1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Entendo COMO, mas não entendo POR QUÊ
.
Considerou a hipótese, como tantas vezes antes, de ele próprio ser um
doente mental. Talvez um doente mental fosse simplesmente uma minoria
de um. Houvera um tempo em que se considerava sinal de loucura acreditar
que a Terra girava em torno do Sol. Hoje, o sinal de loucura era acreditar
que o passado era inalterável. Ele podia ser o único a acreditar naquilo e, se
fosse o único, seria um doente mental. Mas a ideia de que talvez fosse um
doente mental não chegava a perturbá-lo muito: o horror estava em também
existir a possibilidade de que estivesse errado.
Apanhou o livro de história para crianças e contemplou o retrato do
Grande Irmão estampado no frontispício. Os olhos hipnóticos fitavam os
dele. Era como se alguma força monumental exercesse pressão sobre


Winston — uma coisa que invadia seu crânio, golpeava seu cérebro,
aterrorizava-o a ponto de fazê-lo abandonar suas crenças, quase
convencendo-o a rechaçar as provas que seus sentidos lhe forneciam. No
fim o Partido haveria de anunciar que dois mais dois são cinco, e você seria
obrigado a acreditar. Era inevitável que mais cedo ou mais tarde o Partido
fizesse tal afirmação: a lógica de sua posição o exigia. Além da validade da
experiência, a própria existência da realidade externa era tacitamente
negada por sua filosofia. A heresia das heresias era o bom senso. E o
aterrorizante não era o fato de poderem matá-lo por pensar de outra
maneira, mas o fato de poderem ter razão. Porque, afinal de contas, como
fazer para saber que dois e dois são quatro? Ou que a força da gravidade
funciona? Ou que o passado é imutável? Se tanto o passado como o mundo
externo existem apenas na mente, e se a própria mente é controlável —
como fazer então?
Mas não! De repente sua coragem pareceu cristalizar-se por decisão
própria. O rosto de O’Brien, que nenhuma associação de ideias parecia
convocar, entrara flutuando em sua mente. Ele concluiu, com mais certeza
de que antes, que O’Brien estava do seu lado. Escrevia aquele diário para
O’Brien — na intenção de O’Brien. Era como uma carta interminável que
ninguém jamais leria, mas que era dirigida a uma pessoa específica e se
nutria desse fato.
O Partido lhe dizia para rejeitar as provas materiais que seus olhos e
ouvidos lhe oferecessem. Essa era sua instrução final, a mais essencial de
todas. O coração de Winston ficou pesado quando lhe veio ao espírito o
imenso poderio reunido contra ele, a facilidade com que qualquer
intelectual do Partido o derrotaria num debate, os argumentos sutis que não
teria capacidade de entender, quanto mais de contestar. E, ainda assim, a
razão estava com ele. Os outros estavam errados e ele certo. O óbvio, o tolo
e o verdadeiro tinham de ser defendidos. Os truísmos são verdadeiros, não
se esqueça disso. O mundo sólido existe, suas leis não mudam. As pedras
são duras, a água é úmida e os objetos, sem base de apoio, caem na direção
do centro da Terra. Com a sensação de estar falando com O’Brien e também
de expor um axioma importante, escreveu:
Liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro.
Se isso for admitido, tudo o mais é decorrência.





8.
Das profundezas de uma viela, um cheiro de café sendo torrado — café de
verdade, não café Victory — se espalhou pela rua. Winston fez uma pausa
involuntária. Viu-se, por dois segundos talvez, de volta ao mundo
semiesquecido da infância. Uma porta bateu, dando a impressão de estancar
o cheiro tão abruptamente quanto se ele fosse um som.
Winston andara vários quilômetros pelas ruas e sua úlcera varicosa
latejava. Era a segunda vez em três semanas que deixava de comparecer aos
encontros noturnos do Centro Comunitário: atitude temerária, pois sabia-se
que o comparecimento de cada um era meticulosamente monitorado. Em
princípio, os membros do Partido não dispunham de tempo livre e só
ficavam sozinhos quando estavam na cama. Supunha-se que quando não
estivessem trabalhando, comendo ou dormindo estariam participando de
algum tipo de recreação comunitária; fazer alguma coisa que sugerisse
gosto pela solidão, mesmo que fosse apenas sair para dar uma volta
sozinho, sempre envolvia algum risco. Havia um termo para isso em
Novafala: vidaprópria, com o sentido de individualismo e excentricidade.
Naquele fim de tarde, porém, ao sair do Ministério, Winston se deixou
tentar pela fragrância que pairava no ar de abril. O azul do céu tinha uma
calidez que ele ainda não sentira naquele ano, e de repente a noite no
Centro, sempre arrastada e barulhenta, com suas brincadeiras
exaustivamente enfadonhas, suas palestras, sua camaradagem forçada,
movida a gim, pareceu-lhe uma ideia intolerável. Winston cedeu ao impulso
e, em vez de seguir para o ponto de ônibus, perdeu-se no labirinto londrino,
caminhando primeiro para o sul, depois para o leste, depois para o norte de
novo, errando por ruas desconhecidas sem se preocupar muito com o
destino de seus passos.


