1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Amo você.
Winston passou vários segundos em estado de choque, incapaz até de
jogar a peça incriminatória no buraco da memória. Quando o fez, mesmo
sabendo muito bem qual era o risco de demonstrar interesse excessivo, não
resistiu ao impulso de lê-lo novamente, só para ter certeza de que aquelas
palavras estavam mesmo ali.
Passou o resto da manhã com muita dificuldade para trabalhar. Pior ainda
do que ser obrigado a direcionar a mente para uma série de tarefas
minuciosas e insignificantes era a necessidade de disfarçar seu estado de
agitação diante da teletela. Tinha a sensação de que um fogo ardia em sua
barriga. O almoço na cantina quente, apinhada e barulhenta foi uma tortura.
Winston alimentara a esperança de ficar algum tempo sozinho durante o
almoço, mas por azar o imbecil do Parsons se instalara ao lado dele, com o
odor penetrante de seu suor quase superando o cheiro metálico do
ensopado, e fez comentários ininterruptos sobre os preparativos para a
Semana do Ódio. Estava entusiasmado com um modelo em papel machê da


cabeça do Grande Irmão, de dois metros de largura, que estava sendo
construído especialmente para a ocasião pelo grupo de Espiões de sua filha.
O mais irritante era que na balbúrdia das vozes Winston mal conseguia
ouvir o que Parsons dizia, e tinha de ficar o tempo todo pedindo-lhe que
repetisse essa ou aquela observação idiota. Uma única vez viu a garota de
relance, sentada com duas outras garotas a uma mesa na outra extremidade
do salão. Parecia não tê-lo visto, e ele não voltou a olhar naquela direção.
A tarde foi mais suportável. Logo depois do almoço recebeu uma tarefa
delicada, difícil, que exigiria várias horas de trabalho e o obrigava a deixar
tudo o mais de lado. Tratava-se de falsificar uma série de relatórios de
produção de dois anos antes, de modo a mostrar sob uma luz desfavorável
um membro destacado do Núcleo do Partido sobre o qual no momento
pairavam nuvens. Era o tipo de coisa que Winston sabia fazer, e por mais de
duas horas conseguiu manter a garota afastada do pensamento. Depois a
lembrança do rosto dela voltou, e junto com a lembrança o desejo
avassalador, intolerável, de ficar sozinho. Enquanto não conseguisse ficar
sozinho, seria impossível refletir sobre a novidade. Aquela era uma das
noites em que ele deveria passar no Centro Comunitário. Engoliu outra
refeição insípida na cantina e saiu correndo para o Centro, participou da
asneira pretensiosa de um “grupo de discussão”, jogou duas partidas de
pingue-pongue, engoliu vários copos de gim e passou meia hora sentado
ouvindo uma palestra intitulada “O Socing e o jogo de xadrez”. Sua alma se
contorcia de tédio, mas dessa vez não teve vontade de esquivar-se da noite
no Centro. A visão das palavras amo você fizera transbordar nele o desejo
de continuar vivo, e a ideia de correr riscos menores pareceu-lhe de repente
uma burrice. Só depois das onze da noite, quando já estava em casa deitado
na cama — no escuro, onde a pessoa fica protegida até da teletela, desde
que guarde silêncio —, teve condições de pensar de forma continuada.
Era um problema físico que precisava ser solucionado: como entrar em
contato com a garota e combinar um encontro. Já não acreditava na
possibilidade de que ela pudesse estar preparando algum tipo de armadilha
para ele. Sabia que não pela indisfarçável agitação da garota ao lhe entregar
o bilhete. Era evidente que estava fora de si de pânico, e tinha todos os
motivos para isso. Ao mesmo tempo, a hipótese de esquivar-se dela jamais
lhe passou pela cabeça. Havia apenas cinco noites flertara com a ideia de
afundar seu crânio com uma pedra; mas isso não era importante. Pensou em


seu corpo jovem nu, tal como o vira em sonhos. Havia pensado que ela
fosse uma tola como todas as outras, que sua cabeça estava lotada de
mentiras e ódio e seu ventre cheio de gelo. Foi tomado por uma espécie de
febre ao pensar que poderia perdê-la, que aquele corpo claro e juvenil
poderia escapar para longe dele! O que ele temia acima de todas as coisas
era que ela simplesmente mudasse de ideia se ele não entrasse depressa em
contato com ela. Mas a dificuldade física do encontro era monumental. Era
como tentar fazer uma jogada numa partida de xadrez quando já era líquido
e certo que você ia levar o xeque-mate. Para qualquer lado que você se
virasse, a teletela o encarava. Na verdade, todas as maneiras possíveis de
estabelecer comunicação com ela lhe ocorreram nos cinco minutos
seguintes à leitura do bilhete; mas agora, com tempo para pensar, analisou-
as uma a uma, como alguém que posiciona uma série de ferramentas sobre
uma mesa.
Claro que o tipo de encontro ocorrido naquela manhã não poderia se
repetir. Se ela trabalhasse no Departamento de Documentação, talvez fosse
relativamente mais simples, mas ele possuía uma noção muito vaga da
localização, no edifício, do Departamento de Ficção, e não dispunha de
nenhum pretexto para ir até lá. Se pelo menos soubesse onde ela morava e a
que horas saía do trabalho, poderia dar um jeito de encontrá-la em algum
ponto de seu trajeto para casa; mas tentar segui-la na saída do trabalho era
perigoso, pois seria preciso demorar-se nas cercanias do Ministério, coisa
que sem dúvida seria observada. Quanto a mandar uma carta utilizando o
serviço dos correios, fora de questão. Devido a uma rotina que nem chegava
a ser secreta, todas as cartas em trânsito eram abertas. Na verdade,
pouquíssimas pessoas escreviam cartas. Nas raras ocasiões em que era
necessário enviar uma mensagem, havia cartões impressos com uma longa
lista de frases: bastava riscar aquelas que não correspondiam ao que você
desejava comunicar. De todo modo, ele não sabia nem o nome da garota,
quanto mais seu endereço. Por fim, concluiu que o lugar mais seguro era a
cantina. Se conseguisse pegá-la sentada sozinha a uma mesa, em algum
ponto mais para o meio do salão, não muito perto das teletelas e com
suficiente barulho de conversa ao redor — e se essas condições se
mantivessem por, digamos, trinta segundos, talvez fosse possível trocar
algumas palavras com ela.


