquele exato momento, porém, a
multidão empurrou um de encontro ao outro e as mãos deles acidentalmente
se encontraram. Julia apertou de leve a ponta dos dedos de Winston, um
toque que parecia ser um convite não ao desejo, mas à afeição. Winston
pensou que, quando um homem vivia com uma mulher, um contratempo
como aquele devia ser uma ocorrência natural, recorrente; e uma ternura
profunda, como não havia sentido por ela antes, de súbito se apossou dele.
Desejou que fossem um casal com dez anos de vida em comum. Desejou
poder andar com ela pelas ruas exatamente como faziam agora, porém às
claras e sem medo, conversando sobre assuntos triviais e comprando
coisinhas para a casa. Desejou sobretudo dispor de um lugar qualquer onde
pudessem estar a sós sem sentir a obrigação de fazer amor toda vez que se
encontrassem. Não fora efetivamente naquele instante, mas em algum
momento do dia seguinte lhe ocorrera a ideia de alugar o cômodo do sr.
Charrington. Quando fez a sugestão a Julia, ela concordou com uma rapidez


inesperada. Ambos sabiam que era uma imprudência. Era como se
estivessem dando intencionalmente um passo na direção de suas sepulturas.
Sentado na borda da cama, Winston tornou a pensar nas celas do Ministério
do Amor. Curioso como aquele horror predeterminado se afastava da
consciência da pessoa e depois voltava. Um horror localizado ali, num
ponto futuro, que antecipava a morte com a mesma certeza com que o 99
antecipava o 100. Um destino que não se podia evitar, muito embora talvez
fosse possível postergá-lo; todavia, em vez disso, a pessoa volta e meia
optava, graças a um ato consciente e voluntário, por abreviar o tempo de
sua ocorrência.
Nesse instante, passos rápidos soaram na escada. Julia irrompeu no
quarto. Trazia uma sacola de ferramentas, uma sacola de lona marrom
rústica, como a que por vezes ele a vira carregando de um lado para outro
no Ministério. Winston precipitou-se para tomá-la nos braços, porém ela se
desprendeu dele com alguma ansiedade, em parte porque ainda estava com
a sacola nas mãos.
“Só um segundo”, disse. “Quero que veja o que tenho aqui. Você trouxe
aquela porcaria de café Victory? Imaginei que traria. Pode jogar fora, não
vamos mais precisar dele. Olhe isto.”
Julia ficou de joelhos, abriu a sacola com alvoroço e jogou no chão
algumas chaves inglesas e uma chave de fenda que ocupavam a parte de
cima da sacola. A parte inferior estava forrada com esmerados pacotes de
papel. O primeiro pacote que ela pôs nas mãos de Winston tinha uma
consistência estranha e todavia vagamente familiar. Seu conteúdo era
pesado, parecia areia e cedia onde a pessoa o tocasse.
“Não vá me dizer que é açúcar!”, exclamou ele.
“Açúcar de verdade. Não é sacarina, não; é açúcar. E aqui temos um belo
pão — pão mesmo, não aquela coisa horrorosa que estamos acostumados a
comer — e um vidrinho de geleia. E aqui uma lata de leite. Mas veja! É
disto que eu mais me orgulho. Tive de embrulhar em um pano porque…”
Porém não foi preciso que ela explicasse por que tivera de embrulhar
aquilo em um pano. O cheiro já inundava o aposento, um cheiro forte,
pronunciado, que parecia a Winston uma emanação dos primeiros anos de
sua infância, mas que ainda agora era possível sentir ocasionalmente, ao se
sair por um vestíbulo antes de uma porta ser fechada ou difundindo-se


misteriosamente por uma rua apinhada de gente, inalado por um instante e
no momento seguinte extinto de novo.
“É café”, murmurou ele, “café de verdade.”
“É o café do Núcleo do Partido. Tem um quilo aqui”, disse ela.
“Como você conseguiu essas coisas?”
“É tudo reservado para o consumo do Núcleo do Partido. Os pulhas têm
de tudo, para eles nunca falta nada. Mas é claro que os garçons, as
empregadas e outras pessoas acabam passando a mão numa coisa ou outra e
— veja, arrumei um pacotinho de chá também.”
Winston estava de cócoras ao lado dela. Rasgou um canto do pacote.
“É chá mesmo. Não folhas de amora-preta.”
“Tem aparecido muito chá ultimamente. Conquistaram a Índia ou coisa
assim”, disse Julia distraída. “Mas escute, amor. Quero que você fique de
costas para mim por três minutos. Vá se sentar do outro lado da cama. E
não olhe antes de eu mandar você se virar.”
Winston, absorto, olhou para fora através da cortina de musselina. Lá
embaixo, no quintal, a mulher de braços vermelhos continuava a marchar de
um lado para outro, entre a tina e o varal. Tirou mais pregadores da boca e
cantou com muito sentimento:

Baixar 3.88 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   25   26   27   28   29   30   31   32   ...   119




©historiapt.info 2023
enviar mensagem

    Página principal