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narrative. Berlim/Nova York:

 Mouton 


de Gruyter

, 1994, p. 51), ainda pres‑

supomos em nossas pesquisas que 

a leitura por prazer é basicamente o 

mesmo que a leitura por “razões sérias 

religiosas, econômicas, ou sociais” 

(HunterJ. Paul. Before novels. the cul‑

tural contexts of eighteenth century en‑

glish fiction, Nova York/Londres: 

WW 


Norton & Company

, 1990, p. 84: um 

dos poucos a colocar o problema de 

forma interessante). Este é ainda um 

outro tema a respeito do qual os estu‑

dos históricos específicos estão bem 

adiante da reflexão teórica: o aumento 

dramático do campo do romance na 

Antigüidade Clássica, por exemplo, 

não teria sido possível sem uma gui‑

nada em direção a formas de escrita 

populares, leves e até mesmo vulgares.

[22] Fergus, op. cit., pp. 108‑17.

[23] Rolston, op. cit., p. 126.

[24] Schumpeter, Joseph A. Capita‑

lism, socialism and democracy [1942]. 

Nova York: Harper, 1975, p. 138.



Jin Ping Mei (que tem duas mil páginas); “ao ler o último capítulo, 

ele já está lembrando do primeiro”

23

. É assim a leitura intensiva: a 



única leitura verdadeira é a releitura, ou mesmo “uma série de relei‑

turas”, como parecem pressupor vários comentadores. “Se você não 

faz uso de seu lápis, não dá para considerar realmente como leitura”, 

disse certa vez Mao. Estudo; não o consumo de um volume por dia. 

Na Europa, só o modernismo fez as pessoas estudarem romances. 

Tivessem elas lido com lápis e comentário no século 

xviii

, não teria 



havido o desenvolvimento do romance europeu.

VIII


Tipicamente, as grandes teorias do romance têm sido teorias 

da modernidade, e minha insistência com o mercado é uma versão 

particularmente brutal delas. Mas com uma complicação, sugerida 

por outro programa de pesquisa com o qual estou presentemente 

envolvido, sobre a figura do burguês, no curso do qual fui freqüen‑

temente surpreendido por o quão limitada parece ter sido a difusão 

de valores burgueses. O capitalismo se espalhou por toda parte, sem 

dúvida, mas os valores que — segundo Marx, Weber, Simmel, Som‑

bart, Freud, Schumpeter, Hirschmann… — lhe são supostamente 

mais congruentes não, e isso me fez olhar para o romance com um 

olhar diferente: não mais como a forma “natural” da modernidade 

burguesa, mas como aquela por meio da qual o imaginário pré‑mo‑

derno continua presente no mundo capitalista. Daí as aventuras. 

O antípoda do espírito do capitalismo moderno, segundo A ética 



protestante; um tapa na cara do realismo, como Auerbach viu de for‑

ma tão clara em Mimesis. O que faz a aventura no mundo moder‑

no? Margaret Cohen, de quem aprendi muito sobre o assunto, a vê 

como um tropo de expansão: o capitalismo na ofensiva, planetário, 

cruzando oceanos. Acho que ela está certa, e acrescentaria apenas 

que a razão pela qual a aventura funciona tão bem nesse contexto 

é que ela é muito boa para imaginar a guerra. Apaixonada pela força 

física, à qual fornece justificativa moral na forma da salvação dos 

fracos de toda forma de abuso, a aventura é a combinação perfeita 

de poder e dever para acompanhar as expansões do capitalismo. É 

por isso que o guerreiro cristão de Köhler não apenas sobreviveu em 

nossa cultura — em romances; filmes; videogames — não apenas 

sobreviveu, mas sobrepuja qualquer figura burguesa comparável. 

Schumpeter colocou de forma crua e clara: “A classe burguesa… pre‑

cisa de um senhor”

24

.



Precisa de um senhor — para ajudar a exercer a dominação. Ao 

encontrar distorção após distorção de valores burgueses centrais, 

minha primeira reação foi sempre pensar na perda de identidade de 

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212 roMaNce: hisTória e Teoria ❙❙ 

Franco Moretti

classe que isso implicava; o que é verdade, mas, de outro ponto de 

vista, completamente irrelevante, porque a hegemonia não exige 

pureza — exige plasticidade, camuflagem, cumplicidade entre o ve‑

lho e o novo. Sob essa outra constelação, o romance volta a ser cen‑

tral para a nossa compreensão da modernidade: não apesar, mas por 

causa de seus traços pré‑modernos, que não são resíduos arcaicos, 

mas articulações funcionais de necessidades ideológicas. Decifrar 

os estratos geológicos de consenso no mundo capitalista — aí está 

um desafio que vale a pena, para a história e a teoria do romance.

Franco Moretti é o organizador da coletânea O romance (CosacNaify, 2009).

Rece bido para publi ca ção  

em 15 de outubro de 2009.

nOVOs estUDOs

ceBrap

85, novembro 2009



pp. 201‑212

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