1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
O pensamento-crime não acarreta a morte: o pensamento-crime
é a morte.
Agora que se via como um homem morto, tornava-se importante
continuar vivo o maior tempo possível. Dois dedos de sua mão direita
estavam sujos de tinta. Era exatamente o tipo de detalhe que podia entregar
uma pessoa. Algum fanático enxerido do Ministério (uma mulher, talvez,
alguém como a mulher de cabelo ruivo ou a moça de cabelo preto do
Departamento de Ficção) podia ficar intrigado e começar a se perguntar por
que ele havia passado o intervalo do almoço escrevendo, por que teria
usado uma caneta antiquada, o que teria escrito — e depois soltar alguma
insinuação no local adequado. Foi até o banheiro e removeu
cuidadosamente a tinta dos dedos com o sabonete marrom-escuro, um
sabonete que raspava a mão como uma lixa e que, portanto, atendia muito
bem a seus propósitos.
Guardou o diário na gaveta. Não fazia sentido pensar em escondê-lo, mas
ele podia ao menos garantir que a eventual descoberta de sua existência não
lhe passasse despercebida. Um fio de cabelo atravessado na extremidade
das páginas era óbvio demais. Com a ponta do dedo, recolheu um grãozinho
identificável de poeira esbranquiçada e o depositou num canto da capa, de
onde certamente cairia se alguém mexesse no caderno.



3.
Winston sonhava com sua mãe. Devia estar com uns dez ou onze anos
quando a mãe desaparecera, pensou. Era uma mulher alta, majestosa, mais
para calada, de movimentos lentos e cabeleira clara magnífica. Do pai,
lembrava-se com menos clareza: moreno, magro, sempre vestindo roupas
escuras impecáveis (Winston se lembrava especialmente das solas
finíssimas de seus sapatos), e de óculos. Sem dúvida os dois haviam sido
engolidos por um dos primeiros grandes expurgos dos anos 1950.
Naquele momento a mãe estava sentada em algum lugar muito abaixo
dele com sua irmã mais moça no colo. A única lembrança que Winston
guardava da irmã era a de um bebê minúsculo, frágil, sempre em silêncio,
com grandes olhos atentos. As duas tinham os olhos erguidos para ele.
Estavam no interior de algum lugar subterrâneo — talvez o fundo de um
poço ou de uma sepultura muito profunda —, mas era um lugar que, mesmo
já estando tão abaixo do lugar onde ele estava, continuava a mover-se para
baixo. As duas estavam no salão de um navio que naufragava, de olhos
fixos nele, lá em cima, através da água que se turvava. Ainda havia ar no
salão, elas ainda conseguiam vê-lo e ele a elas, mas o tempo todo as duas
iam afundando, afundando nas águas verdes que um instante mais tarde
haveria de ocultá-las para sempre. Ele estava fora, na luz, no espaço,
enquanto elas eram sugadas para a morte, e estavam lá embaixo porque ele
estava aqui em cima. Ele sabia e elas sabiam, ele via no rosto delas que elas
sabiam. Não havia censura nem no rosto nem no coração delas,
simplesmente a consciência de que teriam de morrer para que ele pudesse
continuar vivo, e que isso era parte da ordem inevitável das coisas.
Ele não conseguia se lembrar do que acontecera, mas em seu sonho sabia
que de alguma maneira a vida de sua mãe e a de sua irmã haviam sido
sacrificadas à sua. Era um desses sonhos que, mesmo mantendo o cenário


