1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Ela se jogou na cama e, no mesmo instante, sem nenhum tipo de
preliminar, da maneira mais grosseira e detestável que se possa


conceber, levantou a saia. Eu…
Winston tornou a ver-se naquele aposento mal iluminado, com o cheiro
de percevejo e perfume barato nas narinas e no coração um sentimento de
derrota e rancor que mesmo naquele momento vinha mesclado com a
lembrança do corpo de Katharine, aquele corpo branco, congelado para
todo o sempre pelo poder hipnótico do Partido. Por que tinha de ser sempre
assim? Por que ele não podia ter uma mulher que fosse sua, em vez daquele
engalfinhamento asqueroso de tempos em tempos? Viver um amor
verdadeiro, porém, era algo quase impensável. As mulheres do Partido eram
todas iguais. Nelas a castidade estava tão profundamente entranhada quanto
a lealdade ao Partido. Graças a um condicionamento cuidadoso, iniciado
desde muito cedo, com jogos e água fria, com as porcarias que lhes
vociferavam na escola, nos Espiões e na Liga da Juventude, com as
palestras, os desfiles, as canções, os slogans e a música marcial, todo
sentimento natural fora arrancado delas. O lado racional de Winston lhe
dizia que devia haver exceções, porém seu coração não acreditava nisso.
Eram todas inexpugnáveis, como o Partido queria que fossem. E o que ele
desejava, ainda mais que ser amado, era pôr abaixo aquele muro de virtude,
nem que fosse apenas por uma vez na vida. O ato sexual bem realizado era
sublevação. Desejar era pensamento-crime. Se ele tivesse despertado o
desejo de Katharine, se tivesse conseguido fazê-lo, teria sido como uma
sedução, mesmo ela sendo mulher dele.
Mas era preciso escrever o resto da história. Winston prosseguiu:
Aumentei um pouco a chama da lamparina. Com a luz, vi que
ela…
Depois da escuridão, a luz débil da lamparina a querosene lhe parecera
fortíssima. Pela primeira vez podia ver claramente a mulher. Dera um passo
na direção dela e em seguida estacara, tomado de desejo e horror. Tinha
consciência — uma consciência dolorida — do risco que assumira ao ir até
lá. Era perfeitamente possível que os policiais o surpreendessem quando
estivesse de saída; podiam inclusive estar, naquele instante mesmo, à sua
espera do lado de fora. Se fosse embora sem chegar a fazer o que tinha ido
fazer ali…!


Era preciso escrever aquilo, era preciso confessá-lo. O que ele percebera
de repente à luz da lamparina era que a mulher era velha. Ela rebocara o
rosto com tantas camadas de maquiagem que o rosto parecia uma máscara
de papelão prestes a sofrer uma rachadura. Viam-se mechas brancas em
seus cabelos, porém o detalhe verdadeiramente pavoroso era que ela abrira
um pouco a boca e ali dentro não havia nada além de um negrume
cavernoso. Não possuía um dente sequer.
Winston escreveu apressado, em garranchos:
Com a luz, vi que ela era bem velha, devia ter pelo menos uns
cinquenta anos. Mas fui em frente e fiz a coisa mesmo assim.
Tornou a comprimir as pálpebras com os dedos. Escrevera, finalmente,
mas não fizera diferença. A terapia não funcionara. A ânsia de proferir
palavras obscenas a plenos pulmões continuava intensa como nunca.



7.
Se é que há esperança, escreveu Winston, a esperança está nos proletas.
Se é que havia esperança, a esperança só podia estar nos proletas, porque
só ali, naquelas massas desatendidas, naquele enxame de gente, oitenta e
cinco por cento da população da Oceânia, havia possibilidade de que se
gerasse a força capaz de destruir o Partido. Impossível derrubar o Partido de
dentro para fora. Seus inimigos, se é que o Partido possuía algum, não
tinham como agrupar-se ou mesmo como identificar-se uns aos outros.
Mesmo que a legendária Confraria existisse, algo possível — mas não
provável —, era inconcebível que seus membros algum dia pudessem
reunir-se em grupos maiores que duas ou três pessoas. O estado de rebelião
significava um certo olhar, uma certa inflexão de voz; no máximo uma ou
outra palavra cochichada. Os proletas, porém, se de algum modo
acontecesse o milagre de que se conscientizassem da força que possuíam,
não teriam necessidade de conspirar. Bastava que se sublevassem e se
sacudissem, como um cavalo se sacode para expulsar as moscas. Se
quisessem, podiam acabar com o Partido na manhã seguinte. Mais cedo ou
mais tarde eles teriam a ideia de acabar com o Partido, não teriam? E apesar
de tudo…!
Lembrou-se de uma vez em que ia andando por uma rua apinhada
quando um brado imenso formado por centenas de vozes — vozes
femininas — se elevara de uma rua lateral um pouco à frente. Era um grito
enorme, formidável, de ira e desespero, um “Oh-o-o-o-oh!” profundo e
clamoroso que ecoava como a reverberação de um sino. O coração de
Winston dera um salto. Começou!, pensara. Uma revolta! Os proletas estão
se libertando, finalmente! Quando chegou ao ponto onde ocorria o tumulto,
viu uma multidão formada por duzentas ou trezentas mulheres reunidas em
torno das barracas de uma feira com uma expressão trágica no rosto, como


se fossem os passageiros condenados de um navio que estivesse
naufragando. Mas justo naquele momento o desespero generalizado se
fragmentou, formando uma infinitude de confrontos individuais.
Aparentemente, até pouco antes uma das barracas comercializava panelas
de lata. Eram umas porcarias de umas panelas frágeis, de péssima
qualidade, mas panela era coisa difícil de encontrar. De repente o estoque
disponível se esgotara. As mulheres que haviam conseguido comprar as
suas, empurradas e golpeadas pelas restantes, tentavam se afastar dali com
seus troféus, enquanto dezenas de outras reclamavam em torno da barraca,
acusando o feirante de favoritismo e de ter um estoque de panelas
escondido em algum lugar. Gritos irromperam em outro ponto. Duas
mulheres gordas, uma delas de cabelo longo e escorrido, haviam agarrado a
mesma panela e cada uma tentava com todas as suas forças obrigar a outra a
largá-la. As duas ficaram puxando a panela para lá e para cá até que o cabo
se soltou. Winston observou a cena com repulsa. Por outro lado, pensou,
por um momento passageiro, que força quase aterrorizante se manifestara
naquele grito de não mais que umas poucas centenas de gargantas! Por que
razão aquelas gargantas não poderiam ser capazes de gritar daquele jeito em
relação a alguma coisa realmente importante?
Escreveu:
Enquanto eles não se conscientizarem, não serão rebeldes
autênticos e, enquanto não se rebelarem, não têm como se
conscientizar.
A frase, pensou, quase poderia ter sido copiada de um dos manuais do
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