“Se é que há esperança”, escrevera no diário, “a esperança está nos
proletas.” Essas palavras insistiam em voltar-lhe à mente: afirmação de uma
verdade mística e de um absurdo evidente. Ele estava em algum lugar das
favelas indistintas e pardacentas que se estendiam a norte e a leste do que
no passado fora a estação de Saint Pancras. Avançava por uma rua
margeada por duas fileiras de sobradinhos com entradas ruinosas que
davam direto na calçada e que, curiosamente, lembravam um pouco buracos
de ratos. Entre as pedras do calçamento, formavam-se aqui e ali poças de
água suja. Um mar de gente circulava pelas passagens escuras que davam
acesso aos sobradinhos e pelos becos transversais à rua: mocinhas na flor da
idade com os lábios grosseiramente besuntados de batom e rapazes
correndo atrás das mocinhas e mulheres inchadas que andavam gingando e
indicavam o que seria das mocinhas dali a dez anos e velhos recurvados
arrastando os pés virados para fora e crianças descalças e maltrapilhas que
brincavam nas poças d’água e às vezes saíam em disparada, afugentadas
pelos gritos coléricos das mães. Possivelmente um quarto das janelas que
davam para a rua estava quebrado ou tinha sido tampado com tábuas. A
maioria das pessoas não reparava em Winston; algumas o observavam com
uma espécie de curiosidade contida. Duas mulheres monstruosas, de
antebraços cor de tijolo cruzados sobre o avental, conversavam diante de
uma porta. Quando ele se aproximou, fragmentos da conversa chegaram a
seus ouvidos.
“‘É’, eu falei pra ela, ‘você tem toda a razão’, foi o que eu disse. ‘Mas eu
queria ver você no meu lugar, aposto que tinha feito igual. Criticar é fácil’,
eu falei, ‘mas você não tem os problemas que eu tenho.’”
“É verdade”, disse a outra, “é isso mesmo, é isso mesmo.”
As vozes estridentes calaram-se de repente. As mulheres o estudaram
com um silêncio hostil enquanto ele passava. Mas não era bem hostilidade;
só uma espécie de cautela, um retesamento momentâneo, como o
provocado pela passagem de um animal estranho. Numa rua como aquela, o
macacão azul do Partido não tinha como ser uma visão comum. Os policiais
da patrulha provavelmente o parariam se topassem com ele. “Posso ver seus
documentos, camarada? O que está fazendo aqui? A que horas saiu do
trabalho? É esse o caminho que costuma fazer para ir para casa?” — e
assim por diante. Não que houvesse diretrizes proibindo a pessoa de fazer


trajetos inusitados ao voltar para casa; mas era o suficiente para a Polícia
das Ideias ficar alerta, caso fosse informada.
De repente a rua inteira entrou em ebulição. Gritos de alerta soavam por
toda parte. As pessoas entravam nas casas correndo feito coelhos. Alguns
metros à frente de Winston, uma moça saiu correndo por uma porta com a
velocidade de um raio, agarrou um menininho que brincava numa poça
d’água, envolveu-o no avental e voltou correndo para dentro, tudo num
movimento só. No mesmo instante, um homem com um terno que lembrava
uma sanfona surgiu de uma ruazinha transversal e precipitou-se na direção
de Winston, apontando freneticamente para o céu.
“Cuidado! A maria-fumaça!”, gritou. “Cuidado, patrão! Lá vem ela!
Depressa, se jogue no chão!”
“Maria-fumaça” era o apelido que por alguma razão os proletas davam
aos mísseis. Winston se atirou de bruços no chão. Os proletas quase sempre
acertavam quando davam esse tipo de alarme. Pareciam possuir uma
espécie de instinto que os prevenia com vários segundos de antecedência da
aproximação de um míssil, muito embora os mísseis voassem em
velocidade superior à do som. Winston cobriu a cabeça com os braços.
Sobreveio um rugido que pareceu fazer o calçamento tremer; uma chuva de
pequenos objetos caiu sobre suas costas. Ao levantar-se, percebeu que
estava coberto por uma camada de caquinhos de vidro provenientes da
janela mais próxima.
Retomou a caminhada. O míssil destruíra um conjunto de casas da rua,
duzentos metros adiante. Uma coluna de fumaça preta pairava no céu, e
mais abaixo via-se uma nuvem de poeira em meio à qual uma multidão já
se formava em torno dos escombros. Um pouco adiante dele, na rua, havia
um monte de entulho e entre os pedaços de reboco viu uma raia vermelho-
viva. Quando se aproximou, viu que era uma mão decepada. Afora o coto
ensanguentado, estava tão branca que parecia um molde de gesso.
Chutou aquele troço para a sarjeta e depois, querendo evitar a multidão,
entrou por uma ruazinha à direita. Em três ou quatro minutos estava fora da
área atingida pelo míssil e a vida sórdida e tumultuosa das ruas seguia seu
curso como se nada tivesse acontecido. Eram quase oito da noite e os
estabelecimentos que vendiam bebidas alcoólicas aos proletas (“pubs”, era
como os chamavam) estavam lotados de fregueses. De suas portas de
vaivém encardidas, que se abriam e fechavam sem parar, vinha um cheiro