onírico característico, são uma continuação da vida intelectual da pessoa, e
em que tomamos consciência de fatos e ideias que continuamos achando
novos e valiosos depois que acordamos. A questão que naquele momento
atingiu Winston como um golpe foi o fato de que a morte de sua mãe, quase
trinta anos antes, fora trágica e dolorosa de um modo que já não seria
possível. Ele se dava conta de que a tragédia pertencia aos tempos de
antigamente, aos tempos em que ainda havia privacidade, amor e amizade,
e em que os membros de uma família se amparavam uns aos outros sem
precisar saber por quê. A memória de sua mãe atormentava seu coração
porque ela morrera amando-o, quando ele era jovem e egoísta demais para
poder retribuir seu amor, e porque, de alguma maneira, ele não se lembrava
como, ela se sacrificara a uma concepção de lealdade privada e inalterável.
Eram coisas que, ele percebia, não poderiam acontecer agora. Agora havia
medo, ódio e dor, mas não dignidade na emoção, não tristezas profundas ou
complexas. Winston tinha a sensação de ver todas essas coisas nos grandes
olhos de sua mãe e de sua irmã, olhando para ele lá de baixo, através da
água verde, centenas de braças abaixo, sem nunca parar de afundar.
No momento seguinte viu-se sobre uma relva curta e viçosa numa tarde
de verão em que os raios oblíquos do sol douravam o solo. A paisagem que
contemplava era uma recorrência tão frequente em seus sonhos que nunca
se sentia totalmente seguro de tê-la ou não tê-la visto na vida real. Em suas
divagações, chamava-a de Terra Dourada. Era um pasto antigo recortado
pelas dentadas dos coelhos e percorrido por uma trilha sinuosa, com um ou
outro promontório de toupeira. Na sebe irregular do outro lado do campo, a
brisa balançava muito suavemente os ramos dos olmos, com suas folhas
estremecendo de leve em densas massas que lembravam cabelos de mulher.
Em algum lugar bem próximo mas que o olhar não alcançava, havia uma
torrente límpida movendo-se devagar; nela, os robalinhos nadavam nas
poças sob os chorões.
A garota de cabelo escuro vinha pelo campo na direção dele. Com um
único movimento ela se despojou da roupa e jogou-a para um lado com
desdém. Seu corpo era branco e liso, mas Winston não sentia desejo. Na
verdade, mal olhou para aquele corpo, pois estava tomado de admiração
pelo gesto da moça jogando a roupa para um lado. Com sua graça e
displicência, era um gesto que parecia aniquilar toda uma cultura, todo um
sistema de pensamento, como se o Grande Irmão, o Partido e a Polícia das


Ideias pudessem ser todos jogados no nada com um único e glorioso
movimento de braço. Aquele era um gesto que também pertencia aos
tempos de antigamente. Winston acordou com a palavra “Shakespeare” nos
lábios.
A teletela emitia um zumbido de rachar o crânio que se manteve no
mesmo diapasão por trinta segundos. Com efeito, eram sete e quinze da
manhã, hora em que os funcionários dos escritórios precisam se levantar.
Winston arrancou o próprio corpo da cama com dificuldade — nu, pois os
membros do Partido Exterior recebiam somente três mil cupons de
vestuário por ano, e um pijama custava seiscentos — e apanhou uma
camiseta encardida e um short que estavam jogados sobre uma cadeira.
Atividades Físicas começaria em três minutos. No instante seguinte ele se
viu dobrado ao meio por uma violenta crise de tosse que quase sempre o
atacava logo depois que ele acordava. A tosse esvaziara seus pulmões tão
completamente que ele só conseguiu voltar a respirar depois que se deitou
de costas e aspirou o ar profundamente algumas vezes. Tinha as veias
dilatadas pelo esforço de tossir e a úlcera varicosa começara a comichar.
“Grupo de trinta a quarenta!”, ganiu uma voz feminina de furar os
tímpanos. “Grupo de trinta a quarenta! Para seus lugares, por favor. Trinta a
quarenta!”
Winston ficou em posição de sentido diante da teletela, na qual a imagem
de uma mulher bastante jovem, muito magra mas musculosa, vestindo
túnica e sapatos de ginástica, já ocupara seu lugar.
“Dobrando os braços, esticando os braços!”, berrou ela. “Me
acompanhem. Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro! Vamos lá,
camaradas, quero ver um pouco mais de energia! Um, dois, três, quatro!
Um, dois, três, quatro!…”
A dor do ataque de tosse não afastara por completo da cabeça de Winston
a impressão deixada pelo sonho, e o movimento rítmico do exercício a
recompôs em parte. Enquanto jogava mecanicamente os braços para diante
e para trás, ostentando no rosto a expressão de prazer compenetrado vista
como correta para a execução das Atividades Físicas, ele se esforçava para
recuar o pensamento para o período difuso de sua primeira infância. Era
extraordinariamente difícil. Até o fim da década de 1950, nenhum
problema; daí em diante, tudo desbotava. Na ausência de todo e qualquer
registro externo a que recorrer, até mesmo o contorno de sua própria vida


