1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
vem e te corta o pescoço. Era uma espécie de dança. As pessoas se davam
as mãos e ficavam com os braços levantados, formando uma espécie de
túnel, e a gente passava embaixo, e quando cantavam: Ou a cuca vem e te
corta o pescoço os outros abaixavam os braços e pegavam você. Era uma
quadrinha só com nome de igrejas. De todas as igrejas de Londres — quer
dizer, das principais.”
Winston ficou imaginando sem muito empenho a que século pertenceria
a igreja. Era sempre difícil determinar a idade dos edifícios londrinos. Tudo
que fosse grande e portentoso, se tivesse uma aparência razoavelmente
nova, recebia de forma automática o carimbo de obra posterior à
Revolução, ao passo que todas as coisas que evidentemente datavam de
épocas anteriores eram atribuídas a um período indistinto denominado
Idade Média. Os séculos de capitalismo, dizia-se, não haviam produzido
nada de valor. Conhecer a história pela arquitetura era tão inviável quanto
conhecê-la pelos livros. Estátuas, inscrições, lápides comemorativas, nomes


de ruas — tudo o que poderia lançar alguma luz sobre o passado fora
sistematicamente alterado.
“Nunca imaginei que esse edifício tivesse sido uma igreja”, disse.
“Ainda há uma porção delas por aí”, disse o velho, “só que hoje são
usadas com outros fins. Mas, puxa vida, como era mesmo que continuava
essa quadrinha? Ah! Já sei!
Sem casca nem semente, dizem os sinos da São Clemente,
Esses vinténs são pra mim, cantam os sinos da São Martim
Lembrei desse pedaço, mas do resto não me lembro. Um vintém era uma
moedinha de cobre parecida com a de um centavo.”
“Onde era a igreja de São Martim?”, quis saber Winston.
“A de São Martim? Essa ainda existe. Fica na praça Victory, ao lado da
galeria de pintura. Um prédio com uma espécie de pórtico triangular,
colunas na frente e uma escadaria enorme.”
Winston conhecia bem o lugar. Era um museu usado para vários tipos de
exibições propagandísticas: modelos em escala de mísseis e Fortalezas
Flutuantes, figuras de cera representando as atrocidades cometidas pelos
inimigos e coisas assim.
“São Martim dos Campos, era como a chamavam”, acrescentou o velho,
“embora eu não me lembre de campo nenhum por aquelas bandas.”
Winston não comprou a gravura. Seria algo ainda mais impróprio do que
o peso de papel de vidro. E não poderia levá-la para casa — a menos que a
retirasse da moldura. Todavia, deixou-se ficar mais alguns minutos
conversando com o velho, cujo sobrenome, conforme descobriu, não era
Weeks — como se poderia talvez deduzir pelo letreiro na fachada da loja
—, mas Charrington. Aparentemente o sr. Charrington era um viúvo de
sessenta e três anos que morava naquela loja havia trinta anos. Ao longo de
todo aquele tempo tivera a intenção de alterar o nome gravado na vitrine,
porém jamais conseguira levar a cabo sua intenção. Enquanto conversavam,
os versos relembrados da quadrinha teimavam em vir à cabeça de Winston:
Sem casca nem semente, dizem os sinos da São ClementeEsses vinténs são
pra mim, cantam os sinos da São Martim! Curioso, mas quando dizia isso a
si mesma, a pessoa tinha de fato a impressão de ouvir os sinos; os sinos de
uma Londres perdida que ainda existia em algum lugar, disfarçada e


esquecida. Um campanário fantasmagórico após o outro, parecia-lhe ouvi-
los repicar. Contudo, até onde se lembrava, na vida real nunca ouvira as
badaladas de um sino de igreja.
Despediu-se do sr. Charrington e desceu a escada sozinho, pois não
queria que o velho o visse inspecionando detidamente a rua antes de sair. Já
tomara a decisão de que, passado um tempo razoável — um mês, digamos
—, se arriscaria a visitar a loja outra vez. Não haveria de ser mais perigoso
do que escapulir de uma noite no Centro. O verdadeiro ato de loucura fora
voltar ali depois da aquisição do diário e sem saber se podia confiar no
proprietário da loja. Agora, que se dane…!
Sim, pensou novamente, ele voltaria. Compraria outros restos de belas
bugigangas. Compraria a gravura da São Clemente dos Dinamarqueses,
depois a retiraria da moldura e a levaria para casa escondida debaixo da
jaqueta de seu macacão. Arrancaria da memória do sr. Charrington o
restante daquele poema. Até o projeto insano de alugar o cômodo do andar
de cima tornou a relampejar fugazmente em sua cabeça. Por cinco
segundos, talvez, o entusiasmo o deixou desatento, e Winston saiu para a
calçada sem antes dar uma espiada pela janela. Tinha até começado a
cantarolar baixinho, numa melodia improvisada:

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