de urina, serragem e cerveja rançosa. Num canto formado pela fachada
saliente de uma casa viam-se três homens bem próximos uns dos outros, o
do meio segurando um jornal dobrado que os outros dois examinavam por
cima dos ombros dele. Ainda antes de chegar suficientemente perto para
distinguir a expressão que tinham no rosto, Winston notou, através de cada
detalhe de seus corpos, como estavam absorvidos. Percebia-se que a notícia
que liam era coisa séria. Estava a alguns passos de distância quando de
repente o grupo se desfez e teve início uma altercação violenta entre dois
dos homens. Por alguns instantes, pareceram prestes a chegar às vias de
fato.
“Você tá surdo ou o quê? Tô falando que faz mais de um ano que não dá
nada com sete no final!”
“Deu o sete, sim, eu sei que deu!”
“Não deu não! Lá em casa eu tenho tudo anotado. Faz mais de dois anos
que anoto esses números num pedaço de papel. Anoto tudo, não fica nada
de fora. E tô falando que faz um tempão que não dá nada com sete no
final…”
“Mas eu garanto que deu o sete! Se você quiser, te falo até a droga do
número. O final eu sei que era quatro zero sete. Isso em fevereiro — na
segunda semana de fevereiro.”
“Fevereiro uma ova! Tenho esses números lá em casa, direitinho. E tô
falando que…”
“Ah, parem de encher o saco!”, disse o terceiro sujeito.
Falavam da Loteria. Trinta metros adiante, Winston olhou para trás.
Continuavam discutindo, semblantes febris, fanatizados. A Loteria, com
seus prêmios semanais milionários, era o único acontecimento público que
efetivamente despertava o interesse dos proletas. Era muito provável que
para milhões deles a Loteria fosse o principal, se não o único, motivo para
continuar vivos. Era seu deleite, sua loucura, seu analgésico, seu
estimulante intelectual. Quando o assunto era Loteria, até gente que mal
sabia ler e escrever parecia capaz de cálculos complexos e de
impressionantes façanhas mnemônicas. Um verdadeiro exército de
indivíduos ganhava a vida vendendo sistemas, prognósticos e amuletos da
sorte. O trabalho de Winston nada tinha a ver com a Loteria, cuja
administração estava sob a responsabilidade do Ministério da Pujança,
porém ele sabia (aliás, todos no Partido sabiam) que os prêmios eram em


boa parte imaginários. Só as quantias pequenas eram realmente pagas, pois
os vencedores dos maiores prêmios eram pessoas inexistentes. Na ausência
de intercomunicação efetiva entre as diversas regiões da Oceânia, não era
difícil operar o esquema.
Contudo, se é que havia esperança, a esperança estava nos proletas. Era
preciso agarrar-se a isso. Dito assim, parecia até razoável; o que
transformava a afirmação em ato de fé era olhar para os seres humanos que
circulavam pelas vias públicas. A rua em que Winston estava era em
declive. Ele tinha a sensação de já ter passado por ali antes e achava que
não longe dali havia uma avenida mais movimentada. De algum lugar mais
à frente vinha uma algazarra de vozes alteradas. A rua fazia uma curva
acentuada e terminava numa escadaria que dava acesso a uma viela mais
abaixo, onde alguns feirantes tinham suas bancas com verduras murchas.
Nesse instante, voltou à lembrança de Winston que lugar era aquele. A viela
ia dar na principal avenida dos arredores e na travessa seguinte, a menos de
cinco minutos de caminhada, ficava a lojinha em que ele comprara o
caderno que agora lhe servia de diário. E fora numa pequena papelaria
próxima dali que comprara a caneta e o vidro de tinta.
Ficou um momento parado no alto da escadaria. Do outro lado da viela
via-se um barzinho imundo, cujas janelas pareciam embaçadas, mas que na
realidade estavam apenas cobertas de poeira. Um homem muito velho,
recurvado porém ágil, com bigodes grisalhos que se eriçavam para a frente
como os de um camarão, empurrou a porta de vaivém e entrou. Enquanto
Winston observava, ocorreu-lhe que o velho, que devia ter no mínimo
oitenta anos, já era um homem de meia-idade na época da Revolução. Ele e
uns poucos outros como ele eram os últimos elos existentes com o extinto
mundo do capitalismo. A geração mais velha fora quase totalmente
eliminada pelos grandes expurgos dos anos 1950 e 60, e o terror imposto
aos que continuaram vivos os reduzira havia muito a um estado de completa
rendição intelectual. Se havia alguém vivo capaz de oferecer um relato
verídico de como era a situação nas primeiras décadas do século, esse
alguém só podia ser um proleta. De repente voltou-lhe à cabeça a passagem
do livro de história que copiara no diário; Winston foi dominado por uma
ideia maluca. Iria até o pub, faria amizade com o velho e o interrogaria.
Pretendia dizer-lhe: “Fale-me sobre a sua vida quando o senhor era garoto.
Como eram as coisas naquele tempo? Melhores ou piores do que agora?”.