perdia a nitidez. A pessoa conseguia evocar os acontecimentos mais
notáveis, que muito provavelmente jamais haviam ocorrido. Lembrava-se
de detalhes de incidentes sem conseguir recompor sua atmosfera, e havia
longos períodos em branco aos quais não conseguia atribuir fato algum.
Naquele tempo tudo era diferente. Mesmo os nomes dos países e suas
formas no mapa, tudo era diferente. A Pista de Pouso Um, por exemplo, na
época não era chamada assim: na época seu nome era Inglaterra, ou Grã-
Bretanha, embora Londres — disso ele estava seguro — sempre tivesse se
chamado Londres.
Winston não conseguia se lembrar de jeito nenhum de uma época em que
seu país não estivesse em guerra, mas era evidente que existira um intervalo
bastante prolongado de paz durante sua infância, porque uma de suas
memórias mais antigas era de um ataque aéreo que aparentemente pegara
todo mundo de surpresa. Talvez fosse na época em que Colchester fora
atingida pela bomba atômica. Ele não se lembrava do ataque em si, mas
lembrava-se da mão de seu pai apertando a sua enquanto os dois desciam,
desciam, desciam correndo para chegar a algum lugar profundamente
enterrado no chão, dando voltas e mais voltas numa escada em espiral que
retinia debaixo de seus pés e que acabou cansando tanto as suas pernas que
ele começou a choramingar e os dois foram forçados a parar para descansar.
A mãe, com seu jeito lento e desconectado, vinha logo atrás deles. Trazia
sua irmãzinha no colo — ou quem sabe fosse apenas uma trouxa de
cobertores que ela carregava: não sabia muito bem se a irmã já havia
nascido àquela altura. Por fim haviam chegado a um lugar barulhento,
entupido de gente, que ele percebera ser uma estação de metrô.
Havia pessoas sentadas sobre toda a superfície do piso de pedra e
também pessoas comprimidas umas contra as outras, sentadas em beliches
de metal, umas por cima das outras. Winston, sua mãe e seu pai arrumaram
um lugar no chão, e perto deles havia um velho e uma velha sentados lado a
lado num beliche. O velho vestia um terno escuro bem-posto e tinha o
cabelo muito branco coberto por um boné preto, de pano: seu rosto estava
rubro e seus olhos azuis cheios de lágrimas. Cheirava a gim. Parecia que o
gim exalava de sua pele como suor, e seria possível imaginar que as
lágrimas que lhe brotavam dos olhos fossem puro gim. Mas embora
estivesse um pouco bêbado, ele também sofria sob o peso de uma dor
genuína e intolerável. À sua maneira infantil, Winston entendeu que alguma


coisa terrível, alguma coisa que estava além do perdão e que jamais poderia
ser remediada, acabara de suceder. Ao mesmo tempo, teve a impressão de
que sabia que coisa era essa. Alguém que o velho amava, uma netinha,
talvez, havia sido morto. O velho repetia a pequenos intervalos de tempo:
“A gente não devia ter confiado neles. Bem que eu falei, Mãe, não foi? É
nisso que dá confiar neles. Eu disse e repeti. A gente não devia ter confiado
naqueles canalhas.”
Mas quem eram esses canalhas em quem eles não deviam ter confiado
Winston já não conseguia se lembrar.
Desde mais ou menos aquela época, a guerra fora literalmente contínua,
embora, a rigor, não tivesse sido o tempo todo a mesma guerra. Durante
vários meses, em seus tempos de criança, houvera combates confusos nas
ruas de Londres, e de alguns deles Winston guardava uma lembrança nítida.
Só que seria praticamente impossível reconstruir a história de todo aquele
período, dizer quem lutava contra quem neste ou naquele dado momento,
pois não havia registros escritos e os relatos orais jamais se referiam a
algum quadro político diferente do vigente. Naquele momento, por
exemplo, em 1984 (se é que estavam em 1984), a Oceânia estava em guerra
com a Eurásia e era aliada da Lestásia. Nunca, em nenhuma declaração
pública ou privada, era admitido que as três potências alguma vez tivessem
se agrupado de modo diferente. Na verdade, como Winston sabia muito
bem, há não mais de quatro anos a Oceânia estava em guerra com a Lestásia
e em aliança com a Eurásia. Só que isso não passava de uma amostra de
conhecimento furtivo que ele por acaso possuía graças ao fato de sua
memória não estar corretamente controlada. Em termos oficiais, a troca de
aliados jamais acontecera. A Oceânia estava em guerra com a Eurásia: em
consequência, a Oceânia sempre estivera em guerra com a Eurásia. O
inimigo do momento sempre representava o mal absoluto, com o resultado
óbvio de que todo e qualquer acordo passado ou futuro com ele era
impossível.
O assustador, refletiu Winston pela décima milésima vez enquanto
forçava os ombros dolorosamente para trás (com as mãos nos quadris,
giravam o tronco da cintura para cima, um exercício considerado benéfico
para os músculos das costas), o assustador era que talvez tudo aquilo fosse
verdade. Se o Partido era capaz de meter a mão no passado e afirmar que


