1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
GEORGE PACKER
Publicado originalmente na revista
The Atlantic, jul. 2019.


Nenhum romance do século 
XX
teve maior influência do que 1984, de
George Orwell. O título, o adjetivo criado a partir do sobrenome do autor, o
vocabulário do Partido onipotente que governa o superestado da Oceânia
com a ideologia do Socing — duplipensamento, buraco da memória,
despessoa, pensamento-crime, Novafala, Polícia das Ideias, quarto 101,
Grande Irmão —, todos eles ingressaram na língua inglesa como signos
imediatamente identificáveis de um futuro assustador. É quase impossível
falar sobre propaganda, vigilância, política autoritária ou distorções da
verdade sem fazer uma referência a 1984. Durante toda a Guerra Fria, o
romance teve sôfregos leitores clandestinos por trás da Cortina de Ferro,
que se perguntavam: Como é que ele sabia?
Também foi leitura obrigatória para várias gerações de estudantes
secundaristas americanos. Meu contato inicial com 1984 se deu no curso de
inglês no primeiro ano do ensino médio. O romance de Orwell era
apresentado junto com Admirável mundo novo de Aldous Huxley, cuja
distopia hedonista e farmacêutica parecia mais cabível para um adolescente
da Califórnia nos anos 1970 do que o desolado sadismo da Oceânia. Eu era
jovem e ignorante demais em história para entender de onde vinha 1984 e a
que, exatamente, se dirigiam suas advertências. Nem o livro nem o autor me
impressionaram muito. Na casa dos vinte anos, descobri os ensaios e livros
de não ficção de Orwell, que reli tantas vezes que meus exemplares
começaram a se desmanchar, mas não voltei a 1984. Desde o ensino médio,
eu já tinha vivido mais uma década do século 
XX
, inclusive o ano do título,
e imaginava que já “conhecia” o livro. Era familiar demais para voltar a ele.


Por isso, quando reli o romance pouco tempo atrás, sua força me pegou
desprevenido. A gente precisa esquecer o que pensa que sabe, toda a
terminologia, a iconografia e os subprodutos culturais, para captar a
genialidade original e a grandeza duradoura de 1984. É ao mesmo tempo
um ensaio político profundo e uma obra de arte impressionante e
dilacerante. E, na era Trump, é um sucesso de vendas.
The Ministry of Truth: The Biography of George Orwell’s 1984, do
crítico musical britânico Dorian Lynskey, faz uma sólida e convincente
defesa do romance como síntese de toda a obra de Orwell e como chave
mestra para entendermos o mundo moderno. O romance saiu em 1949,
quando Orwell estava morrendo de tuberculose, mas Lynskey remonta a
data das fontes biográficas a mais de dez anos antes, durante os meses que
Orwell passou na Espanha como voluntário das forças republicanas na
guerra civil do país. Sua apresentação ao totalitarismo se deu em Barcelona,
quando agentes da União Soviética criaram uma elaborada mentira para
desacreditar os trotskistas no governo espanhol como espiões fascistas.
Os jornalistas de esquerda prontamente aceitaram a invenção, útil como
era para a causa do comunismo. Orwell não, e desmascarou a mentira com
testemunhos oculares no jornalismo, precedendo seu clássico Homenagem à
Catalunha — o que o converteu num herege da esquerda. Foi estoico
quanto ao tédio e aos desconfortos da guerra de trincheiras — recebeu um
tiro no pescoço e por pouco não sairia vivo da Espanha —, mas levou muito
a sério o apagamento da verdade. Era uma ameaça ao que, para ele, garante
nossa sanidade e dá sentido à vida. “A história parou em 1936”, disse
depois a seu amigo Arthur Koestler, que sabia muitíssimo bem do que
Orwell estava falando. Depois da Espanha, praticamente todos os seus
textos e leituras levaram à criação de sua obra-prima definitiva. Como
escreve Lynskey: “A história parou e Mil novecentos e oitenta e quatro
começou”.
A história biográfica de 1984 — a corrida do moribundo contra o tempo
para terminar seu romance num chalé distante na ilha de Jura, na costa
escocesa — é conhecida por muitos leitores de Orwell. Uma das
contribuições de Lynskey é demolir a ideia de que a visão aterradora do
livro pode ser atribuída e, de certa forma, descartada como desejo de morte


de um tuberculoso. De fato, a doença terminal despertou em Orwell um
ardente desejo de viver — casou-se pela segunda vez no leito de morte —,
assim como o pessimismo do romance é atenuado, até as páginas finais,
pelo gosto de Winston Smith em apreciar a natureza, os objetos antigos, o
cheiro de café, a melodia cantada por uma proletária e, sobretudo, a amante,
Julia. 1984 é esmagadoramente opressivo, mas tem uma clareza e um rigor
que servem de estimulantes para a consciência e a resistência. Segundo
Lynskey, “Nada na vida e obra de Orwell certifica um diagnóstico de
desespero”.
Lynskey traça a gênese literária de 1984 até as ficções utópicas do século
XIX
com seu otimismo — Daqui a cem anos (1888), de Edward Bellamy; os
romances de ficção científica de H. G. Wells, que Orwell leu na infância —
e suas sucessoras distópicas no século 
XX
, incluindo Nós (1924), do russo
Ievguêni Zamiátin, e Admirável mundo novo (1932), de Huxley. As páginas
mais interessantes de The Ministry of Truth, de Lynskey, retratam o que
aconteceu com o romance depois de publicado. A luta reivindicando 1984
começou logo depois do lançamento, com disputas sobre seu significado
político. Os resenhistas americanos conservadores concluíram que o alvo
principal de Orwell era não apenas a União Soviética, mas a esquerda em
geral. Orwell, que definhava rapidamente, interveio com uma declaração
explicando que o romance não era um ataque a qualquer governo em
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