Com passos apressados para não ter tempo de ficar com medo, Winston
desceu a escadaria e atravessou a ruazinha estreita. Aquilo era loucura,
claro. Como de hábito, não havia nenhuma norma expressa que proibisse a
pessoa de conversar com os proletas e frequentar seus pubs, mas aquela era
uma atitude inusitada demais para passar despercebida. Se a patrulha
aparecesse, Winston podia alegar um mal-estar súbito, porém era
improvável que acreditassem nele. Empurrou a porta e foi afrontado por um
cheiro péssimo de cerveja rançosa, um cheiro de queijo velho. Assim que
entrou, o volume do vozerio reduziu-se à metade. Sentia atrás das costas
todos os olhares cravados em seu macacão azul. Um jogo de dardos em
andamento do outro lado do salão chegou a ser interrompido por uns trinta
segundos. O velho que Winston seguira estava junto ao balcão discutindo
com o barman, um rapaz grande, forte, dono de um nariz adunco e
antebraços colossais. Formando um semicírculo ao redor, alguns outros
fregueses assistiam à cena de copo na mão.
“Falei com educação, não falei?”, dizia o velho, empertigando os
ombros, belicoso. “Está me dizendo que não tem uma caneca de um
quartilho nesta porcaria de boteco?”
“E que droga de quartilho é essa?”, retrucou o barman, inclinando-se para
a frente, as pontas dos dedos apoiadas no balcão.
“Ó o sujeito! Diz que é dono de botequim e não sabe o que é quartilho!
Ora, um quartilho é um quarto de galão. Daqui a pouco vou ter que te
ensinar o abecê.”
“Nunca ouvi falar”, disse laconicamente o barman. “Nós, aqui, só temos
copos de um litro e copos de meio litro. Estão nessa prateleira bem na sua
frente.”
“Eu quero um quartilho”, insistiu o velho. “É a coisa mais fácil do mundo
tirar um quartilho. No meu tempo não tinha esse negócio de litro.”
“No seu tempo as pessoas viviam em cima das árvores”, disse o barman,
olhando de relance para os outros fregueses.
Estouraram risadas, e o mal-estar causado pela chegada de Winston
aparentemente se dissipou. O rosto do velho, com a barba grisalha por fazer,
assumira um tom róseo muito vivo. Ele se virou, resmungando sozinho, e
deu de cara com Winston. Winston agarrou-o gentilmente pelo braço.
“Posso lhe oferecer um drinque?”


“Ora, muito obrigado”, disse o outro, empertigando novamente os
ombros. Parecia não ter reparado no macacão azul de Winston. “Um
quartilho!”, acrescentou para o barman com agressividade. “Um quartilho
da loura.”
O barman serviu duas doses de meio litro de uma cerveja marrom-escura
em copos grossos que ele lavara num balde debaixo do balcão. Nos bares
dos proletas só se bebia cerveja, pois os comerciantes não estavam
autorizados a servir gim; se bem que, na prática, quem quisesse tomar gim
poderia obter a bebida sem dificuldade. O arremesso de dardos estava
novamente a mil e no grupo de homens junto ao balcão o assunto agora
eram os bilhetes da Loteria. A presença de Winston foi esquecida por algum
tempo. Sob a janela via-se uma mesa de pinho onde ele e o velho podiam
conversar sem receio de ser ouvidos. Era tremendamente perigoso, mas
pelo menos não havia teletela no lugar, coisa de que Winston se certificara
tão logo pusera os pés ali dentro.
“O desgraçado podia ter me tirado um quartilho”, rosnou o velho ao
sentar-se atrás de seu copo. “Meio litro pra mim é pouco. Fico querendo
mais. E um litro é muito. Me faz mijar que só vendo. Pra não falar no
preço.”
“As coisas devem ter mudado muito desde seus tempos de jovem”, disse
Winston, sondando o terreno.
Os olhos azul-claros do velho deslocaram-se do tabuleiro de dardos para
o balcão e do balcão para a porta do banheiro dos homens como se
imaginasse que fora no interior daquele bar que as mudanças tinham
acontecido.
“A cerveja era melhor”, disse por fim. “E mais barata! Quando eu era
rapaz, a cerveja cristal — loura, era como a chamávamos — custava quatro
pence o quartilho. Isso antes da guerra, claro.”
“Que guerra foi essa?”, indagou Winston.
“Todas elas”, disse o velho, impreciso. Pegou o copo e tornou a
empertigar os ombros. “E agora um brinde à sua saúde!”
O pomo de adão pontudo de sua garganta descarnada fez um movimento
surpreendentemente rápido para cima e para baixo, e a cerveja desapareceu
do copo. Winston foi até o balcão e voltou com mais dois copos de meio
litro. O velho parecia ter se esquecido do seu preconceito contra beber um
litro de cerveja.