esta ou aquela ocorrência jamais acontecera — sem dúvida isso era mais
aterrorizante do que a mera tortura ou a morte.
O Partido dizia que a Oceânia jamais fora aliada da Eurásia. Ele, Winston
Smith, sabia que a Oceânia fora aliada da Eurásia não mais de quatro anos
antes. Mas em que local existia esse conhecimento? Apenas em sua própria
consciência que, de todo modo, em breve seria aniquilada. E se todos os
outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido — se todos os registros
contassem a mesma história —, a mentira tornava-se história e virava
verdade. “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o
presente controla o passado”, rezava o lema do Partido. E com tudo isso o
passado, mesmo com sua natureza alterável, jamais fora alterado. Tudo o
que fosse verdade agora fora verdade desde sempre, a vida toda. Muito
simples. O indivíduo só precisava obter uma série interminável de vitórias
sobre a própria memória. “Controle da realidade”, era a designação adotada.
Em Novafala: “duplipensamento”.
“Descansar!”, bramou a instrutora, com uma leve ponta de cordialidade.
Winston largou os braços ao longo do corpo e pouco a pouco voltou a
encher os pulmões com ar. Sua mente deslizou para o labiríntico mundo do
duplipensamento. Saber e não saber, estar consciente de mostrar-se cem por
cento confiável ao contar mentiras construídas laboriosamente, defender ao
mesmo tempo duas opiniões que se anulam uma à outra, sabendo que são
contraditórias e acreditando nas duas; recorrer à lógica para questionar a
lógica, repudiar a moralidade dizendo-se um moralista, acreditar que a
democracia era impossível e que o Partido era o guardião da democracia;
esquecer tudo o que fosse preciso esquecer, depois reinstalar o esquecido na
memória no momento em que ele se mostrasse necessário, depois esquecer
tudo de novo sem o menor problema: e, acima de tudo, aplicar o mesmo
processo ao processo em si. Esta a última sutileza: induzir conscientemente
a inconsciência e depois, mais uma vez, tornar-se inconsciente do ato de
hipnose realizado pouco antes. Inclusive entender que o mundo em
“duplipensamento” envolvia o uso do duplipensamento.
A instrutora ordenava que ficassem novamente em posição de sentido. “E
agora vamos ver quais de nós são capazes de encostar a mão nos dedos dos
pés!”, disse entusiasmada. “Inclinem-se todos sem dobrar os joelhos, por
favor, camaradas. Um-dois! Um-dois!…”