Durante toda uma semana depois da entrega do bilhete, a vida
transcorreu como um sonho inquieto. No dia seguinte a garota só apareceu
na cantina quando ele já estava saindo, depois do toque da sirene. Era
possível que o horário dela tivesse sido trocado para um turno posterior. Os
dois se cruzaram sem se olhar. Um dia depois ela estava na cantina em seu
horário habitual, mas acompanhada de três outras garotas e bem em frente a
uma teletela. Em seguida, por três pavorosos dias, ela simplesmente não
apareceu. A cabeça e o corpo de Winston pareciam dominados por uma
sensibilidade intolerável, uma espécie de transparência, que transformava
num suplício cada movimento, cada som, cada contato, cada palavra que ele
era obrigado a dizer ou ouvir. Nem adormecido ele conseguia fugir
inteiramente da imagem dela. Naqueles dias não escreveu no diário. Se é
que havia alívio em algum lugar, era em seu trabalho, durante o qual às
vezes conseguia desligar por dez minutos seguidos. Não fazia a mínima
ideia do que pudesse ter acontecido com ela. Não havia como averiguar. Ela
podia ter sido vaporizada, podia ter se suicidado, podia ter sido transferida
para o outro extremo da Oceânia. De todas as hipóteses possíveis, a pior e a
mais provável era que simplesmente tivesse mudado de ideia e resolvido
evitá-lo.
No dia seguinte ela reapareceu. O braço já não estava na tipoia; em torno
do pulso, trazia uma tira de esparadrapo. O alívio de tornar a vê-la foi tão
grande que ele não conseguiu se conter e olhou diretamente para ela por
vários segundos. No dia seguinte esteve bem perto de conseguir falar com
ela. Ao chegar à cantina viu-a sentada a uma mesa bem afastada da parede e
completamente sozinha. Era cedo, o lugar ainda não estava tão cheio. A fila
foi avançando e Winston já ia se aproximando do balcão quando o avanço
se interrompeu por dois minutos porque alguém lá na frente começou a se
queixar de não haver recebido seu tablete de sacarina. A garota continuava
sentada sozinha quando Winston apanhou sua bandeja e começou a andar
em direção à mesa dela. Foi andando como quem não quer nada, enquanto
seus olhos procuravam um lugar livre em alguma mesa mais à frente. Ela
estava a uns três metros dele. Dois segundos mais e tudo estaria resolvido.
Nisso uma voz atrás dele exclamou: “Smith!”. Winston fingiu que não tinha
ouvido. “Smith!”, repetiu a voz, agora mais alto. Não adiantava. Ele se
virou. Um jovem louro, com cara de bobo, chamado Wilsher, que ele mal
conhecia, convidava-o com um sorriso a ocupar um lugar vago na mesa


dele. Não era seguro recusar. Depois de ser reconhecido, não podia ir
sentar-se à mesa de uma garota desacompanhada. Chamaria muito a
atenção. Winston se instalou com um sorriso amistoso. O rosto louro, tolo,
abriu-se para ele. Winston teve uma visão delirante dele próprio cravando
uma picareta bem no meio daquele rosto. Minutos depois a mesa da garota
foi toda ocupada.
Mas ela provavelmente o vira aproximar-se e talvez tivesse entendido o
sinal. No dia seguinte Winston teve o cuidado de chegar cedo. Não deu
outra: ela estava sentada a uma mesa mais ou menos no mesmo lugar da
véspera e, também daquela vez, sozinha. A pessoa imediatamente à frente
de Winston na fila era um homenzinho miúdo, de movimentos rápidos,
rosto achatado e frágil e olhos desconfiados. Assim que se afastou do
balcão carregando sua bandeja, Winston viu o homenzinho avançar para a
mesa da garota. Mais uma vez, suas esperanças naufragavam. Havia um
lugar vago numa mesa um pouco mais afastada, mas alguma coisa na
aparência do homenzinho sugeria que ele devia ser alguém suficientemente
atento ao próprio conforto para escolher a mesa mais vazia. Winston
continuou andando, de coração apertado. Não havia sentido — a não ser
que conseguisse pegar a garota sozinha. Naquele momento ouviu-se um
estrondo portentoso. O homenzinho estava de quatro no chão. A bandeja
voara longe; dois riozinhos de sopa e café escorriam pelo chão. O
homenzinho se ergueu, dirigindo um olhar malévolo para Winston, a quem
visivelmente considerava o possível culpado por seu tropeção. Mas acabou
dando tudo certo. Cinco segundos mais tarde, com o coração batendo forte,
Winston estava sentado à mesa da garota.
Não olhou para ela. Retirou os alimentos da bandeja e começou a comer
assim que se sentou. Era da maior importância falar imediatamente, antes
que aparecesse alguém, mas fora tomado por um medo terrível. Uma
semana se passara desde a primeira vez que ela se aproximara dele. Talvez
ela tivesse mudado de ideia, certamente mudara de ideia. Impossível que
aquele caso terminasse bem; era o tipo de coisa que não acontece na vida
real. Talvez naquele momento ele tivesse desistido de falar com a garota se
não houvesse visto Ampleforth, o poeta de orelhas peludas, vagar
desorientado pela sala com uma bandeja, procurando um lugar para
depositá-la. Mesmo com seu jeito pouco efusivo, Ampleforth tinha afeto
por Winston e sem dúvida viria sentar-se à mesa dele se chegasse a avistá-


lo. Winston tinha um minuto no máximo para agir. Ele e a garota comiam
com aplicação. O prato do dia era um ensopado ralo — na verdade uma
sopa — de vagem. Num murmúrio, Winston começou a falar. Nenhum dos
dois ergueu os olhos; com aplicação, recolhiam o alimento aguado com a
colher e o enfiavam na boca, e entre uma e outra colherada trocaram as
poucas palavras indispensáveis numa voz baixa e sem expressão.
“A que hora você sai do serviço?”
“Seis e meia.”
“Onde podemos nos encontrar?”
“Na praça Victory, perto do monumento.”
“Está cheio de teletelas…”
“Não faz mal, se houver bastante gente.”
“Algum código?”
“Não. Só se aproxime de mim se eu estiver no meio de uma porção de
gente. E não olhe para mim. Fique perto, só isso.”
“A que horas?”
“Sete.”
“Está certo.”
Ampleforth não viu Winston e se instalou em outra mesa. A garota e
Winston não voltaram a conversar e, tanto quanto possível, em se tratando
de duas pessoas sentadas uma diante da outra na mesma mesa, não trocaram
olhares. A garota acabou rapidamente de almoçar e foi embora; Winston
ficou mais um pouco para fumar um cigarro.
Antes da hora combinada Winston já estava na praça Victory. Ficou
dando voltas na base da enorme coluna canelada sobre o topo da qual a
estátua do Grande Irmão fitava os céus ao sul, onde derrotara a aviação
eurasiana (alguns anos antes fora a aviação lestasiana) na Batalha da Faixa
Aérea Um. Na rua que passava logo à frente, estava a estátua de um homem
a cavalo que supostamente representava Oliver Cromwell. Às sete e cinco a
garota ainda não aparecera. Mais uma vez, Winston foi tomado por um
medo terrível. Ela não viria, mudara de ideia! Andou devagar para o lado
norte da praça e sentiu uma espécie de prazer esmaecido ao identificar a
igreja de São Martim, cujos sinos, na época em que ela possuía sinos,
entoavam “Esses vinténs são pra mim”. Nisso viu a garota parada junto à
base do monumento, lendo ou fingindo que lia um pôster afixado numa
coluna. Não era seguro aproximar-se dela enquanto não se juntasse um


grupo de pessoas naquele ponto da praça. Havia teletelas ao longo de todo o
frontão. Mas justo naquele momento ouviram-se uma gritaria e uma
barulhada de veículos pesados vindo de algum ponto à esquerda. De
repente, teve a impressão de que todo mundo atravessava a praça correndo.
A garota, ágil, contornou os leões da base do monumento e juntou-se aos
outros. Winston foi atrás. Enquanto corria, ouviu as pessoas comentarem
aos gritos que um comboio de prisioneiros eurasianos estava passando.
Uma massa compacta de gente bloqueava o lado sul da praça. Winston,
normalmente o tipo de homem que gravitava no limite externo de qualquer
tipo de tumulto, distribuiu cotoveladas, enfiou-se, espremeu-se entre os
corpos até chegar ao centro da multidão. Em pouco tempo, viu-se a um
braço de distância da garota, mas teve seu avanço bloqueado por um proleta
gigantesco acompanhado de uma mulher tão gigantesca quanto ele,
supostamente sua esposa, que pareciam formar uma muralha impenetrável
de carne. Winston se contorceu, entrou de lado e, com um empurrão
violento, conseguiu enfiar o ombro entre os dois. Por um momento parecia
que seus intestinos estavam sendo moídos e que virariam pasta entre
aqueles dois quadris musculosos; depois, quando deu por si, conseguira
passar, suando um pouco. Estava ao lado da garota, ombro a ombro. Os dois
olhavam fixamente para a frente.
Uma longa fila de caminhões, com guardas de expressão impenetrável
em posição de sentido e armados de metralhadoras posicionados nos quatro
cantos dos veículos, descia a rua devagar. Nos caminhões, aglomerados e de
cócoras, iam homenzinhos amarelos vestindo uniformes verdolengos
esfarrapados. Seus tristes rostos mongólicos, voltados para o exterior da
carroceria do caminhão, olhavam sem ver, totalmente desprovidos de
curiosidade. De vez em quando, sempre que um caminhão dava uma
sacolejada mais forte, ouvia-se o clangor de metal contra metal: todos os
prisioneiros traziam grilhões. Um após outro, passavam aqueles caminhões
lotados de rostos tristes. Winston sabia que estavam ali, mas só os via
intermitentemente. O ombro da garota e seu braço até a altura do cotovelo
estavam comprimidos contra os dele. Sua face estava tão próxima que ele
quase conseguia sentir sua calidez. Ela se assenhorara de imediato da
situação, exatamente como fizera na cantina. Começou a falar na mesma
voz inexpressiva de antes, mal movendo os lábios, num murmúrio logo
afogado pelo rumor das vozes e dos caminhões.


“Você está me ouvindo?”
“Estou.”
“Consegue uma folga no domingo à tarde?”
“Consigo.”
“Então ouça com atenção. Você vai precisar se lembrar disto. Vá até a
estação Paddington…”
Com uma espécie de precisão militar que deixou Winston atônito, ela
explicou o itinerário que ele deveria seguir. Uma viagem de meia hora de
trem; virar à esquerda, ao sair da estação; dois quilômetros de caminhada
pela estrada; uma porteira sem a viga de cima; uma trilha que cruzava um
campo; uma passagem gramada; uma vereda entre arbustos; uma árvore
morta coberta de musgo. Era como se ela tivesse um mapa dentro da
cabeça.
“Você vai conseguir se lembrar de tudo isso?”, murmurou por fim a
garota.
“Vou.”
“Você vira à esquerda, depois à direita, depois de novo à esquerda. E a
porteira está sem a viga de cima.”
“Está bem. A que horas?”
“Às três da tarde mais ou menos. Talvez você precise esperar. Vou chegar
por outro caminho. Tem certeza de que vai se lembrar de tudo?”
“Tenho.”
“Então se afaste de mim o mais rápido que puder.”
Ela nem precisava ter dito isso, só que durante algum tempo nenhum dos
dois conseguiu se desembaraçar da multidão. O cortejo de caminhões
continuava passando, as pessoas, insaciáveis, continuavam olhando
boquiabertas. No início houvera algumas vaias e assobios, mas vinham
somente dos membros do Partido que se encontravam no meio do povo — e
em pouco tempo se interromperam. A emoção predominante era a pura e
simples curiosidade. Os estrangeiros, fossem eles da Eurásia ou da Lestásia,
eram uma espécie de animal estranho. Era absolutamente impossível vê-los
sob outra forma que não a de prisioneiros, e mesmo como prisioneiros tudo
que se conseguia era olhar para eles durante um momento curtíssimo. Além
disso, ninguém nunca sabia qual era o destino deles, sem contar os poucos
que acabavam enforcados como criminosos de guerra; os outros
simplesmente evaporavam, enviados talvez para campos de trabalho