“O senhor é bem mais velho que eu”, disse Winston. “Provavelmente
quando eu nasci já era um homem-feito. Deve se lembrar de como eram as
coisas nos velhos tempos, antes da Revolução. A bem da verdade, as
pessoas da minha idade não sabem nada sobre essa época. Só temos os
livros para nos contar, e os livros talvez não digam a verdade. Gostaria de
saber o que o senhor pensa a respeito. Os livros de história dizem que a vida
antes da Revolução era completamente diferente de como é hoje. Imperava
a mais terrível opressão, injustiça, miséria — uma coisa inimaginável de tão
ruim. Aqui em Londres, parece que a maioria das pessoas nascia e morria
sem ter como se alimentar direito. Metade não tinha nem botinas para
calçar. Trabalhavam doze horas por dia, paravam de estudar aos nove anos e
dormiam dez em um quarto. Também dizem que havia um número
extremamente pequeno de indivíduos, um número que não ultrapassava a
casa dos milhares — chamavam-se capitalistas —, que eram ricos e
poderosos. Possuíam tudo o que podia ser possuído. Moravam em casarões
suntuosos, tinham trinta empregados, circulavam pelas ruas em automóveis
e carruagens puxadas por duas parelhas de cavalos, bebiam champanhe,
usavam cartola…”
O semblante do velho se iluminou de repente.
“Cartolas!”, disse. “Que coisa engraçada o senhor falar nisso. Ontem
mesmo eu estava pensando nelas. Sei lá por que cargas-d’água fui lembrar.
Tava só pensando. Faz uma porção de tempo que não vejo uma cartola. Os
caras deram fim nelas. A última vez que pus uma na cabeça foi no enterro
da minha cunhada. E isso foi em… Bom, não vou lembrar a data, mas deve
de ter sido uns cinquenta anos atrás. Era alugada, claro.”
“As cartolas não têm tanta importância”, disse Winston com paciência.
“A questão é que esses capitalistas — eles e um punhado de advogados e
gente da Igreja, e assim por diante, um pessoal que vivia às custas deles —
eram os donos do mundo. Tudo o que existia era em proveito deles. Vocês
— as pessoas comuns, os trabalhadores — eram escravos deles. Eles
podiam fazer o que quisessem com vocês. Podiam mandar vocês para o
Canadá feito gado. Podiam dormir com as filhas de vocês, se quisessem.
Podiam mandar açoitar vocês. Vocês tinham de tirar o boné quando
passavam por eles. Todo capitalista era acompanhado por um bando de
lacaios que…”
O semblante do velho tornou a se iluminar.


“Os lacaios!”, disse. “Taí uma palavra que eu não escutava desde o tempo
do onça. Os lacaios! Isso, sim, me leva de volta ao passado. Lembro que eu
costumava — ah, faz tempo pra burro — eu costumava ir ao Hyde Park no
domingo à tarde pra escutar os discursos daqueles caras. Os do Exército da
Salvação, os católicos, os judeus, os indianos — tinha de tudo. E tinha um
sujeito… Ah, não vou saber o nome dele agora, mas estou pra ver um
homem pra falar bem que nem aquele. Falava as coisas na lata! ‘São um
bando de lacaios!’, ele dizia. ‘Os lacaios da burguesia! Os sabujos da classe
dominante!’ Os parasitas — essa era outra. E hienas também — me lembro
bem que ele chamava os sujeitos de hienas. Tava falando do Partido
Trabalhista, clarovocê.”
Winston ficou com a impressão de que estavam tendo uma conversa de
surdos.
“O que eu queria saber de verdade é o seguinte”, disse. “O senhor tem a
impressão de ser mais livre agora do que naquela época? Sente-se mais bem
tratado como ser humano? Antigamente os ricos, as pessoas que estavam
por cima…”
“A Câmara dos Lordes”, interveio o velho, nostálgico.
“Tudo bem, a Câmara dos Lordes. O que eu estou perguntando é se essas
pessoas tratavam o senhor como inferior só porque eram ricas e o senhor
pobre. É verdade, por exemplo, que tinha de chamá-los de ‘sir’ e tirar o
boné quando passava por eles?”
O velho parecia mergulhado em reflexões. Bebeu aproximadamente um
quarto de sua cerveja antes de responder.
“É”, disse. “Queriam que a gente pusesse a mão no boné pra eles.
Demonstração de respeito, né? Eu não gostava, mas volta e meia fazia. Era,
vamos dizer, obrigado a fazer.”
“E costumava acontecer — só estou falando o que li nos livros de história
—, era comum que essas pessoas e seus empregados abrissem caminho na
calçada empurrando vocês para a sarjeta?”
“Teve uma vez que me empurraram”, disse o velho. “Lembro como se
fosse ontem. Foi na noite da Boat Race
1
— trombei com um rapaz na
avenida Shaftesbury. Eu estava na maior estica: camisa social, cartola,
sobretudo preto. Vinha meio que ziguezagueando pela calçada e sem querer
trombei com ele. Aí ele disse: ‘Por que não olha por onde anda?’. E eu: ‘Tá
achando que é o dono da rua?’. E ele: ‘Olha que eu torço esse seu pescoço,


