1984 Edição especial


Partido era uma coisa imensa, terrível e luminosa — um mundo de aço e



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

Partido era uma coisa imensa, terrível e luminosa — um mundo de aço e
concreto cheio de máquinas monstruosas e armas aterrorizantes —, uma
nação de guerreiros e fanáticos avançando em perfeita sincronia, todos
pensando os mesmos pensamentos e bradando os mesmos slogans,
perpetuamente trabalhando, lutando, triunfando, perseguindo — trezentos
milhões de pessoas de rostos iguais. A realidade eram cidades precárias se
decompondo, nas quais pessoas subalimentadas se arrastavam de um lado
para outro em seus sapatos furados no interior de casas do século 
XIX
com
reformas improvisadas, sempre cheirando a repolho e a banheiros
degradados. Winston tinha a sensação de ter uma visão de Londres, imensa
e semidestruída, cidade com um milhão de latas de lixo, e fundida a essa
visão estava a imagem da sra. Parsons, aquela mulher com vincos no rosto e
cabelo espigado, lidando desamparada com um encanamento entupido.
Estendeu a mão e voltou a coçar o tornozelo. Noite e dia as teletelas
massacravam os ouvidos das pessoas com estatísticas que provavam que
hoje a população tinha mais comida, mais roupa, melhores casas, melhores
opções de lazer — que vivia mais, trabalhava menos, era mais alta, mais
saudável, mais forte, mais feliz, mais inteligente, mais culta do que as
pessoas de cinquenta anos antes. Não havia como provar ou deixar de


provar uma só dessas afirmações. O Partido insistia, por exemplo, que
atualmente quarenta por cento dos proletas adultos eram alfabetizados:
antes da Revolução, segundo diziam, o total era de apenas quinze por cento.
O Partido insistia que hoje o índice de mortalidade infantil era de apenas
cento e sessenta a cada mil habitantes — e assim por diante. Era como uma
equação simples com duas incógnitas. Podia muito bem ser que literalmente
todas as palavras contidas nos livros de história, inclusive aquelas aceitas
sem o menor questionamento, fossem pura fantasia. Até onde ele sabia,
talvez jamais tivesse existido uma lei de jus primae noctis, ou uma criatura
conhecida como capitalista, ou um acessório com as características de uma
cartola.
Tudo se esmaecia na névoa. O passado fora anulado, o ato da anulação
fora esquecido, a mentira se tornara verdade. Somente uma vez na vida ele
possuíra — depois do acontecimento: era isso o que contava — um indício
concreto, inquestionável, de um ato de falsificação. Esse indício estivera
entre seus dedos por trinta segundos. Em 1973, talvez tivesse sido em 1973
— de qualquer modo foi mais ou menos na época em que ele e Katharine se
separaram. Mas o dado realmente relevante ocorrera sete ou oito anos antes.
Na verdade a história tivera início em meados dos anos 1960, época dos
grandes expurgos, quando os líderes revolucionários originais haviam sido
eliminados de uma vez por todas. Em 1970 já não restava um só deles, com
exceção do próprio Grande Irmão. Os demais, àquela altura, haviam sido
denunciados como traidores e contrarrevolucionários. Goldstein fugira e
ninguém sabia onde ele se escondia; quanto aos outros, alguns tinham
simplesmente desaparecido, enquanto a maioria fora executada depois de
julgamentos públicos espetaculares, no decorrer dos quais confessavam
seus crimes. Entre os últimos sobreviventes estavam três homens chamados
Jones, Aaronson e Rutherford. Provavelmente esses três homens haviam
sido presos em 1965. Como acontecia tantas vezes, levaram um sumiço de
um ano mais ou menos, de modo que ninguém sabia se estavam vivos ou
mortos; reapareceram de repente, para reconhecer a própria culpa da
maneira usual. Confessaram colaboração com o inimigo (na época o
inimigo também era a Eurásia), apropriação indébita de verbas públicas,
assassinato de vários membros leais ao Partido, intrigas visando prejudicar
a liderança do Grande Irmão — intrigas essas iniciadas bem antes da
Revolução — e atos de sabotagem responsáveis pela morte de centenas de


milhares de pessoas. Depois de confessar essas coisas, os três haviam sido
perdoados, reconduzidos às fileiras do Partido e agraciados com postos que
na verdade eram sinecuras, mas que transmitiam a sensação de ser
importantes. Os três haviam publicado artigos longos e abjetos no Times,
analisando as razões de sua deserção e jurando corrigir-se.
Algum tempo depois da libertação, Winston por acaso avistou o trio no
Café da Castanheira. Lembrou-se da espécie de fascínio aterrorizado com
que os observara com o rabo do olho durante algum tempo. Eram homens
bem mais velhos que ele, relíquias do mundo de antes, praticamente as
últimas grandes figuras remanescentes dos primeiros e heroicos tempos do
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