1984 Edição especial


CONTROLANDO O PASSADO E O FUTURO?



Baixar 3.88 Mb.
Pdf preview
Página109/119
Encontro04.08.2022
Tamanho3.88 Mb.
#24481
1   ...   105   106   107   108   109   110   111   112   ...   119
1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
CONTROLANDO O PASSADO E O FUTURO?
Em Mil novecentos e oitenta e quatro, o Ministério da Verdade certamente
não se limita a rebaixar as massas, mas também reescreve a história: quem
controla o presente controla o passado e o futuro. Num certo nível, a sátira é
muito evidente: qualquer pessoa naquela época que se interessasse em saber
podia acompanhar o humor negro das sucessivas edições da Enciclopédia
Soviética que, primeiro, apresentava Trótski como herói da Guerra Civil,
depois condenava-o como agente dos mencheviques e do Serviço Secreto
britânico, e então lhe dava o tratamento mais simples e ameno, eliminando-
o por completo dos registros históricos, convertendo-o numa despessoa. É
esse o trabalho cotidiano de Winston Smith no ministério.
No entanto, num nível mais profundo, Orwell tenta atacar o problema
epistemológico da possibilidade de controlar o passado, destruir ou
distorcer o registro e a memória. Winston se esforça em autenticar
lembranças vagas, mas o que ele encontra entre os proletas é extremamente
inquietante: eles têm lembranças curtas, aleatórias, errantes e muitas vezes
ridículas; é preciso ter a mente treinada para ter memória treinada em
circunstâncias opressoras. Nota-se em alguns ensaios anteriores de Orwell:
(a) que ele teme que os regimes totalitários acreditem em sua própria
propaganda e sejam capazes de criar uma falsa realidade plausível e
coerente; (b) que, num tema contraditório, os regimes totalitários não teriam
como funcionar se não houvesse alguns chefes ou funcionários, alguns
cientistas ou burocratas sabendo o que realmente se passava. Orwell nunca
resolveu esse profundo e difícil problema epistemológico.
Tampouco resolveu plenamente se estava ou não satirizando a concepção
de Burnham sobre a impossibilidade da primazia do puro poder: “É curioso
que, em todo o seu discurso sobre a luta pelo poder, Burnham nunca se
detém para perguntar por que as pessoas querem o poder” (“Second
Thoughts on James Burnham”, 1946); ou se julga mesmo possível que
líderes partidários e servidores públicos que começam como seres
civilizados acabem como um mero regime de ocupantes de cargos,
brutalmente interessados apenas no poder pelo poder. O’Brien, ao permitir


que Winston lhe pergunte para que serve tudo aquilo, fornece a resposta
niilista: “Se você quer formar uma imagem do futuro, imagine uma bota
pisoteando um rosto humano — para sempre”.
16
E pode haver poder sem ideologia? A história pode ser totalmente
reescrita? Vejamos duas reflexões bastante diferentes sobre a possibilidade
de um controle completo do pensamento, ambas no mesmo extenso
parágrafo do ensaio “A prevenção contra a literatura” (1946).
A mentira organizada praticada pelos Estados totalitários não é,
como se alega às vezes, um expediente temporário da mesma
natureza que o ardil militar. Trata-se de algo inerente ao
totalitarismo. Entre os comunistas inteligentes corre uma lenda
clandestina segundo a qual, embora seja obrigado agora a fazer
propaganda mentirosa, julgamentos forjados e assim por diante,
o governo russo está registrando em segredo os fatos verdadeiros
e os publicará em algum momento no futuro. Creio que podemos
ter certeza de que esse não é o caso, porque a mentalidade
explícita numa ação desse tipo é a do historiador liberal que
acredita que o passado não pode ser alterado e que um
conhecimento correto da história é naturalmente valioso. Do
ponto de vista totalitário, a história é algo a ser criado, em vez de
aprendido. Um Estado totalitário é, na realidade, uma teocracia,
e sua casta dominante, para manter sua posição, deve ser
considerada infalível. Mas como na prática ninguém é infalível,
muitas vezes é necessário rearranjar os eventos do passado a fim
de mostrar que este ou aquele erro não foi cometido, ou que este
ou aquele triunfo imaginário aconteceu de fato. Daí que cada
mudança importante na política exige uma mudança
correspondente de doutrina e uma reavaliação de figuras
históricas de proa. Esse tipo de coisa acontece em todos os
lugares, mas é mais provável que leve a falsificações completas
em sociedades nas quais se permite somente uma opinião a
qualquer momento. O totalitarismo exige, na realidade, a
alteração contínua do passado, e a longo prazo requer
provavelmente uma descrença na própria existência da verdade
objetiva.
17


No entanto, no mesmo parágrafo, ele sustenta uma opinião contraditória.
Os simpatizantes do totalitarismo em nosso país tendem a
argumentar que, uma vez que a verdade absoluta é inatingível,
uma grande mentira não é pior que uma pequena. Afirma-se que
todos os registros históricos são tendenciosos e inexatos, ou, por
outro lado, que a física moderna provou que aquilo que parece
ser o mundo real é uma ilusão, de tal modo que acreditar nas
provas de nossos sentidos não passa de filisteísmo vulgar. Uma
sociedade totalitária que conseguisse se perpetuar
provavelmente estabeleceria um sistema de pensamento
esquizofrênico no qual as leis do senso comum seriam
consideradas boas na vida cotidiana e em certas ciências exatas,
mas poderiam ser desconsideradas pelo político, pelo historiador
e pelo sociólogo. Já existem muitas pessoas que considerariam
escandaloso falsificar um manual científico, mas não veriam
nada de errado na falsificação de um fato histórico. É nesse
ponto em que literatura e política se cruzam que o totalitarismo
exerce sua maior pressão sobre o intelectual.
18
Ele parece se contradizer — ou de fato se contradiz — porque agora
supõe não um sistema total de falso pensamento, mas um sistema
esquizofrênico. O ensaísta especulativo percebe a plausibilidade dos dois
pontos de vista. A teoria esquizofrênica ou de duas verdades é talvez a mais
plausível e um pouco menos assustadora. Orwell simplesmente não tinha
certeza quanto a essas duas grandes questões: pode haver uma dissociação
completa entre o poder e a moral, e entre a história e ideologia e a verdade?
Poucos tinham certeza na época em que ele escreveu, quando o poder
soviético, ainda que fosse refreável, parecia inexpugnável, e o poder nazista
era uma lembrança muito recente que muitos temiam que se repetisse.
Agora apenas a Coreia do Norte coloca esse dilema. Orwell o sentia
agudamente. Talvez não tivesse a capacidade filosófica de resolver se todas
as verdades são ou não são socialmente condicionadas, mas tinha o gênio
literário para chegar diretamente ao cerne do problema. Como eram dilemas
em aberto, ele optou por escrever um romance, não um tratado, ainda que
agora tanta gente o leia fora de contexto, como se fosse um tratado válido


para todos os tempos, a ser julgado como verdade literal ou não em todos os
seus detalhes, e não como uma terrível caricatura satírica das condições de
sua época.
Mas o ensaio “A prevenção contra a literatura”, em alguns aspectos,
ainda chega a nós como crítica e advertência, como toda grande sátira é
capaz de fazer.
Para manter a questão em perspectiva, repito o que disse no
início deste ensaio: na Inglaterra, os inimigos imediatos da
honestidade, e portanto da liberdade de pensamento, são os
barões da imprensa, os magnatas do cinema e os burocratas,
mas, numa visão de longo prazo, o enfraquecimento do desejo
de liberdade entre os próprios intelectuais é o sintoma mais
grave de todos.
19
Orwell irradia desconfiança quanto ao efeito degradante da imprensa, e
receava que os intelectuais estivessem traindo seus princípios. Esses dois
ataques satíricos são os que conservam uma pertinência tópica duradoura
em Mil novecentos e oitenta e quatro. Mas, após todo o sombrio
pessimismo da narrativa, o livro termina num tom otimista — não com
Winston amando o Grande Irmão e, a seguir, o desfecho com “Fim”, mas o
último parágrafo do apêndice “Os princípios da Novafala”. Este é o
verdadeiro fim do livro. E nos diz que as traduções de “Diversos escritores,
como Shakespeare, Milton, Swift, Byron, Dickens…” (o panteão de
Orwell) se mostraram tarefas inesperadamente “difíceis e demoradas”, e por
isso a “adoção definitiva da Novafala foi marcada para o longínquo ano de
2050”. Se lemos Mil novecentos e oitenta e quatro como sátira swiftiana,
seria o mesmo que dizer “este ano, o ano que vem, algum dia, nunca”. A
linguagem coloquial, as pessoas comuns e o senso comum sobreviverão às
mais decididas tentativas de controle total.


Baixar 3.88 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   105   106   107   108   109   110   111   112   ...   119




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal