1984 Edição especial


Partido. O glamour da luta clandestina e da guerra civil ainda envolvia



Baixar 3.88 Mb.
Pdf preview
Página22/119
Encontro04.08.2022
Tamanho3.88 Mb.
#24481
1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   ...   119
1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

Partido. O glamour da luta clandestina e da guerra civil ainda envolvia
suavemente suas figuras. Tinha a sensação — embora àquela altura fatos e
datas já tivessem começado a perder a nitidez em sua mente — de que
soubera seus nomes muitos anos antes de ter tomado conhecimento da
existência do Grande Irmão. Ao mesmo tempo, sabia que eram fora da lei,
inimigos, intocáveis, condenados, com absoluta certeza, à extinção em um
ano ou dois. Ninguém que algum dia tivesse caído nas mãos da Polícia das
Ideias se dava bem no final. Eles eram cadáveres à espera de ser mandados
de volta para o túmulo.
Não havia ninguém nas mesas próximas à deles. Não era prudente ser
visto na vizinhança de gente daquela espécie. Estavam sentados em silêncio
diante de copos de gim perfumado com cravo, especialidade do café. Dos
três, o que mais impressionou Winston devido a sua aparência foi
Rutherford. Outrora caricaturista famoso, Rutherford desenhava cenas
brutais, que haviam contribuído para inflamar a opinião pública antes e
durante a Revolução. Mesmo agora, a longos intervalos, seus cartuns saíam
no Times, só que já não passavam de uma imitação banal de seu estilo
anterior, eram pouco convincentes, desprovidos de vigor. Continuavam
abordando os mesmos temas, só que requentados: favelas, crianças
famintas, arruaças, capitalistas de cartola — mesmo no interior das
barricadas, os capitalistas, aparentemente, não abriam mão de suas cartolas
—, um esforço infinito, desesperado, no sentido de reinstalar-se no passado.
Era um homem monstruoso, com uma juba de cabelo ensebado e grisalho,
rosto balofo, marcado, grossos lábios negroides. Um dia devia ter sido
imensamente forte; agora seu grande corpo estava adernado, vergado,


arqueado, despencando em todas as direções. Rutherford parecia estar
ruindo à vista de todos, como uma montanha desmoronando.
Eram três da tarde, hora solitária. Winston já não se lembrava de como
era possível que estivesse no café a uma hora daquelas. O lugar estava
quase deserto. Uma música metálica escorria das teletelas. Os três homens
estavam sentados quase imóveis no canto deles, sem abrir a boca. Sem que
ninguém pedisse, o garçom serviu uma nova rodada de gim. Havia um
tabuleiro de xadrez na mesa ao lado da deles, com as peças posicionadas,
mas sem nenhuma partida iniciada. Nesse momento, durante cerca de meio
minuto ao todo, aconteceu uma coisa estranha com as teletelas. A melodia
que estava sendo tocada mudou, e a tonalidade da música também mudou.
Como se a música tivesse sido invadida… Algo difícil, porém, de
descrever. Era uma nota estranha, fragmentada, um clangor: Winston
inventou um nome para aquele som: nota amarela. Depois uma voz
começou a cantarolar na teletela:
Sob a ramada da castanheira
Vendi você, você a mim, após:
Ali estão eles, cá estamos nós
Sob a ramada da castanheira.
Os três homens não se moveram, mas quando Winston voltou a fitar o
rosto arrasado de Rutherford, viu que os olhos dele estavam rasos de
lágrimas. E pela primeira vez observou, com uma espécie de arrepio
interno, e ao mesmo tempo sem saber o porquê daquele arrepio, que tanto
Aaronson como Rutherford tinham o nariz quebrado.
Dias depois, os três voltaram a ser presos. Ao que parece, haviam tornado
a envolver-se em novas conspirações desde o instante em que foram postos
em liberdade. No segundo julgamento, voltaram a confessar todos os
antigos crimes, mais uma sucessão de novos. Foram executados, e o destino
deles ficou registrado nos anais do Partido como advertência para a
posteridade. Cerca de cinco anos depois que esses fatos se passaram, em
1973, Winston estava desenrolando uma pilha de documentos que
acabavam de ser ejetados do tubo pneumático sobre o tampo de sua mesa,
quando encontrou um fragmento de papel que evidentemente fora enfiado
entre os outros e depois esquecido. No instante em que desamassou o


