1984 Edição especial


Partido. No entanto — e não obstante esse delito constar invariavelmente da



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

Partido. No entanto — e não obstante esse delito constar invariavelmente da
lista de crimes confessados pelos réus por ocasião dos grandes expurgos —
era difícil imaginar que uma coisa daquelas pudesse acontecer na prática.
A intenção do Partido não era apenas impedir que homens e mulheres
desenvolvessem laços de lealdade que eventualmente pudessem escapar de
seu controle. O objetivo verdadeiro e não declarado era eliminar todo prazer
do ato sexual. O inimigo era menos o amor que o erotismo, tanto dentro
como fora do matrimônio. Todos os casamentos entre membros do Partido
tinham de ser aprovados por uma comissão especialmente nomeada para
esse fim, e — conquanto o princípio jamais fosse exposto com clareza — a
permissão era sempre recusada quando havia sinais de atração física entre o
homem e a mulher em questão. O único propósito reconhecido do
casamento era gerar filhos para servir ao Partido. A relação sexual devia ser
encarada como uma operaçãozinha ligeiramente repulsiva, uma espécie de
lavagem intestinal. Isso tampouco era dito com todas as letras, sendo antes
inculcado sub-repticiamente na cabeça dos membros do Partido desde a
mais tenra infância. Havia inclusive organizações que defendiam o celibato
absoluto para ambos os sexos. Todas as crianças seriam geradas por
inseminação artificial (semart, em Novafala) e criadas por instituições
públicas. Winston estava consciente de que esse era um plano que não devia
ser levado inteiramente a sério, mas de todo modo era algo que se
encaixava na ideologia geral do Partido. O Partido tratava de aniquilar o
impulso sexual e, não podendo aniquilá-lo, queria pelo menos distorcê-lo e
aviltá-lo. Winston não sabia o motivo disso, mas parecia-lhe natural que
assim fosse. E, no que tocava às mulheres, os esforços do Partido eram em
larga medida bem-sucedidos.
Tornou a pensar em Katharine. Devia fazer nove, dez, quase onze anos
que os dois haviam se separado. Era curioso como ele raramente pensava
nela. Podia passar dias sem se lembrar de que havia sido casado. Tinham
vivido juntos apenas quinze meses. O Partido não permitia o divórcio, mas
estimulava a separação na ausência de filhos.
Katharine era uma moça alta, loura, muito ereta e dona de movimentos
esplêndidos. Tinha um rosto atrevido, com feições aduncas, um rosto que a


pessoa talvez se sentisse inclinada a chamar de nobre — até descobrir que
não havia praticamente nada por trás dele. Muito cedo na vida em comum
dos dois, Winston concluíra — embora talvez essa conclusão fosse uma
simples decorrência do fato de que a conhecia mais intimamente do que à
maioria das pessoas — que Katharine era dotada da mente mais estúpida,
vulgar e vazia com que já deparara. A cabeça dela era incapaz de formular
um só pensamento que não fosse um slogan, assim como não havia
imbecilidade que ela não engolisse se o Partido assim o quisesse. “A trilha
sonora humana”, apelidara-a para si mesmo. E, contudo, teria tolerado viver
com ela se não fosse aquele pequeno detalhe — o sexo.
Assim que Winston a tocava, Katharine parecia estremecer e retesar-se
toda. Abraçá-la era como abraçar um boneco articulado de madeira. E o
estranho era que, mesmo quando ela o estreitava contra si, Winston tinha a
sensação de que Katharine ao mesmo tempo o repelia com todas as suas
forças. A impressão era transmitida pela rigidez dos músculos da mulher.
Ela ficava estendida na cama de olhos fechados, sem resistir nem cooperar,
apenas submetendo-se. Era extraordinariamente constrangedor e, passado
algum tempo, horrível. E mesmo assim Winston teria tolerado viver com ela
se os dois tivessem feito um acordo no sentido de manter-se celibatários.
No entanto, curiosamente, fora a própria Katharine quem descartara essa
possibilidade. Não havendo impedimento, era dever dos dois, afirmava ela,
gerar uma criança. De modo que a coisa continuou sucedendo uma vez por
semana, com grande regularidade, sempre que não fosse impossível.
Katharine chegava mesmo a lembrá-lo pela manhã, como se aquilo fosse
um compromisso que os dois tivessem mais tarde, algo de que não podiam
se esquecer. Ela usava dois nomes para se referir à coisa. Um era “fazer
nenê”; o outro, “nosso dever para com o Partido” (sim, ela usara mesmo
essa frase). Não tardou para que Winston passasse a sentir verdadeiro pavor
ao ver chegar o dia marcado. Felizmente, porém, não veio nenhuma criança,
Katharine acabou concordando em desistir de tentar e pouco depois os dois
se separaram.
Winston soltou um suspiro inaudível. Tornou a empunhar a caneta e
escreveu:

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