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da pedra é recorrentemente descrito como Os Buddenbrooks chinês, e 

certamente ambos são histórias do declínio de uma grande família, 

mas o romance de Thomas Mann cobre meio século em quinhentas 

páginas, e A história da pedra uma dúzia de anos em duas mil páginas: 

e não é apenas uma questão de ritmo, aqui (apesar de obviamente ser 

também o caso), mas da hierarquia entre sincronia e diacronia: o ro‑

mance chinês tem uma dominante “horizontal”, onde o que importa 

mesmo é não o que está “adiante” de um determinado evento, como 

na prosa prospectiva, mas o que está “ao seu lado”: todas as vibrações 

que se propagam ao longo desse sistema narrativo imenso — e todas 

as contra‑vibrações que tentam estabilizá‑la. Antes, indiquei como a 

quebra da simetria permitiu à prosa européia intensificar o efeito de 

irreversibilidade; a irreversibilidade está presente em romances chi‑

neses, claro, mas em vez de a intensificar eles recorrentemente tentam 

contê‑la, e assim a simetria readquire sua centralidade: capítulos são 

anunciados por couplets que claramente os dividem em duas partes; 

muitas passagens importantes são redigidas na maravilhosamente 

intitulada “prosa paralela” (“Todo significado dedicado à busca do 

prazer; toda manhã uma ocasião para devaneios despreocupados”); 

na arquitetura geral do romance existem blocos de dez, vinte e até cin‑

qüenta capítulos que se espelham uns aos outros através de centenas 

de páginas… É de fato uma tradição alternativa.

Alternativa, mas comparável: até o século 

xviii


, o romance chinês 

era provavelmente maior em extensão e superior em qualidade do 

que qualquer um na Europa, com a possível exceção da França. “Os 

chineses têm romances aos milhares, e já os tinham quando os nos‑

sos ancestrais ainda viviam na floresta”, disse Goethe a Eckermann 

em 1827, no dia em que cunhou o conceito de Weltliteratur (ao ler um 

romance chinês). Mas os números estão errados: em 1827 já existiam 

romances aos milhares na França, ou na inglaterra, ou na Alemanha — 

mas não na China. Por quê?

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208 roMaNce: hisTória e Teoria ❙❙ 

Franco Moretti

[11] Pomeranz, Kenneth. The great di‑

vergence. China, Europe, and the making 

of  the  modern  world  economy.  New 

Jersey: Princeton University Press, 

2000, pp. 7‑8.

[12]  Roston,  David  L.  Traditional 



chinese fiction and fiction commentary. 

Reading and writing between the lines

Stanford: Stanford University Press, 

1997, p. 4.

[13]  Watt, Ian. The rise of the novel

Berkeley:  University  of  California 

Press, 1957, p. 30 [ed. bras.: A ascensão 



do romance. São Paulo: Companhia 

das Letras: 1990].

[14]  Gu, Ming Dong. Chinese theories 

of fiction. A non‑western narrative sys‑

tem

Albany: State University of New 

York Press,

 2006, p. 71.

[15]  A  divergência  entre  os  dois 

modelos é bem ilustrada pelo papel 

desempenhado por Dom Quixote e 

Jin Ping Mei — dois romances que 

foram escritos no mesmo ano, e que 

são freqüentemente comparados en‑

tre si (mais por sinólogos do que por 

hispanistas, deve ser dito) — em suas 

respectivas tradições: por ao menos 

dois séculos, se não mais, a influência 

do Jin Ping Mei na teoria e prática do 

romance na China foi incomparavel‑

mente maior do que a de Dom Quixote 

na Europa. Um afastamento parecido 

de trajetórias ocorre no final do sécu‑

lo 

xvii


, quando o pico da virada estéti‑

ca chinesa (A história da pedra) pode‑

ria ter encontrado seu par em uma ge‑

ração de poetas‑romancistas alemães 

incrivelmente talentosos (Goethe, 

Hölderlin, Novalis, Schlegel, Von Ar‑

nim, Brentano) — não fosse apenas 

o fato de terem sido completamente 

ignorados  pelos  leitores  europeus 

(com exceção de Goethe, claro; mas 

mesmo Goethe manteve a primeira 

versão, “poética”, de Os anos de apren‑






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