1984 Edição especial



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
BERNARD CRICK
Publicado originalmente em John
Rodden (Org.), The Cambridge
Companion to George Orwell.
Cambridge: Cambridge University
Press, 2007.


Mil novecentos e oitenta e quatro não é bem compreendido se não for lido
no contexto de sua época — por volta de 1948: um mundo do pós-guerra
brutal e arbitrariamente dividido pelas grandes potências em esferas de
influência; a explosão da bomba atômica; a Londres ficcional de Winston
Smith como caricatura visível da Londres real do pós-guerra por onde
Orwell caminhara e que relembra vividamente. Em primeiro lugar, Mil
novecentos e oitenta e quatro não foi seu testamento nem sua última
vontade: foi apenas o último livro que escreveu antes de morrer. Em
segundo lugar, não foi uma obra de excepcional intensidade que saiu num
jorro de um homem quase sufocando com um desejo de morte
subconsciente e, enquanto escrevia o romance, regredindo a lembranças de
infância na escola preparatória (o que, segundo alguns, estaria demonstrado
em seu ensaio sobre os tempos de escola, “‘Tamanhas eram as alegrias’” —
como se o mundo de Stálin e Hitler não existisse). Em terceiro lugar, o livro
não representa a renúncia de Orwell ao socialismo democrático, como
supuseram tantos resenhistas americanos, pois ele continuou a escrever para
o Tribune e para jornais americanos de esquerda até a fase terminal da
doença, durante o período da composição de Mil novecentos e oitenta e
quatro.
1
No entanto, para alguém que se empenhava deliberadamente em se tornar
o mestre do estilo simples e direto, é surpreendente a quantidade de
interpretações variadas de Mil novecentos e oitenta e quatrosua obra
mais famosa, embora eu não a considere a melhor. Tem sido lida como
profecia determinista, como uma espécie de ficção científica ou uma


distopia, como projeção condicional do futuro, como sátira humanista aos
acontecimentos da época, como rejeição total de qualquer espécie de
socialismo e como protesto socialista libertário — quase anarquista —
contra tendências totalitárias e abusos de poder tanto em sua sociedade
quanto em outras sociedades possíveis. A maioria dessas interpretações
errôneas ou parciais se dá por elas não captarem o contexto de época — o
período do imediato pós-guerra.
Talvez ajude se escrevermos “Mil novecentos e oitenta e quatro” por
extenso, como título mesmo, tal como saiu na primeira edição em Londres,
em vez de uma data — 1984 —, como acontece com tanta frequência. Pois
não é uma profecia; é claramente uma sátira, e sátira de um tipo específico,
até peculiar — uma sátira swiftiana. Ao lermos o livro seja no lançamento,
seja agora, faria tanto sentido supor que o futuro seria exatamente aquele
quanto, lendo Gulliver, de Swift, supor que encontraríamos as ilhas de
Lilliput ou Brobdingnag — mesmo que, olhando em volta, possamos ver
por todos os lados homenzinhos e mulherzinhas simulando grandeza e
poder, e homenzarrões e mulheronas pisoteando displicente ou
indiferentemente os menores.



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