forçado. Rostos mongólicos e redondos haviam dado lugar a rostos de um
tipo mais europeu, sujos, barbados e exaustos. De trás de malares
maltratados, olhos se enfiavam nos olhos de Winston, às vezes com uma
estranha intensidade, para em seguida voltarem a se afastar. O comboio
chegava ao fim. No último caminhão, viu um homem idoso, rosto coberto
por um emaranhado de pelos grisalhos, em pé, punhos cruzados à frente,
como alguém habituado a andar com os braços amarrados. Estava quase na
hora de Winston e a garota se separarem. No último momento, porém, ainda
cingidos pela multidão, a mão dela buscou a dele e a apertou por um
segundo.
Impossível que as duas mãos tivessem se encontrado por mais de dez
segundos, mas ainda assim parecia que fora por muito tempo. Winston teve
tempo de conhecer cada detalhe daquela mão. Apalpou os dedos compridos,
as unhas naturalmente bem-feitas, a palma, com sua fieira de calos,
enrijecida pelo trabalho, a carne macia da parte interna do punho. Pelo mero
fato de tocá-la, seria capaz de reconhecê-la com o olhar. No mesmo instante
ocorreu-lhe que não sabia qual era a cor dos olhos dela. Provavelmente
castanhos, mas pessoas de cabelo escuro às vezes têm olhos azuis. Virar a
cabeça e olhar para ela teria sido absoluta loucura. De mãos dadas,
invisíveis no meio dos corpos que se comprimiam, os dois haviam mantido
os olhos firmemente voltados para a frente e, em vez dos olhos da garota,
eram os olhos magoados do prisioneiro idoso que fitavam Winston,
perdidos no meio de seu matagal de pelos.



2.
Winston avançava pelo caminho em meio a um mosqueado de luz e sombra,
pisando em poças douradas sempre que os galhos das árvores se
distanciavam uns dos outros. Sob as árvores à esquerda, o solo era um
nevoeiro de jacintos. O ar parecia beijar a pele. Era dia 2 de maio. De
algum lugar mais para o interior do bosque vinha o arrulho de torcazes.
Estava um pouco adiantado. Não encontrara dificuldades em relação à
viagem, e a experiência com que a garota lidava com as coisas era tão
evidente que ele não sentia tanto medo quanto normalmente sentiria. Ao
que tudo indicava, podia confiar nela para encontrar um lugar seguro. Em
geral, não se podia supor que a pessoa estivesse muito mais segura no
campo do que em Londres. Não havia teletelas, claro, mas sempre se corria
o risco de que o lugar fosse vigiado por microfones escondidos, que
haveriam de captar e identificar a voz de quem aparecesse por ali; além
disso, não era fácil viajar sozinho sem atrair a atenção. Para distâncias
inferiores a cem quilômetros, não era necessário visto no passaporte, porém
às vezes havia patrulhas nas estações ferroviárias e os guardas pediam os
documentos de qualquer membro do Partido que encontrassem pela frente,
submetendo-os a perguntas inconvenientes. Contudo, nenhuma patrulha
aparecera, e à saída da estação Winston dirigira vários olhares cautelosos
para trás, para se certificar de que não estava sendo seguido. O trem ia
cheio de proletas, todos com ânimo domingueiro por conta do tempo
estival. O vagão com assentos de madeira em que Winston viajou estava
superlotado com os numerosos integrantes de uma única família, os quais
incluíam desde uma avó desdentada até um bebê com um mês de vida.
Tencionavam passar a tarde com os “contraparentes” no interior e, como
explicaram abertamente a Winston, comprar um pouco de manteiga no
mercado negro.


O caminho se alargou e, um minuto depois, Winston chegou à trilha
mencionada pela garota — uma simples picada aberta pelo gado que
mergulhava mato adentro. Winston não tinha relógio, mas ainda não
deveriam ser três horas. Os jacintos formavam uma camada tão densa
debaixo de seus pés que era impossível não pisar neles. Winston se ajoelhou
e começou a colher alguns, em parte para passar o tempo, em parte com a
vaga ideia de que gostaria de ter um ramo de flores para oferecer à garota
quando se encontrassem. Reunira um grande buquê e estava aspirando seu
perfume levemente enjoativo quando um som logo atrás dele o fez gelar da
cabeça aos pés: a inconfundível crepitação de gravetos sob o peso de um pé.
Continuou colhendo os jacintos. Era a melhor coisa a fazer. Podia ser a
garota — ou talvez tivesse sido mesmo seguido. Olhar para trás seria uma
confissão de culpa. Pegou uma flor, depois outra. Uma mão pousou
delicadamente em seu ombro.
Winston olhou para cima. Era a garota. Ela balançou a cabeça,
sinalizando com clareza que ele devia manter-se em silêncio; depois abriu
caminho entre os arbustos e enveredou rapidamente pela trilha estreita que
conduzia ao interior do bosque. Era evidente que já fizera aquele caminho
antes, pois se esquivava dos trechos enlameados como se os conhecesse
muito bem. Ainda com o ramo de flores na mão, Winston a seguiu. Sua
primeira sensação foi de alívio, mas conforme observava os movimentos do
corpo esbelto e vigoroso à sua frente, com a faixa escarlate justa o bastante
para revelar a curva dos quadris, a consciência de sua própria inferioridade
começou a oprimi-lo. Mesmo naquele momento parecia-lhe bastante
provável que, ao se virar e olhar para ele, a garota acabaria por bater em
retirada. A doçura que pairava no ar e o verdor das folhas o intimidavam. Já
no caminho da estação até ali, os raios do sol de maio o haviam feito sentir-
se sujo e anêmico, um ser que levava a vida entre quatro paredes, com a
poeira fuliginosa de Londres impregnada nos poros. Ocorreu-lhe que até
aquele momento ela provavelmente não o vira ao ar livre em plena luz do
dia. Chegaram à árvore caída que ela mencionara. A garota saltou por cima
do tronco e empurrou os arbustos para os lados, revelando uma passagem
oculta. Quando foi atrás dela, Winston percebeu que estavam numa clareira
natural, uma colinazinha minúscula coberta pela relva e circundada por
árvores novas e altas, que a escondiam por completo. A garota estacou e
virou-se.


