1984 Edição especial


participações no Centro Comunitário toda santa noite ao longo dos últimos



Baixar 3.88 Mb.
Pdf preview
Página10/119
Encontro04.08.2022
Tamanho3.88 Mb.
#24481
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   119
1984 - Edicao especial - George Orwell
07 - Cronograma de Julho 2022

participações no Centro Comunitário toda santa noite ao longo dos últimos
quatro anos. Um cheiro opressivo de suor, uma espécie de testemunho
inconsciente da vida extenuante que ele levava, acompanhava-o aonde quer
que fosse e impregnava o lugar mesmo depois de ele ter saído.
“A senhora tem uma chave inglesa?”, indagou Winston, tentando soltar a
rosca do cotovelo.
“Uma chave inglesa”, repetiu a sra. Parsons, tornando-se no mesmo
instante invertebrada. “Não sei, não sei. Pode ser que as crianças…”
Ouviu-se um tropel de botinas e outra clarinada no pente quando as
crianças irromperam na sala. A sra. Parsons apareceu com a chave inglesa.
Winston deixou escorrer a água e tirou com repugnância o chumaço de
cabelo humano que entupira o cano. Limpou os dedos o melhor que pôde na
água fria da torneira e voltou para o outro aposento.
“Mãos ao alto!”, berrou uma voz selvagem.
Um garoto de nove anos, bonito e com cara de brigão surgira de trás da
mesa e o ameaçava com uma pistola de brinquedo, enquanto sua irmã
menor, uns dois anos mais jovem, imitava-o utilizando um pedaço de
madeira. Ambos trajavam os calções azuis, as camisetas cinza e os lenços
vermelhos de amarrar no pescoço que compunham o uniforme dos Espiões.
Winston ergueu as mãos acima da cabeça, mas com uma sensação
incômoda — o jeito do menino era tão malévolo que a coisa não parecia ser
de brincadeira.
“Você é um traidor!”, gritou o menino. “É um criminoso do pensamento!
Um espião eurasiano! Eu acabo com você, vaporizo você, mando você para
as minas de sal!”
De repente as duas crianças estavam pulando em volta dele, gritando
“Traidor!” e “Criminoso do pensamento!”, a garotinha imitando o irmão em
todos os movimentos. Por alguma razão aquilo era um pouco apavorante,
como as cambalhotas dos filhotes de tigre que não tardarão a crescer e
tornar-se devoradores de homens. Havia uma espécie de ferocidade


calculista nos olhos do garoto, um desejo bastante óbvio de bater ou dar
chutes em Winston, e a consciência de que não faltava muito para alcançar
o tamanho suficiente para fazer isso. Ainda bem que ele não tinha nas mãos
um revólver de verdade, pensou Winston.
Os olhos da sra. Parsons iam nervosamente de Winston para as crianças e
destas para ele. À luz mais clara da sala de estar, ele reparou, não sem
interesse, que de fato havia poeira acumulada nas rugas do rosto dela.
“Eles fazem tanta algazarra”, disse ela. “Estão desapontados porque não
puderam ver o enforcamento. Estou ocupada demais para levá-los e o Tom
não vai chegar a tempo do trabalho.”
“Por que a gente não pode ir ver o enforcamento?”, rugiu o garoto com
seu vozeirão.
“A gente quer ir no enforcamento! A gente quer ir no enforcamento!”,
cantarolou a garotinha, que continuava pulando ao redor de Winston.
Alguns prisioneiros eurasianos, praticantes de crimes de guerra, seriam
enforcados no Parque naquela noite, lembrou-se Winston. Isso acontecia
aproximadamente uma vez por mês, e era um espetáculo muito popular. As
crianças faziam questão de que os pais as levassem para assistir. Despediu-
se da sra. Parsons e avançou para a porta. Mas não dera seis passos no
corredor quando algo o atingiu na nuca com uma pancada extremamente
dolorosa. Foi como ser espetado com um pedaço de arame incandescente.
Winston virou-se a tempo de ver a sra. Parsons arrastando o filho
apartamento adentro enquanto o menino guardava um estilingue no bolso.
“Goldstein!”, trovejou o garoto enquanto a mãe fechava a porta. Mas o
que mais impressionou Winston foi o olhar de pânico impotente estampado
no rosto cinzento da mulher.
De volta a seu apartamento, passou depressa diante da teletela e tornou a
sentar-se à mesa, ainda massageando a nuca. A teletela já não transmitia
música. Em vez disso, uma voz militar sincopada lia, com uma espécie de
prazer atroz, uma descrição dos armamentos da nova Fortaleza Flutuante
que acabara de ser ancorada entre a Islândia e as Ilhas Faroe.
Com crianças daquele tipo, pensou Winston, aquela infeliz mulher deve
levar uma vida de terror. Mais um ou dois anos e eles começariam a vigiá-la
noite e dia em busca do menor sintoma de inortodoxia. Quase todas as
crianças eram horríveis atualmente. O pior de tudo era que, por meio de
organizações como a dos Espiões, elas eram transformadas em selvagens


incontroláveis de maneira sistemática — e nem assim mostravam a menor
inclinação para rebelar-se contra a disciplina do Partido. Pelo contrário,
adoravam o Partido e tudo que se relacionasse a ele. As canções, os
desfiles, as bandeiras, as marchas, os exercícios com rifles de brinquedo, as
palavras de ordem, o culto ao Grande Irmão — tudo isso, para elas, era uma
espécie de jogo sensacional. Toda a sua ferocidade era voltada para fora,
dirigida contra os inimigos do Estado, contra os estrangeiros, os traidores,
os sabotadores, os criminosos do pensamento. Chegava a ser natural que as
pessoas com mais de trinta anos temessem os próprios filhos. E com razão,
pois era raro que uma semana se passasse sem que o Times trouxesse um
parágrafo descrevendo como um pequeno bisbilhoteiro — “herói mirim”
era a expressão usada com mais frequência — ouvira às escondidas os pais
fazerem algum comentário comprometedor e os denunciara à Polícia das
Ideias.
A ferroada do projétil lançado pelo estilingue já não doía. Winston pegou
a caneta sem muito ânimo, perguntando-se se encontraria alguma outra
coisa para escrever no diário. De repente voltou a pensar em O’Brien.
Alguns anos antes — quantos? Devia fazer uns sete anos — ele sonhara
que estava andando num aposento completamente às escuras. E alguém
sentado a um lado disse, quando ele passou: “Ainda nos encontraremos no
lugar onde não há escuridão”. Isso foi dito com muita tranquilidade, de
forma quase despreocupada — era uma afirmação, não uma ordem. Ele
seguira em frente sem se deter. O curioso é que na época, no sonho, as
palavras não lhe causaram maior impressão. Só mais tarde e aos poucos elas
começaram a adquirir um significado. Já não se lembrava se fora antes ou
depois do sonho que vira O’Brien pela primeira vez; e tampouco se
lembrava de quando identificara pela primeira vez a voz do sonho como
sendo a de O’Brien. De todo modo, a identidade era inegável. O’Brien era a
pessoa que falara com ele no escuro.
Winston nunca soubera com certeza — mesmo depois da troca de olhares
daquela manhã, continuava sendo impossível ter certeza — se O’Brien era
amigo ou inimigo. Se bem que isso não parecesse importar muito. Havia
entre eles um elo de entendimento cuja importância era maior que o afeto
ou a comunhão de ideias. “Ainda nos encontraremos no lugar onde não há
escuridão”, dissera ele. Winston não sabia o que isso significava, apenas
que de uma maneira ou de outra aquilo acabaria se tornando realidade.


A voz transmitida pela teletela fez uma pausa. No ar estagnado pairou o
toque de um clarim, nítido e belo. A voz prosseguiu com aspereza:
“Atenção! Atenção, por favor! Uma notícia-relâmpago acaba de chegar
do fronte malabarense. Nossas forças obtiveram gloriosa vitória no sul da
Índia. Estou autorizado a afirmar que a ação que noticiamos neste momento
pode perfeitamente deixar a guerra a uma distância mensurável do final. Eis
a notícia-relâmpago…”
Más notícias a caminho, pensou Winston. E de fato, logo depois da
descrição sanguinolenta da aniquilação de um exército eurasiano, com um
número elevadíssimo de soldados inimigos mortos ou feitos prisioneiros,
veio o anúncio de que, a partir da semana seguinte, a ração de chocolate
seria reduzida de trinta para vinte gramas.
Winstou arrotou de novo. O efeito do gim estava passando, substituído
por uma sensação de esvaziamento. A teletela — fosse para comemorar a
vitória, fosse para apagar a lembrança da porção de chocolate perdida —
atacou com Oceânia, glória a ti. As pessoas deviam ouvi-la em posição de
sentido.

Baixar 3.88 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   119




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal