1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Sem casca nem semente, dizem os sinos da São Clemente,
Esses vinténs são pra mim, cantam os…
Súbito, seu coração pareceu virar gelo e seus intestinos, água. Um vulto
de macacão azul vinha pela calçada, a não mais de dez metros de distância.
Era a moça do Departamento de Ficção, a garota de cabelo preto. Embora
começasse a escurecer, Winston não teve dificuldade em reconhecê-la. Ela
o encarou por um breve instante, depois se afastou com passos rápidos,
como se não o tivesse visto.
Completamente paralisado, Winston ficou alguns segundos sem
conseguir sair do lugar. Depois virou-se para a direita e começou a
caminhar com passos duros, sem se dar conta de que ia na direção errada.
Fosse como fosse, aquilo resolvia uma questão. Agora não havia mais
dúvida de que a garota o espionava. Decerto o seguira até ali; não era
verossímil que fosse um simples fruto do acaso ela estar na mesma noite
passando pela mesma ruazinha obscura, a quilômetros de distância dos


bairros em que viviam os membros do Partido. Seria muita coincidência. Se
era de fato uma agente da Polícia das Ideias ou apenas uma espiã amadora
movida pelo excesso de zelo, pouco importava. Bastava que estivesse a
observá-lo. Provavelmente também o vira entrar no pub.
Era difícil caminhar. No interior do bolso, a bola de vidro chocava-se
contra sua coxa a cada passo que ele dava, e Winston sentiu a tentação de
jogá-la fora. O pior era a dor de barriga. Por alguns minutos teve a sensação
de que acabaria morrendo se não entrasse logo num banheiro. Mas num
lugar como aquele certamente não havia banheiros públicos. Depois o
espasmo passou, deixando em seu lugar uma dorzinha chata.
A rua era um beco sem saída. Winston estacou e passou vários segundos
sem saber direito o que fazer; em seguida deu meia-volta e começou a
refazer seus passos. Ao dar meia-volta, ocorreu-lhe que a moça cruzara com
ele havia não mais que três minutos e que, se corresse, provavelmente
conseguiria alcançá-la. Poderia persegui-la até um lugar sossegado e depois
esmagar seu crânio com uma pedra do calçamento. O pedaço de vidro que
tinha no bolso já seria pesado o suficiente para o serviço. Só que foi
obrigado a abandonar o plano na mesma hora, pois mesmo a ideia de fazer
algum tipo de esforço físico lhe era insuportável. Não conseguia correr, e
não seria capaz de atacar ninguém. Além do mais, ela era jovem e forte e
trataria de defender-se. Pensou também em ir às pressas para o Centro
Comunitário e ficar por lá até o lugar fechar, forjando assim um álibi parcial
para aquela noite. Mas isso também era impossível. Uma lassidão mortal se
apossara dele. A única coisa que Winston queria era voltar rapidamente
para casa, sentar-se e ficar quieto num canto.
Passava das dez da noite quando chegou ao apartamento. Às onze e meia,
o fornecimento de luz seria cortado na central. Foi até a cozinha e tomou
quase uma xícara de gim Victory, depois sentou-se à mesa da alcova e tirou
o diário da gaveta. Não o abriu de imediato, porém. Na teletela, uma voz
feminina estridente entoava uma canção patriótica. Winston olhava
fixamente para a capa marmorizada do caderno, tentando eliminar aquela
voz de sua consciência.
Era à noite que eles prendiam as pessoas, sempre à noite. O ideal era a
pessoa se matar antes que a capturassem. Algumas incontestavelmente
faziam isso. Muitos dos desaparecimentos na realidade eram suicídios.
Entretanto, era preciso uma coragem desesperada para se matar num mundo


em que em parte alguma era possível obter armas de fogo ou venenos de
ação rápida e segura. Com uma espécie de perplexidade, Winston refletiu
sobre a inutilidade biológica da dor e do medo, a perfídia do corpo humano,
que invariavelmente se entregava à inércia justo no momento em que se
fazia necessário um esforço especial. Poderia ter silenciado a moça de
cabelo preto se tivesse agido com rapidez; mas, exatamente porque o perigo
que corria era tão extremo, perdera a capacidade de agir. Ocorreu-lhe que
em momentos de crise o embate da pessoa nunca era com um inimigo
externo, mas sempre com seu próprio corpo. Naquele momento mesmo, e
apesar do gim, a dorzinha chata que sentia no estômago o impedia de
encadear os pensamentos. E o mesmo acontece, observou ele, em todas as
situações aparentemente heroicas ou trágicas. No campo de batalha, na
câmara de tortura, num navio prestes a ir a pique, os motivos pelos quais a
pessoa luta são sempre esquecidos, porque o corpo se dilata até ocupar o
universo inteiro, e mesmo quando a pessoa não está paralisada pelo medo
nem grita de dor, a vida é uma luta incessante contra a fome ou o frio ou a
insônia, contra um estômago embrulhado ou uma dor de dente.
Abriu o diário. Era importante escrever alguma coisa. Na teletela, a
mulher principiara outra canção. Sua voz parecia cravar-se no cérebro de
Winston como cacos pontiagudos de vidro. Winston tentou pensar em
O’Brien, por quem, ou para quem, o diário estava sendo escrito, mas em
vez disso começou a pensar no que aconteceria com ele depois que a Polícia
das Ideias o levasse. Não faria diferença se o matassem na mesma hora. Era
previsível que fosse morto. Contudo, antes da morte (ninguém falava sobre
isso, e no entanto a coisa era do conhecimento geral), seria preciso passar
pela rotina da confissão: rastejar pelo chão, implorar clemência, ouvir o
estalido dos ossos se partindo, ter os dentes quebrados, ver os chumaços de
cabelo ensanguentado. Por que submeter as pessoas àquilo, se o fim era
sempre o mesmo? Por que não encurtar a vida delas em alguns dias ou
semanas? Ninguém jamais se livrara da detenção e ninguém jamais deixara
de confessar. A partir do momento em que a pessoa sucumbia ao
pensamento-crime, fatalmente estaria morta dali a determinado tempo. Por
que então aquele horror — que não modificava nada — tinha de estar
embutido no futuro?
Winston tentou — com um pouco mais de sucesso do que antes —
evocar a imagem de O’Brien. “Ainda nos encontraremos no lugar onde não


há escuridão”, dissera-lhe O’Brien. Sabia o significado dessas palavras, ou
pelo menos achava que sabia. O lugar onde não havia escuridão era o futuro
idealizado, esse que ninguém jamais veria, mas que, graças à presciência,
era possível compartilhar misticamente. Contudo, com a voz da teletela
resmungando nos ouvidos, Winston não conseguia seguir em frente com o
fio desse raciocínio. Levou um cigarro à boca. Não demorou para que
metade do tabaco lhe caísse na língua, um pó amargo que era difícil voltar a
cuspir. O rosto do Grande Irmão assomou-lhe na mente, desalojando o de
O’Brien. Da mesma forma como fizera alguns dias antes, tirou uma moeda
do bolso e pôs-se a contemplá-la. A efígie lhe devolvia o olhar com uma
expressão grave, serena, protetora — mas que tipo de sorriso se escondia
por trás daquele bigode preto? Qual dobres fúnebres, as palavras lhe
voltaram à mente:
GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA

1
Tradicional regata de remo disputada no rio Tâmisa, em Londres, entre equipes
representando as universidades de Cambridge e Oxford. (N. T.)



PARTE 2


1.
A manhã ia pelo meio, e Winston deixara sua estação de trabalho para ir ao
banheiro.
Uma figura solitária avançava em sua direção vinda da outra ponta do
longo corredor muito iluminado. Era a garota de cabelo escuro. Haviam se
passado quatro dias desde que ele a vira na frente da lojinha de badulaques.
Quando ela chegou mais perto, ele viu que seu braço direito estava numa
tipoia, fato que não se percebia de longe porque a tipoia era da cor do
macacão. Decerto ela esmagara a mão ao manobrar um dos grandes
caleidoscópios nos quais os enredos dos romances eram “montados”. Era
um acidente comum no Departamento de Ficção.
Estavam a uns quatro metros um do outro quando a garota tropeçou e
caiu quase estatelada no chão, batendo o rosto e não conseguindo conter um
grito agudo de dor. Devia ter caído em cheio sobre o braço machucado.
Winston estacou. A garota tinha se ajoelhado e estava se levantando. Seu
rosto adquirira um tom amarelo leitoso. Sobre esse fundo, a boca se
destacava mais vermelha do que nunca. Tinha os olhos fixos nos dele, com
uma expressão suplicante que parecia mais de medo que de dor.
Uma emoção estranha agitou o coração de Winston. Diante dele estava
uma inimiga que pretendia matá-lo. Diante dele, também, estava um ser
humano que sofria, talvez com algum osso quebrado. Instintivamente, fez
um gesto na direção dela com a intenção de ajudar. No momento em que ela
caíra sobre o braço ferido, fora como se ele sentisse a dor em seu próprio
corpo.
“Você se machucou?”
“Não foi nada. Meu braço. Daqui a pouco passa.”
Ela falou como se tivesse o coração alvoroçado. Visivelmente, ficara
muito pálida.


“Você não quebrou nada?”
“Não, estou bem. Na hora doeu, só isso.”
Ela estendeu a mão livre e ele a ajudou a se levantar. Ela recuperara
alguma cor e parecia bem melhor.
“Não foi nada”, ela repetiu. “Só uma pancada no pulso. Obrigada,
camarada.”
E dizendo isso afastou-se na direção em que ia antes, com uma
vivacidade que parecia indicar que de fato não fora nada. Todo o incidente
não deve ter durado mais que meio minuto. Não permitir que os
sentimentos transparecessem no rosto era, agora, mais instinto do que
hábito; além disso, o fato ocorrera bem na frente de uma teletela. Mesmo
assim fora muito difícil não manifestar uma surpresa passageira, pois nos
dois ou três segundos em que ele a ajudava a se levantar a garota enfiara
algo em sua mão. Não havia dúvida de que fora intencional. Uma coisa
pequena e achatada. Ao passar pela porta do banheiro, ele a transferiu para
o bolso e apalpou-a com a ponta dos dedos. Era um pedacinho de papel
dobrado em quatro.
Em pé diante do mictório, com um movimento dos dedos conseguiu
desdobrar o papel. Óbvio que devia haver algum tipo de mensagem escrita
ali. Por um momento ficou tentado a entrar num dos reservados para poder
lê-la, mas sabia muito bem que seria uma rematada loucura. Os reservados
eram o lugar mais ininterruptamente vigiados pelas teletelas.
Voltou para sua estação de trabalho, sentou-se, jogou o fragmento de
papel no meio de outros papéis sobre a escrivaninha, como se ele não
tivesse a menor importância, pôs os óculos e virou o ditógrafo na direção da
boca. “Cinco minutos”, disse a si mesmo. “No mínimo cinco minutos!”
Sentia o coração bater no peito num clamor de dar medo. Por sorte a tarefa
do momento era pura rotina — a retificação de uma extensa lista de
números — e não necessitava de maior atenção de sua parte.
Fosse o que fosse que estava escrito no papel, devia ter algum tipo de
sentido político. Até onde ele podia perceber, havia duas possibilidades. A
primeira e mais provável era que a garota fosse uma agente da Polícia das
Ideias, como ele imaginara desde o início. Winston não sabia por que a
Polícia das Ideias teria interesse em entregar suas mensagens daquela
maneira, mas vai ver tinha suas razões. A coisa escrita no papel podia ser
uma ameaça, uma convocação, uma ordem de suicídio, uma armadilha de


algum tipo. No entanto, outra possibilidade mais dramática assomava a todo
momento em seus pensamentos, embora ele fizesse força para reprimi-la.
Era que não fosse uma mensagem enviada pela Polícia das Ideias, mas por
algum tipo de organização clandestina. Quem sabe a Confraria de fato
existisse? Quem sabe a garota fizesse parte dela? Não havia dúvida de que
era uma ideia absurda, porém ela se instalara em sua cabeça no exato
instante em que sentira aquele pedaço de papel na mão. Só minutos depois a
outra explicação, muito mais provável, lhe ocorrera. E mesmo agora, apesar
de seu intelecto lhe dizer que provavelmente a mensagem significaria sua
morte — mesmo agora, não era nisso que ele acreditava, e a esperança
insensata persistia, e seu coração retumbava, e era com dificuldade que ele
evitava que sua voz tremesse enquanto ele murmurava seus números no
ditógrafo.
Fez um rolo com o maço de trabalho concluído e enfiou-o no tubo
pneumático. Haviam se passado oito minutos. Acomodou os óculos no
nariz, suspirou e puxou para si o maço de trabalho de que se ocuparia em
seguida, com o pedaço de papel em cima. Alisou o papel. Estava escrito,
numa caligrafia graúda e imatura:

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