se der uma de atrevido comigo’. E eu: ‘Você tá mamado. Não torra, senão
eu chamo a polícia’, eu disse. E o senhor não vai acreditar, o sujeitinho pôs
as mãos no meu peito e me deu um empurrão tão forte que por pouco não
vou parar debaixo de um ônibus que ia passando. Ah, mas naquela época eu
era jovem e ia dar um murro bem dado na cara dele, se…”
Uma sensação de impotência se apossou de Winston. A memória do
velho não passava de um amontoado de pormenores insignificantes. Podia
passar o dia inteiro interrogando-o e nenhuma informação relevante viria à
tona. Os relatos históricos do Partido podiam até certo ponto ser verdade;
podiam ser até completamente verdade. Fez uma última tentativa.
“Talvez eu não tenha sido claro”, disse. “O que estou tentando dizer é o
seguinte. O senhor já viveu muitos anos; metade da sua vida se passou antes
da Revolução. Em 1925, por exemplo, o senhor já era adulto. Pelo que
consegue se lembrar, diria que em 1925 a vida era melhor do que agora ou
pior? Se pudesse escolher, preferiria viver naquela época ou na de agora?”
O velho olhou pensativo para o tabuleiro dos dardos. Terminou de beber
a cerveja com goles mais vagarosos do que antes. Quando abriu a boca para
falar, tinha um ar tolerante, filosófico, como se a cerveja tivesse abrandado
sua rudeza.
“Eu sei o que o senhor quer que eu fale”, disse. “Quer que eu fale que
preferia ser jovem de novo. Se perguntar pra todo mundo, a maioria vai
dizer que preferia ser jovem de novo. Os jovens são fortes, têm saúde pra
dar e vender. Quando chega na minha idade, a pessoa tá sempre com algum
problema. Os meus pés me matam e a minha bexiga está que é uma
desgraça. Tenho de levantar seis, sete vezes à noite. Por outro lado, ficar
velho tem muita vantagem. A gente não se preocupa tanto. Não quer mais
saber de mulher, e isso é um troço fantástico. Acredite se quiser, mas faz
quase trinta anos que não tenho mulher. E nem queria ter, sabia? A verdade
é essa.”
Winston encostou as costas no parapeito da janela. Não adiantava insistir.
Estava prestes a pedir mais dois copos de cerveja quando o velho de repente
se levantou e precipitou-se com seus passos arrastados na direção do
mictório fedorento que ficava a um lado do salão. O meio litro adicional já
estava fazendo efeito. Por um ou dois minutos, Winston ficou olhando para
o seu copo vazio e mal se deu conta quando seus pés o levaram de volta
para a rua. Dali a no máximo vinte anos, refletiu, aquela questão tão enorme


e tão simples, “Antes da Revolução a vida era melhor do que agora?”,
deixaria de uma vez por todas de ser respondível. Mas no fundo a pergunta
já era irrespondível, visto que os poucos e esparsos sobreviventes do mundo
antigo que ainda era possível encontrar mostravam-se incapazes de
comparar uma era com a outra. Recordavam milhões de coisas fúteis, a
briga com um colega de trabalho, as horas passadas em busca de uma
bomba de bicicleta extraviada, a expressão do rosto de uma irmã falecida
muitos anos antes, os redemoinhos de poeira que o vento levantou certa
manhã setenta anos antes; porém todos os fatos relevantes permaneciam
fora do alcance de sua visão. Eram como a formiga, que consegue ver
pequenos objetos, mas não enxerga os grandes. E quando a memória
falhava e os registros escritos eram falsificados — quando isso acontecia, as
alegações do Partido, ou seja, de que era responsável pela melhoria das
condições da existência humana, tinham de ser aceitas, pois não havia e
nunca mais haveria parâmetros com os quais confrontar essa afirmação.
Nesse instante o fio de seu raciocínio interrompeu-se abruptamente.
Winston estacou e olhou para cima. Estava numa rua estreita com umas
poucas lojinhas escuras espalhadas entre prédios residenciais. Suspensas
acima de sua cabeça viam-se três bolas de metal desbotado que davam a
impressão de um dia terem sido douradas. Teve a sensação de que conhecia
aquele lugar. Mas claro! Estava na frente da lojinha onde comprara o diário.
Sentiu uma pontada de medo. Comprar o caderno já fora um ato
suficientemente impulsivo, e Winston prometera a si mesmo nunca mais
chegar perto daquele lugar. E no entanto, no mesmo instante em que
resolvia deixar seu pensamento à solta, seus pés, por iniciativa própria,
levavam-no de volta àquele lugar. Era justamente na esperança de se
proteger de impulsos suicidas daquele tipo que ele resolvera escrever o
diário. Ao mesmo tempo, percebeu que embora fossem cerca de nove da
noite o estabelecimento continuava aberto. Com a sensação de que daria
menos na vista se estivesse lá dentro do que parado na calçada, entrou na
lojinha. Se perguntassem, poderia responder muito plausivelmente que
estava procurando lâminas de barbear.
O dono do lugar acabara de acender o lampião a óleo que estava
pendurado no teto e que soltava um cheiro sujo porém amistoso. Era um
homem de uns sessenta anos, de compleição frágil e recurvada, nariz
comprido e benevolente e olhos benignos distorcidos pelas lentes grossas