“Aqui estamos”, disse.
Winston olhava para ela à distância de alguns passos. Não ousava
aproximar-se.
“Eu não queria falar nada no caminho”, continuou ela, “porque podia
haver algum microfone escondido. Há sempre o risco de um daqueles
pulhas reconhecerem a voz da gente. Aqui é seguro.”
Ele continuava sem coragem de se aproximar dela. “Aqui é seguro?”,
repetiu estupidamente.
“É, sim. Veja as árvores.” Eram pequenos freixos que haviam sido
cortados e que depois tinham brotado de novo, formando uma floresta de
postes, nenhum deles mais grosso que o pulso de uma pessoa. “Não há nada
suficientemente grande para ocultar um microfone. Além do mais, já estive
aqui antes.”
Estavam só fazendo rodeios. Àquela altura Winston já dera um jeito de se
aproximar mais dela. A garota permanecia diante dele com o corpo muito
ereto e um sorriso no rosto, um sorriso que parecia levemente irônico, como
se se perguntasse por que ele estava demorando tanto para tomar uma
atitude. Os jacintos haviam se espalhado pelo chão. Pareciam ter caído por
vontade própria. Winston pegou na mão dela.
“Você acredita”, disse, “que até agora eu não sabia a cor dos seus olhos?”
Eram castanhos, observou, um tom bem claro de castanho, com cílios
escuros. “Agora que está vendo como eu de fato sou, é capaz de continuar
olhando para mim?”
“Claro, sem o menor problema.”
“Tenho trinta e nove anos. Tenho uma mulher da qual não consigo me
livrar. Tenho varizes. Tenho cinco dentes postiços.”
“Não me importo nem um pouco”, disse a garota.
No momento seguinte, não se sabia por obra de quem, ela estava nos
braços dele. No início Winston não sentiu nada, só a mais rematada
incredulidade. O corpo jovem se estreitou contra o seu, a cabeleira preta
colava-se a sua face e — sim! ela realmente havia soerguido o rosto e ele
estava beijando aquela boca generosa e vermelha. Com os braços em volta
do pescoço dele, ela o chamava de meu querido, meu amor, meu adorado.
Winston a fizera se deitar no chão; a garota não oferecia a menor
resistência, ele podia fazer o que quisesse com ela. A verdade, porém, era
que ele não experimentava nenhuma outra sensação física além daquele


simples contato. Tudo o que sentia era incredulidade e orgulho. Estava
contente por aquilo estar acontecendo, mas não sentia desejo físico. Tudo
fora muito rápido, a juventude e a beleza dela o amedrontavam, estava
acostumado demais a viver sem mulher — não sabia por quê. A garota
ergueu o tronco e tirou um jacinto do cabelo. Sentou-se encostada nele,
cingindo-lhe a cintura com o braço.
“Não se aflija, querido. Não há pressa nenhuma. Temos a tarde inteira.
Não é maravilhoso este esconderijo? Descobri-o uma vez em que me perdi
durante uma caminhada comunitária. Se alguém vier nesta direção, a gente
escuta a centenas de metros de distância.”
“Como é o seu nome?”, perguntou Winston.
“Julia. O seu eu sei. Você se chama Winston — Winston Smith.”
“Como descobriu?”
“Acho que sou melhor que você para descobrir as coisas, amor. Me
conte, qual era sua opinião sobre mim antes do dia em que lhe entreguei o
bilhete?”
Winston não se sentia nem um pouco inclinado a mentir para ela.
Começar revelando o pior era até uma espécie de oferenda amorosa.
“Eu sentia ódio só de olhar para você ”, disse. “Queria estuprá-la e depois
matá-la. Duas semanas atrás, pensei seriamente em arrebentar a sua cabeça
com um paralelepípedo. Se quer mesmo saber, eu achava que você tinha
alguma ligação com a Polícia das Ideias.”
A garota riu com gosto, claramente tomando as palavras de Winston
como um elogio à excelência de seu disfarce.
“A Polícia das Ideias?! Não, não me diga que pensou mesmo isso!”
“Bom, talvez não exatamente isso. Mas, com esse seu jeito… você é tão
jovem, tão forte, tão saudável, entende?… pensei que talvez…”
“Pensou que eu me dedicava de corpo e alma ao Partido. Uma garota de
palavras e gestos puros. Faixas, desfiles, slogans, jogos, caminhadas
comunitárias — aquela coisa toda. E achou que na primeira oportunidade
eu provocaria sua execução, denunciando-o como criminoso do
pensamento?”
“É, mais ou menos isso. Você sabe que há muitas garotas assim.”
“A culpa é desta coisa nojenta”, disse ela, arrancando a faixa escarlate da
Liga Juvenil Antissexo e arremessando-a contra o tronco de uma árvore.
Em seguida, como se o ato de levar a mão à cintura a lembrasse de alguma


coisa, apalpou o bolso do macacão e tirou lá de dentro uma pequena barra
de chocolate. Partiu-a ao meio e deu um dos pedaços a Winston. Antes
mesmo de levá-lo à boca ele percebeu pelo cheiro que se tratava de um tipo
muito incomum de chocolate. Era escuro e lustroso e estava embalado em
papel prateado. As barras de chocolate normalmente eram coisas marrons,
foscas, farelentas, cujo gosto, até onde era possível descrevê-lo, lembrava a
fumaça saída dos incineradores de lixo. Mas em algum momento de sua
vida Winston já havia provado um chocolate semelhante ao pedaço que ela
lhe oferecera. Tão logo o odor lhe chegou às narinas, emergira de sua
memória algo que ele não conseguia definir, mas que era forte e
perturbador.
“Onde conseguiu isto?”, indagou.
“No mercado negro”, respondeu ela, indiferente. “Acho que sou mesmo
esse tipo de garota, para quem vê de fora. Sou boa nos esportes. Fui
comandante de tropa enquanto pertenci aos Espiões. Faço trabalhos
voluntários para a Liga Juvenil Antissexo três vezes por semana, à noite.
Horas e horas colando a droga da baboseira deles por todos os cantos de
Londres. Nas paradas, sou uma das que sempre carregam as faixas. Estou
sempre de cara de alegre e nunca falto com meu dever. É o que eu digo:
‘Nunca deixe de berrar junto com a multidão’. Só assim você está em
segurança.”
O primeiro fragmento de chocolate se derretera na língua de Winston. O
sabor era delicioso. Só que aquela lembrança continuava rondando as
fronteiras de sua consciência, algo intensamente sentido mas não reduzível
a contornos definidos, como um objeto que se via com o rabo do olho.
Afastou-a de si, ciente apenas de que se tratava da lembrança de um ato que
ele gostaria de reverter, mas não podia.
“Você é muito jovem”, disse. “Dez ou quinze anos mais jovem que eu. O
que você viu de atraente num homem como eu?”
“Foi alguma coisa no seu rosto. Achei que valia a pena arriscar. Sou boa
em identificar pessoas que não se ajustam. Assim que o vi, soube que você
estava contra eles.”
Eles parecia ser uma referência ao Partido, e principalmente ao Núcleo
do Partido, sobre o qual ela falava com um ódio tão franco e sarcástico que
Winston se sentia inquieto, mesmo sabendo que, se havia um lugar em que
os dois sabiam estar seguros, esse lugar era ali. Uma coisa que o atordoava