Winston abominava aquele exercício, que provocava dores agudas que
iam de seus calcanhares a suas nádegas e que muitas vezes acabavam lhe
provocando um novo ataque de tosse. A sensação semiprazerosa abandonou
suas meditações. O passado, refletiu ele, não fora simplesmente alterado; na
verdade fora destruído. Pois como fazer para verificar o mais óbvio dos
fatos, quando o único registro de sua veracidade estava em sua memória?
Tentou se lembrar do ano em que ouvira a primeira menção ao Grande
Irmão. Achava que devia ter sido em algum momento dos anos 1960, mas
era impossível ter certeza. Nas histórias do Partido, é evidente que o Grande
Irmão aparecia como o líder e o guardião da Revolução desde seus
primeiríssimos dias. Seus feitos haviam sido recuados gradualmente no
tempo até atingir o mundo fabuloso dos anos 1940 e 50, quando os
capitalistas, com seus estranhos chapéus cilíndricos, ainda circulavam pelas
ruas de Londres a bordo de grandes automóveis cintilantes ou em
carruagens puxadas por cavalos e equipadas com laterais de vidro.
Impossível saber o que era verdade e o que era mentira nessa fábula.
Winston não conseguia se lembrar sequer da data em que o próprio Partido
passara a existir. Não lhe parecia que tivesse ouvido a palavra Socing antes
de 1960, mas quem sabe na expressão utilizada pela Velhafala — ou seja,
“Socialismo inglês” — ela um dia tivesse sido de uso corrente. Tudo se
desmanchava na névoa. Às vezes, de fato, era possível apontar uma mentira
específica. Não era verdade, por exemplo, que, como afirmavam os livros
de história do Partido, o Partido tivesse inventado o avião. Winston se
lembrava de que na sua mais tenra infância já existiam aviões. Só que era
impossível provar o que quer que fosse. Nunca havia a menor prova de
nada. Uma única vez em toda a sua vida ele tivera nas mãos uma prova
documental irrefutável da falsificação de um fato histórico. E naquela
ocasião…
“Smith!”, berrou a voz rabugenta na teletela. “6079 Smith W! Isso
mesmo, você! Incline-se mais, por favor! Você não está dando tudo o que
pode. Não está se esforçando. Incline-se, por favor! Assim! Agora está
melhor, camarada. Posição de descanso, todo o pelotão. Olhem para mim.”
Um suor quente repentino brotara por todo o corpo de Winston. Seu rosto
permanecia completamente inescrutável. Nunca dê mostras de desânimo!
Nunca dê mostras de ressentimento! Uma simples chispa no olhar podia ser
sua perdição. Ficou observando enquanto a instrutora erguia os braços


acima da cabeça e — impossível dizer “graciosamente”, mas com notável
exatidão e eficiência — inclinou-se e encaixou a ponta dos dedos das mãos
embaixo dos dedos dos pés.
Assim, camaradas! É assim que eu quero que vocês façam o exercício.
Olhem de novo como eu faço. Tenho trinta e nove anos e pari quatro filhos.
Agora olhem.” Ela voltou a dobrar o corpo. “Vocês podem ver que os meus
joelhos não estão dobrados. Todos vocês são capazes de fazer isso. Basta
querer”, acrescentou ao endireitar o corpo. “Qualquer pessoa com menos de
quarenta e cinco anos é perfeitamente capaz de tocar os dedos dos pés. Nem
todos têm o privilégio de lutar na linha de frente, mas pelo menos podemos
nos manter em forma. Pensem em nossos rapazes no fronte de Malabar! E
nos marinheiros nas Fortalezas Flutuantes! Imaginem só o que eles têm de
aguentar! Agora vamos tentar de novo. Assim está melhor, camarada, muito
melhor”, acrescentou em tom estimulante quando Winston, num arranco
violento, conseguiu tocar os dedos dos pés sem dobrar os joelhos pela
primeira vez em vários anos.



4.
Com o suspiro profundo e inconsciente que nem a proximidade da teletela o
impedia de soltar quando seu dia de trabalho começava, Winston puxou o
ditógrafo para junto de si, soprou a poeira do bocal e pôs os óculos. Em
seguida, desenrolou e uniu com um clipe os quatro pequenos cilindros de
papel que o tubo pneumático já despejara no lado direito de sua
escrivaninha.
Nas paredes da estação de trabalho viam-se três orifícios. À direita do
ditógrafo, um pequeno tubo pneumático para as mensagens escritas; à
esquerda, um tubo de maior calibre para os jornais; e na parede lateral, ao
alcance da mão de Winston, uma grande abertura retangular, protegida por
uma grade de arame. Esta última destinava-se aos papéis a descartar.
Aberturas similares se espalhavam aos milhares, ou dezenas de milhares,
por todo o edifício, fazendo-se presentes não apenas em cada sala mas
também, a pequenos intervalos, em todos os corredores. Por algum motivo,
tinham recebido o apelido de buracos da memória. Quando a pessoa sabia
que determinado documento precisava ser destruído, ou mesmo quando
topava com um pedaço qualquer de papel usado, levantava
automaticamente a tampa do buraco da memória mais próximo e o jogava
ali dentro, e então o papel ia torvelinhando numa corrente de ar quente até
cair numa das fornalhas descomunais que permaneciam ocultas nos
recessos do edifício.
Winston examinou as quatro tiras de papel que acabara de desenrolar. Em
cada uma delas via-se uma mensagem de apenas uma ou duas linhas, no
jargão abreviado — não era Novafala propriamente dita, mas consistia
sobretudo em palavras extraídas do vocabulário da Novafala — que os
funcionários do Ministério empregavam em suas comunicações internas.
Diziam:


times 17.3.84 retificar discurso gi áfrica imprecisões
times 19.12.83 checar edição hoje estimativas quarto trimestre pt
83 erros impressão
times 14.2.84 retificar malcitado minância chocolate
times 3.12.83 reportagem ordemdia gi duplomaisnãobom ref
despessoas reescrever todamente mostrarsup antearquiv.
Com um vago sentimento de satisfação, Winston pôs a quarta mensagem
de lado. Tratava-se de um serviço complicado e de muita responsabilidade,
e o mais recomendável era deixá-lo para o fim. As outras três eram questões
de rotina, ainda que a segunda provavelmente o obrigasse a um exame
tedioso de incontáveis listas de números.
Winston discou “edições anteriores” na teletela e solicitou os exemplares
do Times de que precisaria para se desincumbir de suas tarefas, e poucos
minutos depois eles já deslizavam pelo tubo pneumático. As mensagens que
Winston recebera diziam respeito a artigos ou reportagens que por esse ou
aquele motivo fora julgado necessário alterar — ou, no linguajar oficial,
retificar. Por exemplo, a leitura do Times de 17 de março dava a impressão
de que, num discurso proferido na véspera, o Grande Irmão previra que as
coisas permaneceriam calmas no fronte do sul da Índia, mas que o norte da
África em breve assistiria a uma ofensiva das forças eurasianas. Na
verdade, porém, o alto-comando da Eurásia lançara uma ofensiva sobre o
sul da Índia, deixando o norte da África em paz. Assim, era necessário
reescrever um parágrafo do discurso do Grande Irmão, de forma a garantir
que a previsão que ele havia feito estivesse de acordo com aquilo que
realmente acontecera. Ou ainda: o Times de 19 de dezembro publicara as
estimativas oficiais do volume a ser atingido na produção de uma série de
bens de consumo no quarto trimestre de 1983, que ao mesmo tempo era o
sexto trimestre do Nono Plano Trienal. A edição do Times daquele dia trazia
a informação sobre o volume de produção efetivamente atingido no
período, e os números estavam em franco desacordo com os prognósticos
anunciados em dezembro. A tarefa de Winston era retificar os números
originais, fazendo-os corresponder aos resultados de fato obtidos. Já a
terceira mensagem fazia referência a um erro muito simples, cuja correção
não demandaria mais que alguns minutos de trabalho. Em fevereiro último,
o Ministério da Pujança fizera publicamente a promessa (no linguajar


oficial: “assumira o compromisso categórico”) de não promover nenhum
corte na ração de chocolate no decorrer de 1984. Na verdade, como
Winston já sabia, no fim daquela semana a ração de chocolate seria
reduzida de trinta para vinte gramas. Bastava substituir a promessa original
pela advertência de que a ração de chocolate provavelmente sofreria uma
redução em abril.
Tão logo se desincumbiu das mensagens, Winston juntou com clipes as
ditografias de suas correções às respectivas edições do Times e as introduziu
no tubo pneumático. Em seguida, com um movimento que ele fez o
possível para que parecesse inconsciente, amassou as mensagens originais e
duas ou três anotações que ele próprio fizera e as atirou todas no buraco da
memória para que fossem devoradas pelas chamas.
Winston não sabia em detalhe o que acontecia no labirinto invisível a que
os tubos pneumáticos conduziam, mas tinha uma visão geral da coisa.
Depois de efetuadas todas as correções a que determinada edição do Times
precisava ser submetida e uma vez procedida a inclusão de todas as
emendas, a edição era reimpressa, o original era destruído e a cópia
corrigida era arquivada no lugar da outra. Esse processo de alteração
contínua valia não apenas para jornais como também para livros,
periódicos, panfletos, cartazes, folhetos, filmes, trilhas sonoras, desenhos
animados, fotos — enfim, para todo tipo de literatura ou documentação que
pudesse vir a ter algum significado político ou ideológico. Dia a dia e quase
minuto a minuto o passado era atualizado. Desse modo era possível
comprovar com evidências documentais que todas as previsões feitas pelo
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