dos óculos. O cabelo estava quase branco, porém as sobrancelhas eram
bastas e continuavam pretas. Seus óculos, seus movimentos delicados e
irrequietos e o fato de usar um velho paletó de veludo preto conferiam-lhe
certa aparência de intelectualidade, como se tivesse sido uma espécie de
literato ou, quem sabe, músico. Tinha uma voz suave, como que
amortecida, e sua fala era menos degradada que a da maioria dos proletas.
“Reconheci o senhor na calçada”, foi logo dizendo o sujeito. “Foi o
senhor que comprou aquele álbum de recordações para moças. Papel
excelente aquele, não é? Chamavam-no de vergê creme. Não fazem papel
assim há uns… Ah, já lá se vão uns cinquenta anos, sem exagero.”
Perscrutava Winston por cima dos óculos. “Posso ajudá-lo em alguma
coisa? Ou só quer dar uma olhada?”
“Eu ia passando”, disse Winston, sem maiores detalhes. “E resolvi entrar.
Não estou procurando nada em especial.”
“Está muito bem”, disse o outro, “pois não creio mesmo que pudesse
atendê-lo em muita coisa.” Desculpou-se com um gesto da mão de palma
delicada. “O senhor vê como é; a loja está vazia. Cá entre nós, o comércio
de antiguidades está por um fio. Acabou a procura, e o estoque também
chegou ao fim. Móveis, louças, copos — aos poucos foi tudo se quebrando.
E obviamente a maioria das coisas de metal já foi fundida. Faz anos que não
vejo um castiçal de latão.”
O interior acanhado da loja estava desconfortavelmente atulhado, porém
não havia quase nada ali de algum valor. O espaço de circulação era exíguo,
pois ao longo de todas as paredes se apoiava uma quantidade infinita de
molduras empoeiradas. Na janela viam-se bandejas de porcas e parafusos,
formões estragados, canivetes com lâminas quebradas, relógios foscos, que
nem sequer davam a impressão de estar em condições de voltar a marcar as
horas, e uma miscelânea de outras quinquilharias. Somente sobre uma
mesinha no canto amontoava-se um conjunto de bugigangas — caixinhas
de rapé laqueadas, broches de ágata e coisas assim — que parecia talvez
conter algo de interessante. Ao se aproximarem da mesa, os olhos de
Winston foram atraídos por uma coisa arredondada e lisa que brilhava
suavemente à luz do lampião. Segurou-a nas mãos.
Era um pedaço de vidro pesado, curvo de um lado e chato do outro,
quase na forma de um hemisfério. Em seu interior, ampliado pela superfície


curva, via-se um objeto esquisito, cor-de-rosa e espiralado que lembrava
uma rosa ou uma anêmona-do-mar.
“O que é isso?”, indagou Winston, fascinado.
“É um coral”, disse o velho. “Devem ter tirado do oceano Índico.
Costumavam incrustar essas coisas em vidro. Isso aí tem no mínimo uns
cem anos. Pelo aspecto, deve ter até mais.”
“É bonito”, disse Winston.
“É bonito”, disse o outro apreciativamente. “Mas hoje em dia
pouquíssima gente diria isso.” Tossiu. “Agora, se por acaso o senhor estiver
pensando em comprá-lo, são quatro dólares. Lembro de um tempo em que
um objeto como esse chegaria a oito libras, e oito libras valiam… Bom, não
sei fazer a conta, só sei que era um dinheirão. Mas alguém lá liga para
antiguidades autênticas hoje em dia, mesmo as poucas que sobraram?”
Winston pagou depressa os quatro dólares e enfiou o objeto cobiçado no
bolso. Fora seduzido não tanto por sua beleza, mas principalmente pela
impressão de que aquilo pertencia a uma era muito diferente da atual. O
vidro delicado, com bolinhas que lembravam gotas de chuva, não se
assemelhava a nenhum tipo de vidro que conhecesse. A coisa era
duplamente atrativa por conta de sua aparente inutilidade, embora Winston
intuísse que sua finalidade original fosse servir como peso de papéis.
Pesava bastante no bolso, mas por sorte não formava uma protuberância
que chamasse muito a atenção. Era um objeto esquisito e até mesmo
comprometedor para estar entre os pertences de um membro do Partido.
Uma vaga atmosfera de suspeição pairava sobre tudo que fosse antigo e, no
limite, belo. O velho ficara perceptivelmente mais animado depois de
receber os quatro dólares. Winston se deu conta de que ele teria se
contentado com três ou mesmo com dois dólares.
“Lá em cima tem outra salinha em que talvez o senhor queira dar uma
espiada”, disse. “Não tem muita coisa lá. Só uma peça ou outra. Mas, se
formos subir, vamos precisar de luz.”
Acendeu outro lampião e, com as costas inclinadas, conduziu Winston
por uma escada íngreme e gasta e por um corredor minúsculo até chegar a
um aposento que não dava para a rua, e sim para um pátio com piso de
seixos arredondados e uma floresta de coifas de chaminé. Winston percebeu
que os móveis continuavam dispostos como se o cômodo fosse habitado no
dia a dia. Havia um tapete comprido no chão, um ou dois quadros nas


