13 Teorias de Administração Escolar em Querino Ribeiro e Lourenço Filho: raízes e processos de constituição de modelos teóricos



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surveys) e pesquisas empíricas.

Esses primeiros processos de produção contribuíram para os estudos ini-

ciais sobre a organização e administração do ensino no Brasil, até meados de 1930, 

quando se pode atribuir a Anísio Teixeira o início de um pensamento original na área, 

sem que deixasse de incorporar elementos decisivos da cultura norte-americana, em 

especial do pragmatismo filosófico de William James e John Dewey, seus mestres na 

Universidade de Columbia. Num segundo momento, mantidas as mesmas condições 

de produção, entram em cena as contribuições da Escola Clássica, em particular os 

princípios da Administração Científica de Taylor (1911) e da Administração Geral e 

Industrial de Fayol (1916). Na seqüência, os seguidores de cada uma das tendências 

elaboraram trabalhos que ressaltam suas potencialidades investigativas no campo da 

Administração de Empresas e da Administração Geral. A partir das renovadas condi-

ções de produção científica que essas obras de referência trouxeram para a Ciência da 

Administração, inicia-se, no campo da Educação, um processo de produção acadêmica 

que poderia ser denominado de “cientificização” da Administração Escolar.

No Brasil, um dos primeiros reflexos dessas teorias foi a publicação do livro 

Fayolismo na administração das escolas públicas, de Querino Ribeiro (1938). A partir dos anos 

de 1940, conceitos de outras áreas científicas e desdobramentos das disciplinas e dos 

estudos aplicados à Educação, como Filosofia da Educação, História da Educação e 

Sociologia da Educação, foram incorporados ao estudo da Administração Escolar.

A teoria de Ribeiro (1952) beneficiou-se das novas condições de pro-

dução,  utilizando  contribuições  norte-americanas,  para  delimitar  o  campo  de 

estudos da Administração Escolar no Brasil. O processo de produção se con-

centrou na elaboração de derivações conceituais e analíticas da Teoria Geral da 

Administração, a partir das referências norte-americanas, em particular de Sears 

(1950) e Moehlman (1951).

Das obras dos autores analisados, é possível inferir que duas teorias ad-

ministrativas congregaram elementos de transição nos estudos de Administração 

Escolar: são as teorias de Moehlman (1951) e Lourenço Filho (1963). A partir daí, 

o estudo dos procedimentos administrativos e pedagógicos da organização escolar 

reconhece aspectos que não se coadunam com as determinações formais do mode-

lo racional-burocrático. No entanto, é importante destacar que, mesmo quando se 

queira superar essa lógica, os procedimentos administrativos e pedagógicos não são 

(re)formulados de maneira a diminuir a influência desses elementos, uma vez que as 

principais dimensões do modelo não se esgotam no processo de formulação de nova 

proposta. É nesse sentido que, muitas vezes, a imagem do modelo racional-burocrático 

tende a prevalecer nas análises sobre a Administração Escolar. A própria natureza da 

administração, em oposição à natureza do processo administrado, é permeada pela 

lógica da burocracia racionalista.



26   

RBPAE – v.23, n.1, p. 13-28, jan./abr. 2007

Esse fato sugere implicações concretas para estudiosos da administração do 

ensino e para administradores e gestores escolares. Muitas vezes, aspectos não formais 

são ignorados nas organizações escolares e procedimentos administrativos parecem 

ocorrer apesar dos padrões estabelecidos. Tanto os procedimentos quanto os padrões, 

nessa lógica, não condizem com um terceiro elemento: o discurso. Portanto, apesar dos 

discursos sobre gestão participativa e outras propostas democráticas, os elementos da 

formalidade estrutural do modelo racional-burocrático ainda estão presentes hoje na 

Administração Escolar. Além disso, um dos principais elementos da lógica racional-

burocrática – a limitação da liberdade individual na organização – visa estabelecer 

controles e padrões de comportamento para assegurar uma condução eficiente do 

processo administrativo, embora seja protagonizado por diferentes pessoas, com 

diferentes aspirações e expectativas. Esse discurso, no entanto, implica considerar 

que o fator humano, de natureza subjetiva, presente em procedimentos não formais, 

pode levar à identificação de organizações informais no interior da organização for-

mal. Esse elemento humano torna-se, então, ponto-chave para a compreensão da 

importância da subjetividade humana, em termos de aspirações e expectativas que 

não se coadunam com as imposições da estrutura burocrática formal.

Esta  análise  pretende  sugerir  um  quadro  evolutivo  mais  amplo  da 

Administração Escolar no Brasil, visando superar sua lógica racional-burocrática, 

para pautar-se em novos conceitos, definidos à luz da complexidade histórica de 

seus processos de constituição. Com base no contexto identificado nesse panorama 

histórico, impõe-se a (re)construção de uma renovada perspectiva sociológica, que 

alguns pesquisadores denominam de Sociologia da Ciência, capaz de investigar os 

fundamentos epistemológicos das construções teóricas.

A  aplicação  da  perspectiva  sociológica  na  concepção  e  no  estudo  da 

Administração Escolar introduz novos elementos, historicamente situados, como, 

por exemplo, os elementos biográficos dos autores e os aspectos organizacionais 

e administrativos do fenômeno estudado em seu contexto específico. A presença 

de fatores sociológicos sugere que a ciência não é neutra, mas está permeada por 

fatores associados à vida dos pesquisadores e dos pesquisados no seu contexto 

social e cultural.

É assim que as teorias de Administração Escolar produzidas por J. Querino 

Ribeiro e M. B. Lourenço Filho refletem características históricas, de natureza so-

ciológica e antropológica, e guardam relação com as possibilidades organizacionais 

da escola de seu tempo. Suas análises introduzem fatores que permitem inferir um 

processo de construção científica para além do registrado em seus livros. Na reali-

dade, seus ensaios influenciaram gerações de estudiosos de Administração Escolar 

no Brasil. É precisamente a partir de seu esforço intelectual, que contribuiu para 

o surgimento de novas condições e novos processos de produção no campo da 

Administração Escolar no Brasil, que os estudiosos de hoje escrevem novos ensaios 



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