1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
num internato de garotas, que seriam comprados furtivamente por jovens
proletários convencidos de que estavam adquirindo algo ilegal.
“Como são esses livros?”, perguntou Winston, curioso.
“Uma tremenda de uma porcaria. Na verdade são muito chatos. São
apenas seis histórias, muito recortadas e reaproveitadas. Bom, só trabalhei
nos caleidoscópios, claro. Nunca fiz parte do Pelotão Reescritor. Não sou
literata, querido — nem para isso eu dou.”
Winston ficou sabendo, atônito, que todos os trabalhadores da Pornodiv,
exceto o chefe da divisão, eram moças. Supostamente os homens, cujos
instintos sexuais eram menos controláveis que os das mulheres, corriam
maior risco de ser corrompidos pelo lixo com que lidavam.
“Eles não gostam nem de ter mulher casada trabalhando lá”, acrescentou
Julia. “Todo mundo sempre pensa que as garotas são tão puras… Bom, aqui
está uma que não é.”
Ela tivera seu primeiro caso aos dezesseis anos. O parceiro era um
homem de sessenta anos, membro do Partido, que mais tarde cometera
suicídio para evitar a prisão. “Aliás, uma boa providência”, observou Julia.


“Do contrário teria sido obrigado a divulgar meu nome na hora da
confissão.” Depois, houvera vários outros. Para ela, a vida era uma coisa
muito simples. Você fica querendo se divertir e “eles”, ou seja, o Partido,
faz de tudo para evitar que você se divirta. Você faz de tudo para infringir as
regras. Ela parecia achar muito natural que “eles” quisessem privar você de
seus prazeres, assim como era natural que você quisesse evitar ser flagrado.
Odiava o Partido, e dizia isso com palavras grosseiras, mas não o criticava
globalmente. Só se interessava pela doutrina do Partido quando ela dizia
respeito a sua vida particular. Winston percebeu que nunca usava palavras
em Novafala, com exceção das que haviam migrado para a linguagem
corrente. Nunca ouvira falar na Confraria e se recusava a acreditar em sua
existência. Todo tipo de revolta organizada contra o Partido lhe parecia uma
bobagem. A coisa mais inteligente a fazer era infringir as regras e dar um
jeito de continuar vivo. Ele ficou pensando que devia haver muitas outras
garotas como ela na geração mais nova. Pessoas que haviam crescido no
mundo da Revolução, ignorantes de tudo o mais, aceitando o Partido como
uma coisa tão inalterável quanto o céu, deixando de rebelar-se contra sua
autoridade, mas tratando de esquivar-se, como um coelho escapa de um cão.
Não discutiram a hipótese de casamento. Tratava-se de uma coisa muito
remota para que valesse a pena pensar nela. Impossível imaginar algum
comitê capaz de sancionar um casamento daqueles, mesmo que fosse
possível dar um jeito em Katharine, a mulher de Winston. Mesmo como
devaneio, aquele era um caso sem esperança.
“Como era a sua mulher?”, indagou Julia.
“Era… Sabe aquela palavra em Novafala, benepensante? Com o sentido
de ‘naturalmente ortodoxo’, ‘incapaz de ter um mau pensamento’?”
“Não, eu não conhecia a palavra, mas conheço muito bem esse tipo de
gente.”
Winston começou a contar a história de seu casamento, porém, por
estranho que parecesse, tudo levava a crer que Julia já estava a par dos
pontos essenciais. Descreveu para Winston, quase como se ela própria
tivesse visto ou sentido aquilo, o modo como o corpo de Katharine se
enrijecia quando ele a tocava, aquele jeito dela de parecer que o estava
rechaçando com todas as suas forças mesmo quando enlaçava o corpo dele.
Winston não sentia dificuldade em conversar sobre essas coisas com Julia:


fazia muito tempo que Katharine deixara de ser uma lembrança dolorosa
para tornar-se simplesmente uma lembrança desagradável.
“Eu teria aguentado, se não fosse por uma coisa”, disse ele. Contou da
pequena cerimônia frígida da qual Katharine o obrigava a participar
semanalmente, sempre na mesma noite. “Ela tinha horror daquela coisa,
mas nada no mundo a impediria de fazer aquilo. Ela costumava chamar
de… você nunca imaginaria.”
“Nosso dever para com o Partido”, disse Julia no mesmo instante.
“Como você sabia?”
“Também já frequentei a escola, querido. Palestras mensais sobre sexo,
para jovens acima de dezesseis anos. E o Movimento da Juventude. Enfiam
esse negócio na sua cabeça por anos a fio. Admito que em muitos casos
funciona. Mas é óbvio que nunca se sabe; as pessoas são tão hipócritas…”
Julia começou a especular sobre o assunto. Com ela, tudo sempre ia dar
em sua própria sexualidade. Assim que essa questão era abordada de
alguma forma, ela demonstrava uma grande perspicácia. Diferentemente de
Winston, entendera o significado profundo do puritanismo sexual do
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