paredes e uma poltrona funda e amassada ao lado da lareira. Um relógio de
vidro antiquado, com mostrador de doze horas, tiquetaqueava sobre a borda
da lareira. Debaixo da janela, e ocupando quase um quarto do aposento, via-
se uma cama enorme, ainda dotada de colchão.
“Moramos neste quarto até minha mulher morrer”, disse o velho, como
quem se desculpa. “Estou vendendo a mobília aos poucos. Veja essa cama
de mogno: tirando os percevejos, é uma cama belíssima. Mas receio que o
senhor a considere um pouco grandalhona demais.”
O sujeito segurava o lampião bem alto, a fim de iluminar o aposento
inteiro, e àquela luz débil e cálida o lugar parecia curiosamente
aconchegante. Como um raio, passou pela cabeça de Winston a ideia de que
talvez fosse fácil alugar aquele quarto por alguns dólares por semana — se
ousasse assumir o risco. Era uma maluquice, um despropósito, uma ideia a
ser descartada tão logo concebida; porém o quarto despertara nele uma
espécie de nostalgia, uma espécie de lembrança ancestral. Winston tinha a
impressão de saber exatamente como seria a sensação de estar sentado num
lugar como aquele, numa poltrona ao lado da lareira, com os pés apoiados
no guarda-fogo e uma chaleira sobre a chapa lateral, completamente
sozinho, totalmente seguro, a salvo de toda vigilância, fora do alcance de
vozes molestadoras, sem ouvir som algum além do assobio da chaleira e do
tique-taque cordial do relógio.
“Não tem teletela!”, murmurou Winston, sem conseguir reprimir o
comentário.
“Ah”, disse o velho, “eu nunca tive essas coisas. É muito caro. E, de certa
forma, nunca senti falta. Veja só que bela mesinha de abas dobráveis ali no
canto. Mas o senhor teria que trocar as dobradiças se pretendesse usar as
abas.”
No outro canto, havia uma pequena estante de livros, e Winston já
começara a gravitar em sua direção. A busca e a destruição de livros nos
bairros proletas tinham sido tão diligentes e exaustivas quanto em todos os
outros lugares. Era extremamente improvável a existência de um único livro
publicado antes de 1960 em todo o território da Oceânia. O velho, ainda
segurando o lampião, estava parado diante de um quadro emoldurado em
pau-rosa pregado na parede do outro lado da lareira, do lado oposto ao da
cama.


“Agora, se tiver algum interesse em gravuras antigas…”, principiou
delicadamente.
Winston se aproximou para examinar o quadro. Era uma gravura em aço
de um edifício oval com janelas retangulares e uma pequena torre na
fachada. Havia um guarda-corpo em volta do prédio e, nos fundos, algo que
lembrava uma estátua. Winston contemplou a imagem por alguns instantes.
Parecia-lhe vagamente familiar, porém não se lembrava da estátua.
“A moldura foi fixada à parede”, disse o velho, “mas acho que eu
conseguiria desaparafusá-la para o senhor.”
“Conheço esse prédio”, disse por fim Winston. “Hoje está em ruínas.
Fica no meio da rua, bem na frente do Palácio da Justiça.”
“Isso mesmo. Bem em frente ao Fórum. Foi bombardeado em… Ah, já
faz tantos anos. Antigamente era uma igreja. São Clemente dos
Dinamarqueses, era como a chamavam.” Forjou um sorriso de desculpas,
como se tivesse consciência de estar dizendo uma coisa um pouco ridícula,
e acrescentou: “Sem casca nem semente, dizem os sinos da São Clemente!”.
“Como assim?”, disse Winston.
“Ah, Sem casca nem semente, dizem os sinos da São Clemente. Uma
quadrinha da minha infância. Não me lembro mais como continuava, mas
sei que terminava assim: Vá para a cama e seja um bom moço, ou a cuca

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