papelzinho, entendeu sua importância. Era a metade de uma página
arrancada de um número do Times de cerca de dez anos antes — a metade
superior da página, de modo que a data aparecia ali — e continha uma
fotografia dos delegados presentes a determinada efeméride do Partido
realizada em Nova York. Destacavam-se, no centro do grupo, Jones,
Aaronson e Rutherford. Não havia confusão possível; de todo modo o nome
de cada um constava na legenda, embaixo.
A questão era que nos dois julgamentos eles haviam confessado que
naquela data se encontravam em solo eurasiano. Teriam partido de um
campo de pouso secreto em território canadense e voado até algum ponto da
Sibéria, onde haviam se reunido com membros do Estado-Maior Eurasiano,
a quem haviam revelado importantes segredos militares. A data se fixara na
memória de Winston porque casualmente coincidia com o solstício de
verão; mas a história toda também devia estar registrada em outros
incontáveis lugares. Só havia uma conclusão possível: as confissões eram
mentirosas.
Claro, isso em si não era nenhuma grande revelação. Mesmo naquela
época, Winston não imaginava que as pessoas varridas da face da Terra nos
expurgos haviam efetivamente cometido os crimes de que eram acusadas.
Mas era uma prova concreta; um fragmento do passado abolido, como um
osso fóssil que aparece no estrato errado e destrói uma teoria geológica.
Bastava para pulverizar o Partido inteiro, se de uma ou outra maneira
pudesse ter sido publicado para que o mundo visse e tomasse conhecimento
de seu significado.
Winston não interrompera seu trabalho. Assim que percebeu que
fotografia era aquela e o que ela revelava, cobriu-a com outra folha de
papel. Por sorte, no momento em que a desenrolara ela estava de cabeça
para baixo do ponto de vista da teletela.
Pôs a prancheta sobre o joelho e empurrou a cadeira para trás, de modo a
ficar tão longe quanto possível da teletela. Não era difícil manter um rosto
inexpressivo; até mesmo a respiração podia ser controlada, com algum
esforço. Uma coisa, porém, você não conseguia controlar: o batimento do
coração, e a teletela era suficientemente sensível para captá-lo. Deixou
passar o que imaginou fossem dez minutos, atormentado o tempo todo pelo
temor de que algum acidente — uma súbita corrente de ar que soprasse por
cima da escrivaninha, por exemplo — o traísse. Depois, sem tornar a expô-


la, introduziu a fotografia no buraco da memória, junto com outros papéis
inúteis. Mais um minuto, provavelmente, e a foto teria virado cinzas.
Essa cena se passara dez, onze anos antes. Hoje, provavelmente, ele teria
guardado a fotografia. Era curioso que tê-la segurado entre os dedos lhe
parecesse fazer diferença mesmo hoje, quando a foto propriamente dita,
bem como o acontecimento que ela registrava, não passavam de uma
lembrança. Será que o controle do Partido sobre o passado teria ficado
menos poderoso, pensou, pelo fato de que uma prova material que já não
existia havia um dia existido?
Mas hoje, supondo que de algum modo fosse possível ressuscitá-la das
cinzas, a fotografia talvez nem chegasse a constituir uma prova. Na época
em que ele fizera sua descoberta, a Oceânia já não estava em guerra com a
Eurásia, portanto devia ter sido para agentes provenientes da Lestásia que
os três homens mortos haviam traído seu país. Desde então haviam surgido
novas acusações — duas, três, ele já não se recordava quantas. Muito
provavelmente as confissões haviam sido reescritas e reescritas tantas vezes
que os fatos e as datas originais haviam perdido toda a importância. O
passado não apenas mudava como mudava sem cessar. O que mais o afligia,
o que lhe dava uma sensação de pesadelo, era nunca ter chegado a entender
direito por que a grande impostura fora empreendida. As vantagens
imediatas de falsificar o passado eram óbvias, mas a razão profunda era
misteriosa. Voltou a erguer a caneta e escreveu:

Baixar 3.88 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   ...   119




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal