1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
Oceânia, glória a ti deu lugar a uma seleção musical mais leve. Winston
se aproximou da janela, sempre de costas para a teletela. O dia continuava
frio e sem nuvens. Em algum lugar ao longe uma bomba-foguete explodiu
com um estrondo surdo, reverberante. Eram vinte ou trinta delas caindo
sobre Londres todas as semanas.
Lá embaixo, na rua, o vento castigava o cartaz rasgado, agitando-o de um
lado para outro, e a palavra Socing

Condizentemente, aparecia e
desaparecia. Socing. Os sagrados princípios do Socing. Novafala,
duplipensamento, a mutabilidade do passado. Winston tinha a sensação de
estar vagando pelas florestas do fundo do mar, perdido num mundo
monstruoso em que o monstro era ele próprio. Estava sozinho. O passado
estava morto, o futuro era inimaginável. Que certeza podia ter de que
naquele momento uma criatura humana, uma que fosse, estivesse do lado
dele? E como saber se o domínio do Partido não seria para sempre? À guisa
de resposta, vieram-lhe à cabeça os três slogans estampados na fachada
branca do Ministério da Verdade:
GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO


IGNORÂNCIA É FORÇA
Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco centavos. Ali também, em
letras minúsculas e precisas, estavam inscritos os mesmos slogans, e do
outro lado da moeda via-se a cabeça do Grande Irmão. Até na moeda os
olhos perseguiam a pessoa. Nas moedas, nos selos, nas capas dos livros, em
bandeiras, em cartazes e nas embalagens dos maços de cigarro — em toda
parte. Sempre aqueles olhos observando a pessoa e a voz a envolvê-la.
Dormindo ou acordada, trabalhando ou comendo, dentro ou fora de casa, no
banho ou na cama — não havia saída. Com exceção dos poucos centímetros
que cada um possuía dentro do crânio, ninguém tinha nada de seu.
O sol avançara e as infindáveis janelas do Ministério da Verdade, agora
que já não recebiam luz direta, pareciam tão temíveis quanto as seteiras de
uma fortaleza. O coração de Winston se encolheu diante do enorme vulto
piramidal. O edifício era forte demais, não havia como tomá-lo. Nem mil
bombas-foguetes seriam capazes de destruí-lo. Voltou a perguntar-se para
quem estaria escrevendo o diário. Para o futuro, para o passado — para uma
época talvez imaginária. E diante dele estava o extermínio, não a morte. O
diário seria reduzido a cinzas e ele próprio viraria vapor. Somente a Polícia
das Ideias leria o que ele havia escrito, antes de suprimirem tudo da
existência e da memória. Como era possível fazer um apelo ao futuro,
quando nem um rastro seu, nem mesmo uma palavra anônima rabiscada
num pedaço de papel, tinha condições de sobreviver fisicamente?
A teletela deu as horas: duas da tarde. Winston devia sair em dez
minutos. Precisava estar de volta ao trabalho às duas e meia.
Curiosamente, o anúncio das horas pareceu dar-lhe novo ânimo. Era um
fantasma solitário afirmando uma verdade de que ninguém jamais ouviria
falar. Só que, enquanto a afirmasse, de alguma maneira obscura a
continuidade não se romperia. Não era fazendo-se ouvir, mas mantendo a
sanidade mental que a pessoa transmitia sua herança humana. Voltou para a
mesa, molhou a pena da caneta e escreveu:
Ao futuro ou ao passado, a um tempo em que o pensamento seja
livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros, em que
não vivam sós — a um tempo em que a verdade exista e em que
o que for feito não possa ser desfeito:


Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande
Irmão, da era do duplipensamento — saudações!
Ele já estava morto, refletiu. Parecia-lhe que só agora, quando começava
a ser capaz de formular seus pensamentos, dera o passo decisivo. As
consequências de toda ação estão contidas na própria ação. Escreveu:

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