1984 Edição especial


parte de nossa retórica política recente faz lembrar um filme de caubói nas



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1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

parte de nossa retórica política recente faz lembrar um filme de caubói nas
relações externas: entramos a toda num lugar, matamos os maus e saímos
galopando ao pôr do sol — sem nenhum compromisso de longo prazo com
a complexa tarefa de ajudar uma sociedade devastada a avançar para a
estabilidade econômica e a governança democrática. A expressão “Eixo do
Mal” sugere um poder das trevas unitário, em vez daquilo que temos na
realidade: três nações distintas com problemas e histórias totalmente
diferentes. E mesmo que o termo “Mal” se aplique apenas aos governos, e
não às pessoas, a polarização implícita entre “Eles” maus e “Nós” bons é
decididamente orwelliana ao reduzir um conflito complexo a uma cruzada
moral. “O inimigo do momento sempre representava o mal absoluto, com o
resultado óbvio de que todo e qualquer acordo passado ou futuro com ele
era impossível” (p. 76). Isso desestimula a ideia de que o objetivo de nossa
interação deva ser um compromisso de longo prazo em construir
instituições fortes no Afeganistão ou no Iraque. Em vez disso, a ideia passa
a ser: acabe com o vilão e puxe o carro, e tudo vai ficar numa boa. E claro
que assim obscurece também a percepção de que grande parte do
sofrimento humano no mundo atual é causada não por gente ruim, mas pela
fome, pela doença e pela ignorância — problemas, pelo menos alguns


deles, cuja responsabilidade cabe, ao menos em parte, às nações ricas e a
seu narcisismo. (Assim, o número de mortes por aids na África está
diretamente relacionado à ganância de algumas empresas farmacêuticas
americanas e europeias.)
O que é extremamente necessário para os cidadãos americanos nesta
época é desenvolver uma maior capacidade de imaginar as experiências de
muitos tipos de pessoas em outros países, cuja vida é diariamente afetada
pelas ações de cidadãos americanos — como consumidores e empresários
numa era de globalização, como membros de um corpo político que
mantém relações com outras nações. Nossa liderança e nossos meios de
comunicação, de modo geral, não têm feito quase nada para promover essa
relação construtiva, imaginativa e multifacetada com o mundo. Em
decorrência disso, nossas próprias personalidades se mantêm superficiais,
sem terem sequer uma ideia do que nosso consumismo significa para as
pessoas de locais distantes, sem terem sequer uma ideia do que é o
cotidiano para muitos pobres em nossa própria nação. Com o aumento das
desigualdades entre ricos e pobres, os ricos parecem viver cada vez mais em
outro mundo, isolados da realidade do sofrimento ou da luta para
sobreviver.
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 Como os reis e os nobres apresentados por Rousseau ao falar
da piedade em Emílio, nunca chegaram a entender plenamente que são
humanos, sujeitos aos mesmos problemas de todos os seres humanos. (E
claro que essa incapacidade de imaginar nasce da negação, não da mera
ignorância. Portanto, é previsível que as fronteiras dessa recusa narcisista
sejam policiadas e defendidas agressivamente.)
O que Kindlon informa sobre os limites da imaginação dos adolescentes
de famílias ricas se aplica em termos mais gerais a vários aspectos da
sociedade americana, em que os muito ricos estão cada vez mais isolados
do resto da sociedade e em que os valores competitivos e aquisitivos são
cada vez menos questionados. Nota-se, por exemplo, a cultura que surgiu
nos grandes escritórios de advocacia: a Ordem dos Advogados exige cursos
de ética, mas os valores centrais da maioria dos escritórios são os da
concorrência e da acumulação.
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Essa cultura poderia ser contestada pela cultura política, mas hoje em dia
isso quase não acontece. Os valores de igual dignidade humana, vitais para
a saúde de uma democracia, estão sem dúvida ameaçados pela cultura
política (dos dois partidos, de modo geral), que procura angariar o apoio


dos super-ricos, fala de seus excessos quando há a necessidade política, mas
então retoma diretamente os negócios como sempre (por exemplo, cortando
os fundos adicionais que foram reservados para a supervisão da Comissão
de Títulos e Câmbio [
SEC
]). A Oceânia de Orwell não surgiu por causa da
influência política desproporcional de um pequeno grupo de super-ricos;
mas pode surgir algo semelhante à Oceânia conforme os processos
democráticos perderem cada vez mais a importância e os reais detentores de
influência política se distanciarem cada vez mais da vida das pessoas
comuns.
E é claro que, mesmo se deixarmos de lado as questões sobre a
desigualdade nos Estados Unidos, existem desigualdades entre os Estados
Unidos e nações mais pobres que exigem nosso engajamento imaginativo,
visto que nossas ações afetam diariamente essas nações por meio do
mercado global. Ignorar essas desigualdades é uma espécie de narcisismo
de grupo, e esse narcisismo de grupo é reforçado dia após dia por nossos
meios de comunicação, que estão muito mais interessados no estilo de vida
dos ricos do que na realidade da vida cotidiana em alguma nação que os
americanos mal conhecem. Nossa liderança, para dizer o mínimo, não
dirige nossa atenção para esses assuntos. Nossa relação com o mundo é
quase sempre apresentada em termos narcisistas, como uma relação de
controle e domínio — não de responsabilidade, e certamente não de culpa.
A Oceânia não está à nossa porta. Mas existem alguns sinais
preocupantes. Orwell foi um grande gênio justamente porque sabia conferir
a sinais preocupantes uma forma indelével e aterrorizante. Se não chegamos
ao ponto de sentir piedade e terror por Winston Smith, podemos nos sentir
motivados a fazer um exame crítico dos elementos oceânicos em nossa
sociedade. Seria ótimo, a meu ver.



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