1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
e prática do coletivismo oligárquico, quase tudo mais se cala.
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Em certa medida, essa característica coincide com o argumento de vários
críticos (como Williams, Ben Pimlott ou George Packer) de que há um forte
componente ensaístico no livro, ou de que ele seria uma espécie de ensaio
de não ficção disfarçado de ficção, o que também se associa à qualidade dos
ensaios de Orwell, tendo em vista, entre outras, a afirmação de Howe de
que o autor seria o melhor ensaísta britânico desde William Hazlitt. Por fim,
devemos levar em consideração as palavras do próprio Orwell em “Por que
escrevo”, quando manifesta sua intenção, ao menos no que diz respeito aos
dez últimos anos de sua vida, de “transformar escrita política em arte”,
acrescentando que a ausência de propósito político sempre o levou a
escrever livros sem vida.
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1984 é tudo menos um livro sem vida. Podemos perdoar-lhe a
simplicidade do enredo, a falta de profundidade psicológica das
personagens e mesmo algumas inverossimilhanças porque, afinal, não
estamos lidando com um romance que se adéqua propriamente, em sua
estrutura ampla (a despeito da defesa do próprio Orwell de que a prosa deva
funcionar como uma vidraça), aos preceitos de um realismo ou naturalismo
mais convencionais. Portanto, mais do que nos atermos à elaboração dos
detalhes, sobretudo de qualidade sensorial (muito eficazes, a propósito) ou à
descrição exaustiva do cotidiano sombrio e monótono, talvez devamos
considerar o que Raymond Williams chamou de paradoxos do autor.
O primeiro deles (devemos estranhar?) nos é dado pelo pormenor
realista: o vento das ruas, que, por mais que Winston Smith dele procure se
esquivar, acaba soprando poeira para dentro do edifício onde mora o
personagem, quando ele passa pelas portas de vidro da entrada. Se, para
Williams, a poeira cáustica é o primeiro paradoxo (a grande tradição
humana da democracia, da verdade e da cultura exposta pelos elementos
como piada mordaz), eu diria que o vento em si constitui a primeira


oscilação em uma notação de outro modo objetiva. Afinal, ele é descrito
como “vile” (vil, perverso, cruel), uma qualidade humana, moralmente
investida, na perspectiva tanto do herói quanto do narrador. Logo no
parágrafo inicial, o vento adquire proporções simbólicas e políticas,
sugerindo que 1984 ambiciona ser mais do que mera vidraça.
Na primeira nação a sofrer o choque do industrialismo, a matéria é
poderosa e submete o sujeito a pressões extraordinárias. Como parte dessa
tradição, Orwell sofreu esse tipo de pressão, mas viveu outras. De sorte que,
para Williams, o efeito total de suas obras consiste em um efeito de
paradoxo: “Ele foi um ser humano que comunicou um extremo de horror
inumano”. Na realidade, mais do que um paradoxo, uma série de paradoxos,
cuja chave o crítico define depois como o “paradoxo do exílio”. Trata-se de
um exílio igualmente particular, o do sujeito que, privado dos meios para
uma existência confortável ou rejeitando aqueles que a herdaram, encontra
a sua medida de independência numa espécie de existência improvisada.
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Orwell rechaçou o imperialismo britânico ao qual serviu. Seu ódio ao
totalitarismo deriva de sua experiência colonial. Mas, ainda que eu acredite
que os fatos indiquem um quadro bem mais complexo (ele nunca cortou os
laços com seus colegas de Eton e sua experiência como programador
cultural na 
BBC
entre 1941 e 1942 serviu-lhe como matéria para a criação do
Ministério da Verdade), gostaria de perseguir um pouco a ideia por trás
desse sentimento de exílio. Em outro contexto, Sérgio Buarque de Holanda
definiu-o como a percepção de viver desterrado na própria terra.
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Quero
aqui relacioná-lo com o aspecto da linguagem.
George Orwell preocupava-se com a deterioração do seu idioma, como
vemos, por exemplo, em “A política e a língua inglesa”. Excluindo os
aspectos mais normativos do ensaio de 1946 e a ideia um pouco ingênua de
que o significado possa como que escolher a palavra a ser empregada pelo
escritor, o que chama a atenção é sua preocupação com o que denomina
“expressões prontas”, frases feitas (ready-made phrases), que não apenas
constroem uma sentença para quem escreve, mas até mesmo “pensam o
pensamento” para ele.
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Logo, mais do que a pobreza da língua, Orwell
preocupava-se com a pobreza do pensamento que a língua padronizada,
irrefletida causava, uma inquietação que revelaria sua face mais tenebrosa
na ameaça da Novafala.