nela era o linguajar grosseiro. Supostamente os membros do Partido não
praguejavam, e o próprio Winston só raras vezes o fazia. Pelo menos em
voz alta. Julia, porém, parecia incapaz de falar do Partido, e sobretudo do
Núcleo do Partido, sem usar palavras como as que costumavam ser
rabiscadas a giz nas paredes manchadas de umidade dos becos. Não que
aquilo o desagradasse. Não passava de um sintoma da revolta que ela sentia
contra o Partido e seus métodos, e de certa maneira parecia natural e
saudável, como o espirro de um cavalo que sente o cheiro de feno ruim.
Tinham saído da clareira e atravessavam novamente o trecho salpicado de
luz e sombra, com os braços em torno das respectivas cinturas sempre que o
caminho se alargava o suficiente para permitir que caminhassem lado a
lado. Winston notou que a cintura dela parecia muito mais delicada agora
que a faixa fora removida. Só falavam por murmúrios. Fora da clareira,
disse Julia, convinha fazer silêncio. Finalmente chegaram ao limite do
pequeno bosque. Julia o deteve.
“Não apareça em campo aberto. Pode haver alguém à espreita. Enquanto
ficarmos atrás das árvores, não corremos nenhum perigo.”
Estavam à sombra de um grupo de aveleiras. A luz do sol, filtrada pela
profusão de folhas, ainda estava quente sobre seus rostos. Winston olhou
para as pradarias diante deles e foi atingido por um lento e curioso choque
de reconhecimento. Conhecia o lugar de vista. Uma pastagem antiga, já
bastante rasa, cortada por uma trilha sinuosa e com um ou outro montículo
de terra feito pelas toupeiras. Na sebe irregular que se via do outro lado do
campo, a brisa balançava muito suavemente os ramos dos olmos, e as folhas
estremeciam de leve em densas massas que lembravam cabelos de mulher.
Em algum lugar bem próximo mas que o olhar não alcançava devia haver
uma torrente formando poças verdes onde nadavam robalinhos.
“Não tem um riozinho perto daqui?”, sussurrou ele.
“Tem, sim. Na verdade ele fica na borda da próxima pastagem. Está
cheio de peixes, e dos grandões. Dá para vê-los balançando a cauda nas
poças sob os salgueiros.”
“É a Terra Dourada… Quase”, murmurou ele.
“Terra Dourada?”
“Na verdade não tem importância. É uma paisagem que me apareceu
algumas vezes em sonhos.”
“Olhe!”, sussurrou Julia.


Um tordo pousara num galho a menos de cinco metros de onde eles
estavam, quase na altura dos olhos dos dois. Talvez não os tivesse visto.
Estava ao sol, eles na sombra. Abriu as asas, tornou a fechá-las
cuidadosamente, baixou a cabeça por um momento como se estivesse
fazendo uma espécie de mesura para o sol, depois começou a cantoria. Na
quietude da tarde, o volume sonoro era surpreendente. Winston e Julia se
abraçaram, fascinados. A melodia prosseguia ininterrupta, minuto após
minuto, com variações impressionantes, que jamais se repetiam, quase
como se o passarinho estivesse deliberadamente exibindo seu virtuosismo.
Às vezes ele se interrompia por alguns segundos, abria e tornava a fechar as
asas, depois estufava o peito mosqueado e reiniciava seu canto. Winston
observava com uma espécie de vaga reverência. Para quem ou com que
finalidade cantava aquele passarinho? Não havia parceiras nem rivais por
perto. O que o levara a pousar nos limites de um bosque solitário e verter
sua música para o nada? Perguntou a si mesmo se era verdade que não
havia um microfone escondido por ali. A conversa entre ele e Julia
transcorrera toda em voz baixa, e o aparelho não teria sido capaz de captar
suas palavras, mas captaria o canto do tordo. Era bem possível que, na outra
ponta do instrumento, um homenzinho com aspecto de besouro estivesse
escutando atentamente — escutando aquilo. Todavia, a enxurrada melódica
foi aos poucos expulsando de sua mente todo tipo de conjectura. Era como
algo líquido sendo despejado sobre seu ser, inundando-o por inteiro, algo
que se misturava com a luz do sol filtrada pela folhagem. Winston já não
pensava; era pura sensação. A cintura da garota, cingida pela curva de seu
braço, era macia e cálida. Puxou-a para si e os dois ficaram frente a frente
com os peitos encostados, e o corpo dela pareceu fundir-se ao dele. Por
onde quer que ele passasse as mãos, parecia-lhe que ela se abria como água.
Suas bocas se colaram uma à outra; foi bem diferente dos beijos sôfregos
que haviam trocado antes. Quando seus rostos se afastaram de novo, ambos
soltaram suspiros profundos. O passarinho se assustou e alçou voo num
estrépito de asas.
Winston encostou os lábios no ouvido de Julia. “Agora”, sussurrou.
“Aqui não”, sussurrou ela em resposta. “Vamos voltar para o esconderijo.
É mais seguro.”
Depressa, pisando num ou noutro graveto, refizeram o caminho que
levava à clareira. Assim que se viram no interior do círculo de árvores


