1984 Edição especial


O EXÍLIO DO PEITO AMOROSO



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022
O EXÍLIO DO PEITO AMOROSO
O que faríamos se quiséssemos reagir de modo construtivo a essas
preocupações? Para que funcionasse, a resposta teria de começar pelo
desenvolvimento de cada criança em sua família e no mundo social mais
amplo. O que o desenvolvimento precisaria produzir é nada menos do que
um ser humano adulto.
E o que é isso?, alguém pode perguntar. Por “ser humano adulto” refiro-
me a um ser humano que aceita a realidade do exílio do peito amoroso e,
portanto, não procura na política e no relacionamento com os outros um
substituto da plenitude, do controle e da perfeição. É um ser humano que
aceita a humanidade. Bom, isso não é fácil, principalmente quando significa
aceitar o fato de que vamos morrer. Mas, quando digo “aceitar”, não me
refiro a “ficar feliz com”. Refiro-me apenas a “enfrentar a realidade de” ou
mesmo “debater-se continuamente com a realidade de”. Esse ser humano
logo perceberia que o peito amoroso não é apenas um peito, mas parte de
uma pessoa inteira que é separada do eu. Um retorno à simbiose com esse
peito, portanto, é não só impossível, mas realmente errado: pois aquela
pessoa separada tem vida e direitos próprios, e não devemos tentar
converter outro ser humano em fonte e agente de nossa completude. Esse
reconhecimento da separação viria junto — sempre vem junto — com a dor,
o lamento pelo “país dourado” do êxtase e da simbiose que não existem
mais, e também com a culpa do indivíduo pelo desejo persistente, que
nenhum ser humano jamais deixa de sentir, de obter de volta aquele êxtase e
de fazer daquela pessoa obstinadamente separada um mero agente de sua
própria vontade.
Mas esperemos que essa criança que estamos imaginando tenha recursos
em seu ambiente que lhe permitam avançar mais do que o pobre Winston
Smith conseguiu — ajudando-a a encontrar dentro de si um objeto clemente
e misericordioso que possa curar a dor e a ambivalência da descoberta de
sua própria agressão culpada. Esses recursos incluem, sobretudo, jogos,
brincadeiras e histórias, e, à medida que a criança cresce, obras de arte que
desenvolvam um mundo interior rico, a capacidade de imaginar as


experiências separadas de outrem, a capacidade de transformar o lamento
em piedade e em atos construtivos com vistas à justiça. A educação deveria
se concentrar continuamente nesse objetivo, desenvolvendo a capacidade
das crianças de imaginar a realidade de outras vidas em formas sempre mais
complexas. Isso significa aprender, muito mais do que é usual entre os
americanos, sobre as vidas das pessoas em outros lugares fora dos Estados
Unidos e considerá-las complexas, ricas, plenamente humanas. Os Estados
Unidos são tão isolados e tão poderosos que os americanos são capazes de
passar a vida inteira sem conhecer muito outras nações; nesse ponto,
enfrentam um obstáculo à compreensão que é menos usual para os não
americanos. Esse obstáculo precisa ser tratado como Orwell procurou tratá-
lo: por meio de um contato constante com a história e os fatos referente à
situação em partes distantes do mundo. Tanto os meios de comunicação
quanto as instituições de ensino precisam se concentrar nessa tarefa.
Em todas as fases da educação, a derrota da Oceânia dentro de nós
também exige um compromisso com as artes, sobretudo as artes trágicas, e
com o desenvolvimento de emoções complexas adequadas para enfrentar as
ambivalências da vida humana. A arte da comédia também é da máxima
importância, pois favorece um reconhecimento de nossa situação bastante
impotente neste mundo — mas um reconhecimento que encerra mais
alegria do que aversão. As pessoas que sabem rir de si mesmas têm menor
probabilidade de precisarem dominar os outros.
A derrota da Oceânia também exigirá incentivar uma cultura crítica da
argumentação e da contra-argumentação, em que as pessoas moldem o valor
liberal de respeito pelos outros mostrando respeito pelo argumento de um
oponente, ao mesmo tempo mostrando respeito por seu próprio pensamento
independente e por sua própria vida interior.
A liderança de nossa nação e sua abordagem geral do mundo reforçarão a
Oceânia se nosso governo apresentar os Estados Unidos como um peito
bom e totalmente envolvente, que eclipsa e sufoca qualquer contestação do
mundo de outras nações e povos separados. Inversamente, uma política
anti-Oceânia se concentraria nas necessidades e limitações comuns a todos
os seres humanos, apresentando a relação dos Estados Unidos com o mundo
como uma relação de responsabilidade e interdependência. Construiria uma
política externa em termos do reconhecimento do direito de todos os seres
humanos de viver e desfrutar uma vida decente. O compromisso dos


Estados Unidos seria o de dar apoio a essas vidas, e não só à segurança
nacional. A ideia de supremacia e de remoção de todos os obstáculos à
autossuficiência seria substituída por uma ideia (já presente na tradição
dominante do internacionalismo do direito natural, pelo menos desde
Grócio) do mundo como sociedade de seres humanos, na qual as nações
desempenham um papel muito importante, protegendo os direitos e
expressando os valores das pessoas, mas em que a comunidade mundial
mais ampla também desempenha um papel. Os líderes educariam o público
americano a se enxergar como parte desse mundo interligado. Nessa visão
da humanidade, a riqueza extrema seria tida como fonte de vergonha
pública, e não de triunfo narcisista.
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Internamente, uma política anti-Oceânia apoiaria uma cultura crítica
empenhada em expressar respeito por aqueles que são diferentes da maioria,
tanto nas ideias quanto em seus direitos legítimos. Também apoiaria as
artes, mesmo e sobretudo quando as artes questionam as visões
complacentes sobre a autossatisfação e a supremacia americanas. Como
seria bom ter líderes, talvez até um presidente do qual se pudesse esperar
que um dia acordasse com a palavra “Shakespeare” nos lábios, após um
sonho doloroso ou esperançoso feito de vidro e uma luz clara e suave…
Existem muitos recursos nos Estados Unidos para derrotar a Oceânia.
Mas a derrota da Oceânia não requer apenas um compromisso com a
verdade, uma vigilância sobre a história e uma ciosa defesa das liberdades
civis. Ela exige, num nível muito mais profundo, um compromisso com a
formação de uma personalidade que se reconhece incompleta e carente, mas
não sem recursos, capaz de piedade e clemência. Como a história e Orwell
nos mostram, é um compromisso realmente muito difícil de assumir e ainda
mais difícil de cumprir.


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