1984 Edição especial


Partido. Não era apenas que o instinto sexual criasse um mundo próprio



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

Partido. Não era apenas que o instinto sexual criasse um mundo próprio
fora do controle do Partido — um instinto que, por isso, se possível, tinha
de ser destruído. O mais importante era que a privação sexual levava à
histeria, desejável porque podia ser transformada em fervor guerreiro e
veneração ao líder. Eis como Julia descrevia a questão:
“Quando você faz amor, está consumindo energia; depois se sente feliz e
não dá a mínima para coisa nenhuma. E eles não toleram que você se sinta
assim. Querem que você esteja estourando de energia o tempo todo. Toda
essa história de marchar para cima e para baixo e ficar aclamando e
agitando bandeiras não passa de sexo que azedou. Se você está feliz na
própria pele, por que se excitar com esse negócio de Grande Irmão, Planos
Trienais, Dois Minutos de Ódio e todo o resto da besteirada?”
Tudo muito verdadeiro, ele pensou. Havia uma conexão íntima e direta
entre castidade e ortodoxia política. Porque, de que maneira manter no
diapasão certo o medo, o ódio e a credulidade imbecil que o Partido
necessitava encontrar em seus membros se algum instinto poderoso não
fosse represado e depois usado como força motriz? A pulsão sexual era
perigosa para o Partido, e o Partido a utilizava em interesse próprio. A
pulsão de paternidade também fora instrumentada de forma semelhante,


embora fosse impossível abolir a família — e, na verdade, as pessoas eram
estimuladas a gostar dos filhos quase nos moldes de antigamente. As
crianças, por sua vez, eram voltadas sistematicamente contra os pais e
aprendiam a espioná-los e a relatar seus desvios. Com efeito, a família se
transformara numa extensão da Polícia das Ideias. Era um instrumento
graças ao qual todos podiam ficar noite e dia cercados por informantes que
os conheciam intimamente.
De repente, os pensamentos de Winston voltaram-se para Katharine. Não
havia dúvida de que Katharine o denunciaria à Polícia das Ideias se ela por
acaso se mostrasse suficientemente inteligente para conseguir detectar a
inortodoxia das opiniões dele. Mas na verdade o que o levou a se lembrar
dela naquele momento foi o calor sufocante da tarde, um calor que fizera a
testa dele transpirar. Começou a contar a Julia alguma coisa que havia
acontecido, ou melhor, que não havia acontecido em outra tarde abafada de
verão, onze anos antes.
Fazia três ou quatro meses que estavam casados. Em algum lugar de
Kent, os dois haviam se desgarrado numa caminhada comunitária.
Aconteceu porque retardaram o passo. Não mais de dois ou três minutos,
mas tomaram a direção errada e acabaram se vendo impedidos de avançar
quando chegaram à beira do paredão de uma antiga mina de giz. Era um
paredão a pique de dez ou vinte metros, com rochas no fundo. Não havia
ninguém a quem pudessem pedir informações sobre o caminho. Assim que
percebeu que estavam perdidos, Katharine ficou muito preocupada. O fato
de afastar-se, por um momento que fosse, do grupo ruidoso de caminhantes
dava-lhe a sensação de estar agindo incorretamente. Queria voltar correndo
pelo caminho por onde tinham vindo e começar a procurar na outra direção.
Naquele momento, porém, Winston percebeu alguns tufos de salgueirinhas
crescendo nas rachaduras da colina sobre a qual eles se encontravam. Um
dos tufos era de duas cores — magenta e vermelho-tijolo —, aparentemente
crescendo da mesma raiz. Winston jamais vira uma coisa como aquela e
chamou Katharine para que ela fosse ver.
“Olhe, Katharine! Olhe só essas flores. Aquela moita lá embaixo, perto
do fundo. Está vendo que são de duas cores diferentes?”
Ela já se virara para voltar por onde haviam vindo, mas assim mesmo,
tensa, foi até onde ele estava. Chegou a inclinar-se sobre o paredão para ver
o lugar que ele apontava. Winston estava um pouco atrás dela e apoiou a


mão em sua cintura para dar-lhe mais segurança. Nesse momento ocorreu-
lhe de repente que os dois estavam completamente sozinhos. Não havia
uma única criatura humana em lugar nenhum, nenhuma folha se mexia, não
havia nem passarinho por perto. O risco de haver um microfone escondido
num lugar daqueles era muito pequeno, e, mesmo que houvesse, só captaria
sons. Era o momento mais quente, mais modorrento da tarde. O sol ardente
os fustigava, o suor lhes escorria pelo rosto. Foi então que surgiu a ideia…
“Por que você não deu um bom empurrão nela?”, disse Julia. “Eu teria
feito isso.”
“Sim, querida, você teria feito isso. Eu também, se naquela época eu
fosse a pessoa que sou hoje. Ou talvez eu fosse, não tenho certeza.”
“Você se arrepende de não ter empurrado Katharine?”
“Me arrependo. Tudo considerado, me arrependo.”
Estavam sentados um ao lado do outro no piso empoeirado. Ele a puxou
para mais perto. A cabeça dela se apoiou no ombro dele e o cheiro
agradável do cabelo de Julia se sobrepôs ao das fezes de pombo. Ela era
muito jovem, pensou ele, ainda esperava alguma coisa da vida, não entendia
que empurrar uma pessoa inconveniente precipício abaixo não resolvia
coisa alguma.
“Na verdade não teria feito diferença”, ele disse.
“Então por que você se arrepende de não tê-la empurrado?”
“Só porque prefiro fazer uma afirmação positiva a outra negativa. Nesse
jogo que estamos jogando, não temos como vencer. Alguns tipos de
fracasso são melhores do que outros. Só isso.”
Ele sentiu que os ombros dela se encolhiam de leve, discordando. Ela
sempre o contradizia quando ele falava alguma coisa daquele tipo. Não
aceitava como uma lei da natureza o indivíduo sair sempre derrotado. De
certa maneira, Julia percebia que ela própria estava condenada, que mais
cedo ou mais tarde a Polícia das Ideias haveria de apanhá-la e matá-la, mas
com outra parte de sua mente acreditava que havia algum jeito de construir
um mundo secreto onde fosse possível viver do jeito que se quisesse. Só era
preciso sorte, esperteza e ousadia. Não entendia que essa coisa chamada
felicidade não existisse, que a única vitória estaria num futuro distante,
muito depois da morte da pessoa, que a partir do momento em que se
declarava guerra ao Partido era melhor pensar em si próprio como um
cadáver.


“Os mortos somos nós”, disse ele.
“Ainda não morremos”, disse Julia de modo trivial.
“Fisicamente, não. Seis meses, um ano, talvez cinco anos. Tenho medo
da morte. Você é jovem; portanto, em princípio, tem mais medo da morte do
que eu. É claro que iremos protelá-la o máximo possível. Mas a diferença é
muito pequena. Enquanto os seres humanos permanecerem humanos, morte
e vida serão a mesma coisa.”
“Ah, que bobagem. Com quem você prefere ir para a cama: comigo ou
com um esqueleto? Você não sente prazer em estar vivo? Não gosta de
sentir: Este sou eu, esta é minha mão, esta é minha perna, sou real, sou
sólido, estou vivo? Não gosta disto?
Virou o corpo e comprimiu o peito contra o dele. Ele sentiu seus seios,
maduros e ao mesmo tempo firmes, por baixo do macacão. O corpo dela
parecia verter um pouco de sua juventude e de seu vigor para dentro do
corpo dele.
“Sim, eu gosto”, disse ele.
“Então pare de falar em morrer. E agora ouça, meu querido, temos que
combinar nosso próximo encontro. Que tal voltarmos àquele lugar no
bosque? Já deixamos passar um bom tempo. Só que dessa vez você precisa
chegar lá por um caminho diferente. Já planejei tudo. Você toma o trem…
Mas olhe aqui, vou fazer um desenho para você.”
E com seu jeito prático ela juntou um pouco de poeira e formou um
pequeno quadrado. Em seguida, pôs-se a desenhar um mapa no chão com
um galhinho retirado de um ninho de pombo.



4.
Winston percorreu com o olhar o comodozinho esquálido que ficava em
cima da loja do sr. Charrington. Ao lado da janela, a cama imensa estava
arrumada com cobertores puídos e um travesseiro sem fronha. O relógio
antiquado, com o mostrador de doze horas, tiquetaqueava sobre a borda da
lareira. No canto, sobre a mesa de abas dobráveis, o peso de papel de vidro
que ele comprara em sua última visita luzia suavemente na semiescuridão.
No guarda-fogo, viam-se um velho fogareiro a querosene, uma panela e
duas xícaras, tudo fornecido pelo sr. Charrington. Winston acendeu o
fogareiro e pôs um pouco de água para ferver. Trouxera um envelope cheio
de café Victory e algumas pastilhas de sacarina. Os ponteiros do relógio
marcavam sete e vinte; e eram, de fato, dezenove e vinte. Ela chegaria às
dezenove e trinta.
Loucura, loucura, seu coração não se cansava de dizer: insensatez
deliberada, gratuita e suicida! De todos os crimes que um membro do
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