novas, Julia se virou e o encarou. Estavam ambos ofegantes, mas o sorriso
voltara aos cantos de seus lábios. Ela o fitou por alguns instantes, depois
buscou o zíper do macacão. E então sim! Foi quase como no sonho de
Winston. Com uma destreza semelhante à que ele imaginara, Julia arrancou
as roupas e, ao atirá-las para o lado, fez isso com o gesto grandioso que
parece aniquilar toda uma cultura. Seu corpo cintilava muito branco ao sol.
Mas por um instante ele não olhou para o corpo dela; tinha os olhos
ancorados no rosto sardento de sorriso tênue e atrevido. Ajoelhou-se diante
dela e segurou suas mãos.
“Já fez isso antes?”
“Claro que sim. Centenas de vezes… bom, um monte de vezes.”
“Com membros do Partido?”
“É, sempre com membros do Partido.”
“Com gente do Núcleo do Partido?”
“Não, com aqueles pulhas, não. Mas há uma porção deles que faria isso
— na primeira oportunidade. Eles não são os santinhos que parecem ser.”
O coração de Winston deu um salto. Ela perdera a conta das vezes que
fizera aquilo; oxalá tivessem sido mesmo centenas — milhares de vezes.
Tudo o que sugeria corrupção deixava-o repleto de uma doida esperança.
Sabe lá… Talvez sob a superfície o Partido estivesse podre, talvez seu culto
ao zelo e à abnegação não passasse de um biombo ocultando o mais
completo desregramento. Se pudesse infectar aquele bando todo com lepra
ou sífilis, com que alegria o faria! Tudo o que contribuísse para apodrecer,
fragilizar, minar! Puxou Julia para baixo, de modo que ficaram ambos
ajoelhados um de frente para o outro.
“Ouça. Quanto maior o número de homens que você teve, maior é o meu
amor. Compreende isso?”
“Perfeitamente.”
“Detesto a pureza, odeio a bondade. Não quero virtude em lugar nenhum.
Quero que todo mundo seja devasso até os ossos.”
“Bom, então acho que você vai gostar de mim, querido. Sou devassa até
os ossos.”
“Você gosta de fazer isso? Não me refiro apenas a estar comigo; falo da
coisa em si.”
“Adoro.”


Acima de tudo, era o que Winston queria ouvir. Não apenas o amor por
uma pessoa, mas o instinto animal, o desejo simples e indiferenciado: essa
era a força capaz de estraçalhar o Partido. Deitou-a sobre a relva, entre os
jacintos caídos. Dessa vez não houve nenhuma dificuldade. Pouco depois, o
movimento ascendente e descendente dos peitos dos dois se regularizou e,
numa espécie de abandono prazeroso, separaram-se. O sol parecia ter ficado
mais quente. Estavam ambos sonolentos. Winston estendeu o braço para
apanhar os dois macacões jogados no chão e usou-os para cobrir
parcialmente o corpo de Julia. Pegaram no sono quase de imediato e
dormiram por cerca de meia hora.
Winston foi o primeiro a acordar. Sentou-se e fitou o rosto sardento de
Julia, ainda serenamente adormecido, apoiado na palma da mão dela. Salvo
pela boca, não se podia dizer que fosse bonita. Olhando de perto, viam-se
uma ou duas rugas em torno de seus olhos. O cabelo preto e curto era
extraordinariamente denso e macio. Ocorreu-lhe que ainda não sabia o
sobrenome dela nem onde morava.
O corpo jovem, robusto, agora desamparadamente adormecido, despertou
nele um sentimento compassivo, protetor. Porém a ternura impensada que o
tomara enquanto o tordo cantava não voltara por completo. Puxou os
macacões para um lado e estudou o dorso branco e macio de Julia.
Antigamente, pensou, um homem olhava para o corpo de uma garota, via
que ele era desejável, e a coisa ficava por aí. Hoje, porém, não havia como
sentir um puro amor ou um puro desejo. Nenhuma emoção era pura, pois
tudo estava misturado ao medo e ao ódio. A união dos dois fora uma
batalha; o gozo, uma vitória. Era um golpe assentado contra o Partido. Um
ato político.



3.
“Podemos voltar aqui”, disse Julia. “Em geral não há problema em usar um
esconderijo duas vezes. Mas durante um mês ou dois não dá, claro.”
Tão logo ela acordou, sua atitude havia mudado. Tornou-se atenta e
prática, vestiu-se, amarrou a faixa escarlate na cintura e começou a
organizar os detalhes da viagem de volta. Parecia natural que a tarefa
coubesse a ela. Não havia como negar que Winston não possuía seu tino
prático; além disso, ela parecia conhecer perfeitamente os arredores de
Londres — um conhecimento acumulado ao longo de incontáveis
caminhadas comunitárias. O roteiro que forneceu a Winston era
completamente diferente do da vinda, levando-o até outra estação
ferroviária. “Nunca volte pelo mesmo caminho da chegada”, disse, como
quem enuncia uma regra geral importantíssima. Ela partiria na frente e
Winston deveria esperar meia hora para depois segui-la.
Ela especificara um lugar onde os dois poderiam se encontrar depois do
trabalho, na quarta noite a partir daquele dia. Era uma rua num dos bairros
mais pobres da cidade, onde havia uma feira livre que costumava ser muito
apinhada de gente e barulhenta. Ela ficaria perambulando de banca em
banca, fingindo procurar cadarços para sapatos ou linha de costura. Se
considerasse que a área estava livre, assoaria o nariz quando ele se
aproximasse. Se não o fizesse, ele deveria passar por ela sem reconhecê-la.
Mas, com um pouco de sorte, não haveria problema em conversarem
durante quinze minutos no meio das pessoas para combinar o encontro
seguinte.
“E agora tenho de ir”, ela disse assim que Winston compreendeu as
instruções. “Preciso estar de volta às sete e meia. Estou encarregada de
tomar conta da Liga Juvenil Antissexo por duas horas. Vamos distribuir
panfletos ou coisa do tipo. Não é um horror? Dê uma conferida em mim,


