1984 Edição especial


Partido. É claro que o Partido se vangloriava de ter libertado os proletas da



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

Partido. É claro que o Partido se vangloriava de ter libertado os proletas da
escravidão. Antes da Revolução eles eram oprimidos de maneira revoltante
pelos capitalistas. Passavam fome, eram açoitados, as mulheres eram
obrigadas a trabalhar nas minas de carvão (para falar a verdade, as mulheres
continuavam trabalhando nas minas de carvão), as crianças eram vendidas
para as fábricas a partir dos seis anos de idade. Mas, ao mesmo tempo, fiel
aos princípios do duplipensamento, o Partido ensinava que os proletas eram
inferiores naturais que deviam ser mantidos dominados, como os animais,
mediante a aplicação de umas poucas regras simples. Na realidade pouco se
sabia sobre os proletas. Não era necessário saber grande coisa. Desde que


continuassem trabalhando e procriando, suas outras atividades careciam de
importância. Abandonados a si mesmos, tal como o gado solto nos pampas
argentinos, haviam regredido ao estilo de vida que lhes parecia natural —
uma espécie de modelo ancestral. Nasciam, cresciam pelas sarjetas,
começavam a trabalhar aos doze anos, aos trinta chegavam à meia-idade,
em geral morriam aos sessenta. Trabalho físico pesado, cuidados com a
casa e os filhos, disputas menores com os vizinhos, filmes, futebol, cerveja
e, antes de mais nada, jogos de azar, preenchiam o horizonte de suas
mentes. Não era difícil mantê-los sob controle. Alguns representantes da
Polícia das Ideias circulavam entre eles, espalhando boatos falsos e
identificando e eliminando os raros indivíduos considerados capazes de vir
a ser perigosos; mas não era feita nenhuma tentativa no sentido de doutriná-
los com a ideologia do Partido. Não era desejável que os proletas tivessem
ideias políticas sólidas. Deles só se exigia um patriotismo primitivo, que
podia ser invocado sempre que fosse necessário fazê-los aceitar horários de
trabalho mais longos ou rações mais reduzidas. E mesmo quando eles
ficavam insatisfeitos, como às vezes acontecia, sua insatisfação não levava
a lugar nenhum, porque, desprovidos de ideias gerais como eram, só
conseguiam fixar-se em queixas específicas e menores. Os grandes males
invariavelmente escapavam a sua atenção. A vasta maioria dos proletas não
tinha nem sequer uma teletela em casa. Até mesmo a polícia civil pouco se
interessava por eles. Londres era assolada pela criminalidade, um
verdadeiro mundo paralelo de ladrões, bandidos, prostitutas, traficantes de
drogas e trambiqueiros de todos os tipos; mas como tudo isso acontecia
entre os próprios proletas, não fazia a menor diferença. Em todas as
questões morais, nada os impedia de adotar seu código ancestral. O
puritanismo sexual do Partido não lhes era imposto. A promiscuidade não
era passível de punição, o divórcio era permitido. Aliás, até mesmo a
prática religiosa seria permitida caso os proletas mostrassem algum indício
de sentir necessidade ou desejo de religião. Eles estavam abaixo de
qualquer suspeita. Como afirmava o slogan do Partido: “Proletas e animais
são livres”.
Winston estendeu a mão e coçou com cuidado sua úlcera varicosa. A
comichão havia recomeçado. Você sempre acabava voltando para o mesmo
ponto: de que modo o sujeito ia saber como era realmente a vida antes da


Revolução? Tirou da gaveta um livro de história para crianças que a sra.
Parsons havia lhe emprestado e começou a copiar um trecho no diário:
Antigamente [estava escrito], antes da gloriosa Revolução,
Londres não era a bela cidade que conhecemos hoje. Era um
lugar escuro, sujo, miserável, onde quase ninguém possuía o
suficiente para comer e onde centenas de milhares de pobres
não tinham botinas nos pés ou sequer um teto para abrigar seu
sono. As crianças da sua idade, leitor, precisavam trabalhar
doze horas por dia para patrões desumanos, que as cobriam de
chicotadas se trabalhassem muito devagar e só as alimentavam
com casca de pão velho e água. Mas no meio de toda essa
terrível pobreza havia uns poucos casarões bonitos onde viviam
pessoas ricas servidas por até trinta empregados. Essas pessoas
ricas eram os capitalistas. Os capitalistas eram gordos e feios e
tinham cara de ruins, como o da ilustração da página ao lado.
Você pode notar que ele veste um casaco preto comprido que se
chamava sobrecasaca, e um chapéu esquisito, brilhante, em
forma de chaminé, e que tinha o nome de cartola. Esse era o
uniforme dos capitalistas, e ninguém mais estava autorizado a
usá-lo. Os capitalistas eram donos de tudo o que havia no
mundo e todos os outros homens eram seus escravos. Eles eram
donos de todas as terras, de todas as casas, de todas as fábricas
e de todo o dinheiro. Se alguém lhes desobedecesse, os
capitalistas podiam jogar a pessoa numa prisão, ou então
mandá-la embora do emprego e obrigá-la a morrer de fome.
Quando uma pessoa comum dirigia a palavra a um capitalista,
tinha de curvar-se e fazer reverências, além de tirar o boné e
chamar o capitalista de “Senhor”. O chefe de todos os
capitalistas era chamado de Rei e…
Mas Winston conhecia o resto da lenga-lenga. Haveria menção sobre
bispos com suas camisas de cambraia, juízes com seus mantos de arminho,
o pelourinho, o cepo, a roda, o chicote, o Banquete do Prefeito de Londres e
a prática de beijar o pé do papa. Também havia uma coisa chamada jus
primae noctis, que provavelmente não seria citada num livro para crianças.


Era a lei que determinava que todo capitalista tinha o direito de ir para a
cama com toda e qualquer mulher que trabalhasse em uma de suas fábricas.
Como saber quais daquelas coisas eram mentiras? Talvez fosse verdade
que as condições de vida do ser humano médio fossem melhores hoje do
que eram antes da Revolução. Os únicos indícios em contrário eram o
protesto mudo que você sentia nos ossos, a percepção instintiva de que suas
condições de vida eram intoleráveis e de que era impossível que em outros
tempos elas não tivessem sido diferentes. Pensou que as únicas
características indiscutíveis da vida moderna não eram sua crueldade e falta
de segurança, mas simplesmente sua precariedade, sua indignidade, sua
indiferença. A vida — era só olhar em torno para constatar — não tinha
nada a ver com as mentiras que manavam das teletelas, tampouco com os
ideais que o Partido tentava atingir. Porções consideráveis dela, mesmo da
vida de um membro do Partido, eram neutras e apolíticas, simplesmente
questão de suar a camisa realizando trabalhos horrorosos, de lutar para
conseguir um lugar no metrô, de cerzir uma meia velha, de arrumar um
saquinho de sacarina, de economizar uma bagana. O ideal definido pelo
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