1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Foi há três anos. Numa noite escura, numa ruazinha estreita,
perto de uma das grandes estações de trem. Ela estava parada
perto de uma porta encravada no muro, debaixo da lâmpada de
um poste que não iluminava nada. Tinha um rosto jovem, muito
maquiado. Foi a maquiagem, aliás, o que mais me atraiu, a
brancura que aquilo dava ao rosto dela, como se fosse uma
máscara, e o vermelho vivo dos lábios. As mulheres do Partido
nunca se pintam. Não tinha mais ninguém na rua e nenhuma
teletela à vista. Ela disse que o preço era dois dólares. Eu…
Por enquanto estava difícil prosseguir. Winston fechou os olhos e os
comprimiu com os dedos, tentando expulsar a imagem que insistia em
voltar. Sentia a tentação quase irresistível de proferir a plenos pulmões uma
sequência de palavras obscenas. Ou de bater com a cabeça na parede, chutar
a mesa e jogar o vidro de tinta pela janela — qualquer ato colérico,
barulhento ou doloroso que pudesse apagar a lembrança que o atormentava.
O pior inimigo de uma pessoa, refletiu, era seu sistema nervoso. A
qualquer momento a tensão que se acumulava em seu interior corria o risco
de traduzir-se num sintoma observável. Lembrou-se de um sujeito com o
qual cruzara na rua semanas antes: um homem de aspecto bastante normal,
membro do Partido, com cerca de trinta e cinco, quarenta anos, um pouco
alto e magro, levando uma pasta na mão. Estavam a alguns metros de
distância um do outro quando, sem mais nem menos, o lado esquerdo do
rosto do desconhecido sofrera uma espécie de espasmo e ficara todo
contorcido. A coisa se repetira no momento em que os dois se cruzavam:


era apenas uma contração muscular, um estremecimento, rápido como o
clique de um obturador fotográfico, mas obviamente acontecia com
frequência. Winston recordava ter pensado na ocasião: esse pobre coitado
está perdido. E o assustador era o fato de que a coisa podia ser inconsciente.
O perigo mais letal de todos era falar dormindo. Até onde Winston podia
ver, contra isso não havia como precaver-se.
Respirou fundo e recomeçou a escrever:
Fui atrás dela. Atravessamos um pátio interno e chegamos a
uma cozinha num porão. Havia uma cama encostada à parede e
em cima da mesa via-se uma lamparina com a chama bem
baixa. Ela…
Sentia os nervos à flor da pele. Gostaria de cuspir. Junto com a visão da
mulher na cozinha do porão, vinha-lhe a imagem de Katharine, sua mulher.
Winston era casado — ou pelo menos fora casado. Provavelmente
continuava casado, pois até onde sabia Katharine não estava morta. Tinha a
impressão de respirar outra vez o cheiro pesado e quente daquela cozinha,
um cheiro resultante da mistura de percevejos com roupas sujas e perfume
abominavelmente barato, mas mesmo assim envolvente, porque as
mulheres do Partido não se perfumavam nunca — era inimaginável que o
fizessem. Só as proletas usavam perfume. E na cabeça de Winston aquelas
fragrâncias estavam inextricavelmente associadas à fornicação.
Aquela mulher fora seu primeiro deslize em cerca de dois anos. Ir para a
cama com prostitutas era proibido, claro, mas essa era uma daquelas normas
que a pessoa por vezes se animava a desrespeitar. Era arriscado, no entanto
não punha a vida de ninguém em risco. Ser apanhado com uma prostituta
podia significar cinco anos num campo de trabalhos forçados; não mais que
isso, porém, se o sujeito não tivesse cometido nenhuma outra infração. E
não envolvia grandes complicações, contanto que você não se deixasse
flagrar em pleno ato. Os bairros mais pobres eram muito bem servidos de
mulheres que se dispunham a vender o próprio corpo. Algumas se vendiam
até por uma garrafa de gim, bebida que os proletas não estavam autorizados
a consumir. O Partido tinha uma tendência, inclusive, a estimular
tacitamente a prostituição, vendo nessa prática uma forma de dar vazão a
impulsos que não podiam ser de todo suprimidos. A devassidão enquanto


tal não preocupava muito, desde que fosse furtiva e sem alegria e
envolvesse apenas mulheres necessitadas que não suscitassem senão
desprezo. O crime imperdoável era a promiscuidade entre membros do
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