por favor. Estou com algum galhinho no cabelo? Tem certeza? Então até
mais, amor!
Ela se jogou nos braços dele, beijou-o com certa violência, um momento
depois enveredou por entre as arvorezinhas e desapareceu no bosque quase
sem fazer ruído. Ele continuava desconhecendo seu sobrenome e seu
endereço. Só que não fazia diferença, pois era inconcebível que algum dia
eles pudessem se encontrar em ambientes fechados ou trocar qualquer tipo
de comunicação escrita.
Na verdade eles jamais voltaram à clareira no bosque. Acontece que no
decorrer de maio houve uma única ocasião em que conseguiram voltar a
fazer amor. O fato se deu num outro esconderijo conhecido de Julia: o
campanário de uma igreja em ruínas localizada numa área rural
praticamente deserta, onde trinta anos antes caíra uma bomba atômica. Era
um excelente esconderijo depois que você chegava lá, o problema era
chegar lá: o trajeto era muito perigoso. Fora isso, só conseguiam encontrar-
se nas ruas, cada noite num lugar diferente e nunca por mais de meia hora.
Na rua, em geral era possível conversar, por assim dizer. Enquanto andavam
pelas calçadas entupidas de gente, sem ser lado a lado e nunca olhando um
para o outro, travavam uma conversa estranha, intermitente, que se
interrompia e se reatava como o facho de um farol: ora forçada ao silêncio
pela aproximação de um uniforme do Partido ou pela vizinhança de uma
teletela, ora retomada minutos depois no meio de uma frase, ora cortada
abruptamente quando os dois se afastavam um do outro no local
previamente combinado, ora prosseguida quase sem introdução no dia
seguinte. Julia parecia bastante habituada a esse tipo de conversa, que
chamava de “conversa em prestações”. Além disso, era surpreendentemente
capaz de falar sem mover os lábios. Só uma vez, ao longo de quase um mês
de encontros cotidianos, conseguiram trocar um beijo. Desciam em silêncio
uma ruazinha lateral (Julia nunca falava quando estavam fora das ruas
principais) quando se ouviu um estrondo ensurdecedor, a terra balançou, o
ar escureceu e Winston viu-se deitado de lado, ferido e aterrorizado. Uma
bomba-foguete devia ter caído nas cercanias. De repente percebeu o rosto
de Julia a poucos centímetros do dele, mortalmente branco, branco como
giz. Até os lábios dela estavam brancos. Estava morta! Ele a apertou contra
si e constatou que beijava um rosto vivo e quente. Só que algum material


coberto de poeira impedia que os lábios dos dois se unissem. Seus rostos
estavam cobertos de uma camada espessa de estuque.
Havia noites em que eles chegavam aos lugares combinados, depois
tinham de passar um pelo outro sem dar mostras de reconhecer-se porque
uma patrulha acabava de dobrar a esquina ou um helicóptero pairava logo
acima. Ainda que fosse menos perigoso, continuaria sendo difícil arranjar
tempo para encontros. Winston tinha uma semana de trabalho de sessenta
horas, a de Julia era ainda mais carregada, e o dia de folga de ambos variava
segundo a pressão do trabalho — e raramente coincidia. De todo modo,
Julia só tinha poucas noites inteiramente livres. Passava uma quantidade
impressionante de tempo assistindo a palestras e apresentações, distribuindo
panfletos para a Liga Juvenil Antissexo, preparando faixas para a Semana
do Ódio, fazendo coletas para a campanha da poupança e outras atividades
similares. Valia a pena, dizia. Tudo pura camuflagem. Se você obedecesse
às regras desimportantes, poderia desobedecer às importantes. Chegou ao
ponto de convencer Winston a comprometer outra de suas noites dedicando
meio expediente semanal à fábrica de munições, onde o trabalho era
realizado voluntariamente por membros zelosos do Partido. Assim, uma
noite por semana Winston passava quatro horas de um tédio paralisante
aparafusando pedacinhos de metal que provavelmente eram partes de
fusíveis de bomba, numa oficina mal iluminada e cheia de correntes de ar
onde o barulho das marteladas se confundia de forma horripilante com a
música das teletelas.
No encontro do campanário, as falhas em suas conversas fragmentárias
foram preenchidas. Era uma tarde esplendorosa. No quartinho quadrado
logo acima dos sinos o ar estava quente e imóvel e tinha um cheiro
atordoante de fezes de pombo. Os dois passaram horas conversando,
sentados no chão empoeirado e coberto de galhinhos, com um ou outro
levantando-se de vez em quando para dar uma espiada pelas seteiras e
certificar-se de que ninguém se aproximava.
Julia tinha vinte e seis anos. Vivia numa pensão com trinta outras garotas
(“Sempre no meio de fedor de mulher. Como eu detesto mulher!”, dizia
entre parênteses) e trabalhava, como ele bem imaginara, nas máquinas
romanceadoras do Departamento de Ficção. Gostava de seu trabalho, que
consistia basicamente em fazer funcionar e manter em bom estado um
motor elétrico potente mas complexo. Era “ininteligente”, mas gostava de


trabalhar com as mãos e ficava à vontade lidando com as máquinas. Era
capaz de descrever todo o processo de composição de um romance, desde a
diretriz geral emitida pelo Comitê de Planejamento até os retoques finais
realizados pelo Pelotão Reescritor. Mas não estava interessada no produto
final. Não era “muito ligada em leitura”, disse. Os livros eram
simplesmente um produto que precisava ser fabricado, como geleias ou
cadarços.
Não se lembrava de nada anterior ao início dos anos 1960 e só conhecera
uma pessoa que falava frequentemente dos dias anteriores à Revolução: um
avô desaparecido quando ela tinha oito anos. Na escola, fora capitã do time
de hóquei e ganhara o troféu de ginástica por dois anos seguidos. Fora líder
de tropa dos Espiões e secretária setorial da Liga da Juventude antes de se
filiar à Liga Juvenil Antissexo. Sempre demonstrara ter ótimo caráter.
Chegara a ser selecionada — sinal infalível de boa reputação — para
trabalhar na Pornodiv, divisão do Departamento de Ficção encarregada de
produzir pornografia barata para distribuir entre os proletas. A divisão
recebera o apelido de Casa da Nojeira, dado pelas pessoas que trabalhavam
lá, explicou. Ficara lá durante um ano, ajudando a produzir opúsculos em
pacotes lacrados com títulos como Casos de espancamento ou Uma noite

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