A mais poderosa arma para a abolição do pensamento independente e da
reflexão crítica, a Novafala é o idioma que viria a substituir o inglês padrão,
ou Velhafala. Por meio de uma série de mecanismos linguísticos
implementados nessa língua fabricada, seria possível impedir qualquer ato
de desobediência, pelo simples aniquilamento da ideia que leva à ação. A
fala desvincula-se do pensamento, a articulação da consciência. E, se o
romance vem coalhado de expressões da Novafala (a começar pelo nome do
idioma, além dos termos “duplipensamento”, “patofala”, “desbom” e
“despessoa”), ele de fato é vazado nos moldes da Velhafala, cujo
vocabulário é por sinal descrito como “nosso” (our own), o que dá ensejo a
algumas perguntas acerca do narrador e da temporalidade do romance.
Mais do que 1984, a data definitiva do romance é 2050, quando a
Velhafala, o último elo com o passado, seria por fim suprimida. A supressão
ocorreria quando se concluísse o trabalho de tradução para a Novafala e
consequente desvirtuamento da literatura antiga, incluindo as obras de
Milton, Swift, Byron e Dickens. Essa é parte da tradição orwelliana de que
trata Williams, sendo também a do narrador. Sabemos que a ação do
romance se passa no ano impreciso (o protagonista não tem certeza) e
simbolicamente oposto (como se refletidos em um espelho, os dois últimos
algarismos invertem os de 48, quando o romance foi escrito) de 1984, mas
de onde fala o narrador, ou seja, em que espaço-tempo ele se encontra?
Como a maior parte dos verbos do apêndice “Princípios da Novafala”
está no passado, muitos leitores de 1984, como a escritora Margaret
Atwood e o biógrafo Bernard Crick, acreditam que o romance sugira que o
pior foi evitado. A conversão definitiva para a Novafala, a última fase do
apagamento das mentes, nunca aconteceu. No entanto, falaria o narrador de
um tempo seguro, posterior a 2050, ou, o que é mais provável, anterior a
isso, ainda que nada nos conte sobre a derrocada do regime? O narrador
afirma que “a história tinha sido reescrita”, insinuando o avanço do projeto
totalitário, mas observa que falhas do sistema permitiram a sobrevivência
de fragmentos de literatura do passado, os quais “no futuro […] se
tornariam ininteligíveis e intraduzíveis”. Algumas vezes percebemos o
emprego de dêiticos — “agora (now)”, “hoje em dia”, “nossos dias” —
associados à ininteligibilidade da Novafala: os vocábulos desse idioma
seriam incompreensíveis “para os falantes do inglês de nossos dias” (no


original, o vínculo soa mais forte: “our own days”, os dias que nos são
próprios, que nos pertencem).
O falante da Novafala não nos entenderia, nem nós o entendemos.
Haveria uma cisão entre nós, criada pela linguagem. O narrador está de
algum modo conosco e 2050 nunca ocorrerá na prática. É uma data
hipotética, sinistra. Outra hipótese possível é que o apêndice apresente um
outro narrador. Este, porém, assemelha-se muito ao principal, até certo
ponto não apenas se sobrepondo a ele, mas ainda se intrometendo na
narrativa, ao propor uma nota de rodapé justamente quando o colega de
Winston, que trabalhava na preparação da nova edição do dicionário da
Novafala, explica alguns dos princípios linguísticos do idioma. A nota
convida o leitor que queira “saber mais” a interromper a leitura e seguir
para o apêndice.
Em seu estudo Origens do totalitarismo, por vezes contraposto a 1984,
Hannah Arendt argumenta que o terror se baseia na solidão — distinta,
segundo ela, do isolamento. Isolado, eu ainda me encontro comigo mesmo,
uma companhia que garante que eu não perca contato com meus
semelhantes; na solidão, esse meu próprio eu com quem me encontro me
abandona, e fico solitário. Para ela, a solidão se associa ao desarraigamento
das massas modernas, que se inicia com a Revolução Industrial e se
intensifica com o imperialismo. Não sugiro que Orwell busque cortar
raízes, mas proponho que as experiências vividas por ele no país que foi a
vanguarda do industrialismo e cujo poder imperial ele conheceu de perto e
tanto execrou o tornaram especialmente sensível aos regimes totalitários,
cuja essência é a solidão.
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Sua condição também o levou ao exílio não apenas uma, mas várias
vezes, o que lhe acentua a desconfiança, alguma paranoia e também um
agudo senso de observação, como assinalou Williams. E tornou-o suscetível
ao fenômeno da linguagem. A filósofa Barbara Cassin mostra como Arendt,
refugiada do nazismo nos Estados Unidos, associa a língua à condição do
eLivros: a sua língua materna é o que, quando nada mais resta, ainda a
conecta à terra natal.
14
Orwell viveu em outros países — Birmânia,
Espanha, França — e chegou a aprender outras línguas, mas nunca
abandonou o inglês e sempre regressou a seu país. Teria abandonado,
porém, a condição de eLivros? De alguma forma, ele parece sentir que o
idioma do passado não é mais aquele falado por seus conterrâneos, quando


adulto. Há uma cisão. E um perigo: que essa nova língua não represente
mais o pensamento compromissado com a condição humana. Pior, que as
expressões pré-fabricadas, que de certo modo podem ser associadas ao que
Arendt chama de clichê e que ela conecta à banalidade do mal no nível da
linguagem, comprometam a formação do raciocínio adequado, a energia do
pensamento crítico.
O linguista e historiador da literatura francesa Victor Klemperer sabe o
que isso quer dizer. Judeu casado com uma alemã, ele não apenas
permaneceu na Alemanha durante o nazismo, como manteve o que
denominou “Caderno de anotações do filólogo”. Nele, transcreveu as
mudanças impostas à língua alemã pela ideologia e propaganda nazista —
controle esse que assegurou o triunfo do Terceiro Reich. A atividade
clandestina de Klemperer, cujo “Caderno” é retirado de seus diários e no
fundo constitui um diário, pode ser comparada à de Winston Smith.
Ambos escreveram com o objetivo de manter a sanidade, registrar a
história e servir como testemunho do terror totalitário. Ambos precisaram
ocultar os seus diários. Winston se pergunta para quem escreve, se para o
futuro ou para o passado, para uma “época talvez imaginária”. Klemperer
apelida o seu diário de vara de equilibrista, sem a qual ele despencaria no
abismo. Ele chama a linguagem do Reich de Lingua Tertiii Imperii ou 
LTI
(língua do terceiro império), uma versão adulterada, corrompida e oca do
alemão. Como a língua é responsável por dirigir mentalidades (para Arendt,
a própria gramática é um modo de pensar), o filólogo investiga se em
determinadas circunstâncias ela também não conteria traços de veneno, se
as palavras não poderiam ser usadas como “minúsculas doses de arsênico”,
aparentemente inofensivas, embrenhando-se “na carne e no sangue das
massas” dia após dia, até o momento em que o efeito se faz notar. A 
LTI
não
deixa de ser uma espécie de “Princípios da Novafala” assustadoramente
real.
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Vale destacar certo fascínio do narrador com relação à Novafala, um
cuidado que ultrapassa a fronteira do linguístico ao descrevê-la. Não há
nada de errado nisso, em princípio. Ele não sucumbe a seu apelo venenoso,
pois dirige o interesse a outra parte: às relações oriundas da tarefa do
tradutor, a qual, mais do que qualquer obstáculo, obriga o governo a
postergar a instauração definitiva do terror para 2050 e, no fim, parece
derrotá-lo. A derrota se dá não porque a tradução seja inviável (nem que se


converta o trecho da Declaração da Independência de Thomas Jefferson em
termos de “pensamento-crime”), mas porque o próprio ato de traduzir corrói
os alicerces do domínio total.
De acordo com Arendt, a correspondência entre as línguas, possibilitada
pela tradução (ou pelo estudo do idioma estrangeiro), chama a atenção para
algo que nos escapa na “genuína essência das coisas que produzimos e
nomeamos”, em suma, para a “equivocidade vacilante do mundo”.
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O
eLivros carrega consigo a consciência desse estado frágil, vacilante,
multívoco do mundo. Ser de fronteira, nem daqui nem de lá, ele enxerga
mais. Winston desconfia que o colega dicionarista será expurgado. Haveria
nele um entusiasmo com a tarefa da destruição das palavras, que parece
exceder a conveniência do cargo. “Um dia ele vai desaparecer”, pensa.
“Está escrito na cara dele.” Estranho uso de palavra: o bíblico “estar
escrito”. É evidente, pois é a lei. Mas também: o zelo lexicográfico se grava
no rosto, como tatuagem. Pode ser que o tradutor esteja a priori condenado,
como um personagem de Kafka. Mas a tarefa da tradução em si acaba
também por condenar o caráter unívoco, absolutista do projeto totalitário. É
mais um dos paradoxos de Orwell.
1
 Dentro da baleia e outros ensaios. Org. de Daniel Piza. Trad. de José Antonio Arantes.
São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
2
Jeffrey Meyers, “Introduction”. In: Id. (Org.), George Orwell: The Critical Heritage.
Londres: Routledge, 1997, p. 24. (Os destaques são de Orwell.)
3
 Trad. de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
4
Ver Richard Rorty, Contingency, Irony, and Solidarity (Cambridge: Cambridge
University Press, 1989), e a resposta de James Conant, “Rorty and Orwell on Truth”, em:
Abbott Gleason, Jack Goldsmith e Martha C. Nussbaum (Orgs.), On Nineteen Eighty-

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