1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Pornodiv era seu nome em Novafala — dedicada à produção do tipo mais
grosseiro de pornografia, que era despachado em embalagens fechadas e
que nenhum integrante do Partido, salvo os envolvidos em sua produção,
tinha a permissão de ver.
Enquanto Winston trabalhava, o tubo pneumático despejara mais três
mensagens em sua escrivaninha, mas eram questões simples e ele as
resolvera antes de ser interrompido pelos Dois Minutos de Ódio. Findo o
Ódio, voltou à estação de trabalho, tirou da prateleira o dicionário de
Novafala, empurrou o ditógrafo para o lado, limpou os óculos e se dedicou
a sua principal atividade da manhã.
O trabalho era o maior prazer da vida de Winston. Suas tarefas
compunham uma rotina majoritariamente enfadonha, mas vez por outra
apareciam incumbências que, de tão difíceis e intrincadas, faziam-no correr
o risco de perder-se nelas, como nas profundezas de um problema
matemático. Eram obras delicadíssimas de contrafação, sem orientação
alguma além de sua familiaridade com os princípios do Socing e uma ideia


aproximada do que o Partido queria que fosse dito. Winston era bom nesse
tipo de coisa. Uma vez ou outra já fora até encarregado de retificar os
editoriais do Times, inteiramente escritos em Novafala. Desenrolou a
mensagem que deixara de lado no começo do dia. Ela dizia:
times 3.12.83 reportagem ordemdia gi duplomaisnãobom ref
despessoas reescrever todamente mostrarsup antearquiv.
Isso poderia ser traduzido da seguinte maneira em Velhafala (ou Inglês
Padrão):
A reportagem sobre a ordem do dia pronunciada pelo Grande
Irmão e publicada no Times do dia 3 de dezembro de 1983 ficou
péssima e ainda faz referência a pessoas que não existem.
Reescreva-a e apresente um rascunho a seus superiores antes de
mandá-la para o arquivo.
Winston leu a matéria condenada. Aparentemente, a principal intenção da
ordem do dia do Grande Irmão fora elogiar o trabalho da organização
conhecida como 
FFCC
, responsável por fornecer cigarros e outros itens para
o conforto dos marinheiros das Fortalezas Flutuantes. Um certo camarada
Withers, membro insigne do Núcleo do Partido, merecera menção especial
e fora condecorado com a Ordem do Mérito Conspícuo, Segunda Classe.
Três meses depois, de uma hora para a outra e sem nenhum motivo
aparente, a 
FFCC
fora dissolvida. Supunha-se que Withers e seus sócios
tivessem caído em desgraça, mas tanto os jornais como a teletela haviam
silenciado sobre o assunto. Nada de extraordinário nisso, pois quase nunca
os transgressores políticos eram levados a julgamento ou mesmo
denunciados publicamente. Os grandes expurgos, que envolviam milhares
de pessoas, com julgamentos públicos dos traidores e criminosos do
pensamento que faziam confissões abjetas e em seguida eram executados,
serviam como punições excepcionalmente exemplares e só aconteciam a
cada dois ou três anos. O mais comum era que as pessoas que caíam em
desgraça no Partido simplesmente desaparecessem e nunca mais se ouvisse
falar delas. Ninguém fazia a menor ideia de que fim teriam levado. Em
alguns casos podiam nem estar mortas. Winston possivelmente havia


testemunhado o desaparecimento de trinta conhecidos seus ao longo dos
anos, isso sem contar seus pais.
Winston acariciou suavemente o nariz com um clipe. Na estação de
trabalho do outro lado da sala, circunspecto, o camarada Tillotson
continuava debruçado sobre seu ditógrafo. Ergueu a cabeça por um
momento: de novo o brilho hostil dos óculos. Winston ficou pensando que
talvez o camarada Tillotson estivesse fazendo o mesmo trabalho que ele.
Era perfeitamente possível. Tarefa tão complicada jamais seria confiada a
uma única pessoa; por outro lado, deixá-la a cargo de uma comissão seria
admitir abertamente que o que se pretendia ali era uma adulteração. Com
toda a probabilidade havia no mínimo uma dúzia de pessoas elaborando
versões rivais daquilo que o Grande Irmão de fato dissera em sua ordem do
dia. E em breve algum mandachuva do Núcleo do Partido escolheria esta ou
aquela versão, faria a reedição do texto e acionaria os indispensáveis e
complexos processos de referência cruzada para que em seguida a mentira
selecionada entrasse para os anais permanentes e se tornasse verdade.
Winston não sabia por que Withers caíra em desgraça. Talvez por
corrupção ou incompetência. Talvez o Grande Irmão estivesse apenas se
livrando de um subordinado popular demais. Talvez Withers ou alguém
próximo a ele estivesse sob suspeita de abrigar tendências heréticas. Ou
talvez — e o mais provável — a coisa acontecera apenas e tão somente
porque expurgos e pulverizações eram elementos indispensáveis à mecânica
governamental. As únicas pistas concretas estavam nas palavras “ref
despessoas”, que indicavam que Withers já estava morto. Não que esse
fosse o desfecho automático sempre que alguém era detido. Às vezes o
preso acabava sendo solto e era autorizado a viver um ou dois anos em
liberdade antes de ser executado. Muito de vez em quando, uma pessoa que
todos julgavam morta havia muito tempo fazia uma reaparição
fantasmagórica num julgamento público, comprometendo centenas de
outros com seu testemunho para então tornar a desaparecer, dessa vez para
sempre. Withers, contudo, já era uma despessoa. Não existia; nunca havia
existido. Winston concluiu que não bastaria simplesmente inverter a
tendência do discurso do Grande Irmão. Era melhor fazê-lo versar sobre
algo que não tivesse nada a ver com o assunto original.
Podia transformar o discurso na habitual cantilena contra traidores e
criminosos do pensamento, mas isso era um pouco óbvio demais; por outro


lado, se inventasse uma vitória no fronte ou um triunfo de superprodução no
âmbito do Nono Plano Trienal, talvez estivesse criando uma complicação
grande demais para os registros. De súbito apareceu na sua cabeça a
imagem sob medida, por assim dizer, de um certo camarada Ogilvy,
recentemente morto em combate em circunstâncias heroicas. Havia
ocasiões em que o Grande Irmão dedicava sua ordem do dia à celebração de
algum membro humilde e insignificante do Partido, cuja vida e morte eram
então elevadas à condição de exemplos dignos de ser seguidos. Era chegada
a hora de ele festejar o camarada Ogilvy. Na verdade nunca existira nenhum
camarada Ogilvy, mas um punhado de linhas impressas e duas ou três fotos
forjadas fariam com que ganhasse vida.
Winston refletiu por alguns instantes, depois puxou o ditógrafo para junto
de si e começou a ditar no conhecido estilo do Grande Irmão: um estilo ao
mesmo tempo militar e pedante e, graças a uma artimanha que consistia em
formular perguntas e prontamente apresentar as respostas para elas (“Que
ensinamentos tiramos desse fato, camaradas? O ensinamento — que aliás é
também um dos princípios fundamentais do Socing — de que” etc. etc.),
muito fácil de imitar.
Aos três anos de idade, o camarada Ogilvy rejeitara todos os seus
brinquedos, exceto um tambor, uma submetralhadora e um helicóptero em
miniatura. Aos seis, graças a uma autorização especial — um ano antes do
que permitia o regulamento —, ingressara nas fileiras dos Espiões; aos
nove, se tornara comandante de tropa. Aos onze, denunciara um tio à
Polícia das Ideias depois de ter escutado às escondidas uma conversa que
lhe parecera conter tendências criminosas. Aos dezessete, fora organizador
distrital da Liga Juvenil Antissexo. Aos dezenove, projetara uma granada de
mão adotada pelo Ministério da Paz e que no primeiro teste matara trinta e
um prisioneiros eurasianos de uma só vez. Aos vinte e três, perdera a vida
em combate. Perseguido por jatos inimigos ao sobrevoar o oceano Índico
com despachos importantes, amarrara a metralhadora ao corpo, usando-a
como lastro, e saltara do helicóptero em alto-mar com despachos e tudo —
um fim, disse o Grande Irmão, impossível de contemplar sem uma certa
inveja. Em seguida, o Grande Irmão acrescentou algumas observações
sobre a pureza e a determinação que haviam marcado a vida do camarada
Ogilvy. Era abstêmio, não fumava e sua única distração era a hora que
passava diariamente na academia de ginástica. Além disso, fizera voto de


celibato, pois acreditava que o casamento e as preocupações com a família
eram incompatíveis com uma vida de absoluta dedicação ao dever. Quando
se dispunha a conversar, era sempre sobre os princípios do Socing, e sua
única aspiração na vida era derrotar o inimigo eurasiano e perseguir
implacavelmente espiões, sabotadores, criminosos do pensamento e
traidores em geral.
Winston ponderou a possibilidade de conceder ao camarada Ogilvy a
Ordem do Mérito Conspícuo; no fim concluiu que não devia fazê-lo,
considerando o trabalho desnecessário de referência cruzada que isso
acarretaria.
Tornou a olhar de relance para o rival na estação de trabalho oposta à sua.
Algo parecia lhe dizer com segurança que Tillotson estava às voltas com o
mesmo trabalho que ele. Era impossível saber qual das versões acabaria
sendo adotada, porém Winston acreditava firmemente que seria a sua. O
camarada Ogilvy, que até uma hora antes não existia nem na imaginação,
agora era um fato. Não deixava de ser curioso, pensou Winston, que fosse
possível criar homens mortos, mas não homens vivos. O camarada Ogilvy,
que nunca existira no presente, agora existia no passado, e tão logo o ato da
falsificação caísse no esquecimento, existiria com a mesma autenticidade e
com base no mesmo tipo de evidência que Carlos Magno ou Júlio César.



5.
Na cantina de teto baixo situada na parte subterrânea do edifício, longe da
superfície do solo, a fila do almoço se arrastava, avançando muito devagar.
O ambiente já estava superlotado e o barulho era ensurdecedor. O bafo do
ensopado escapava pela grade do balcão, espalhando um cheiro azedo,
metálico, que não encobria completamente os vapores do gim Victory. No
outro extremo da sala havia um pequeno bar, não mais que um buraco na
parede, onde era possível comprar gim por dez centavos a dose grande.
“Exatamente a pessoa que eu estava procurando”, disse alguém atrás de
Winston.
Winston se virou. Era seu amigo Syme, que trabalhava no Departamento
de Pesquisas. Talvez o termo não fosse exatamente “amigo”. Agora
ninguém mais tinha amigos, só camaradas: mas a companhia de alguns
camaradas era mais prazerosa que a de outros. Syme era filólogo,
especialista em Novafala. Na realidade fazia parte da vasta equipe de
especialistas encarregada de compilar a Décima Primeira Edição do

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