100 Lendas do Folclore brasileiro


partindo-se em  vários pedaços. Diz-se, porém , que Deus ficou tão sentido com  a



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partindo-se em  vários pedaços. Diz-se, porém , que Deus ficou tão sentido com  a
sua sorte que rej untou todas as partes, recosturando o couro por cim a, e é por isto
que o sapo tem , até hoj e, a pele toda rem endada.


O NEG RINHO DO PASTOREIO
Sem  dúvida algum a, a lenda m ais popular no extrem o sul do Brasil ainda é
a do Negrinho do Pastoreio, um a história triste e violenta.
O escritor gaúcho Sim ões Lopes Neto foi o m aior divulgador da lenda, a
qual reconta-se agora, em  outras e inferiores palavras.
Havia, nos tem pos idos, um  estancieiro perverso que adorava m altratar os
escravos. Na estância desse dem ônio, vivia um  negrinho cham ado sim plesm ente
de Negrinho. Não tendo m ãe nem  pai, ninguém  se lem brara de batizá-lo. Graças
a isso, dizia-se que era afilhado de Nossa Senhora.
Certo dia, o estancieiro perverso resolveu organizar um a corrida de
cavalos. O Negrinho, bom  de cavalhadas, deveria conduzir o cavalo do patrão.
– Se perder a corrida j á sabe! – am eaçou o estancieiro, m ostrando-lhe o
punho.
Deu-se, então, a corrida, e o Negrinho levou a pior.
Mas a pior, m esm o, ele ainda estava por levar. O estancieiro perverso
havia perdido m il onças de ouro, e queria se vingar no m enino.
– Esse tição m e paga! – dizia ele, vibrando o relho no ar, em  j uras de ódio.
Nem  bem  o povaréu se espalhara ao redor dos espetos de carne gorda, o
Negrinho viu-se am arrado num a estaca, na qual levou um a horrenda surra. Lá
ficou a noite inteira, e só quando am anheceu foi retirado e levado a um  pedaço
erm o de cam po.
– Vai ficar aqui pastoreando o gado durante trinta dias, pois trinta quadras
tinha a cancha reta onde perdeu a corrida! – disse o patrão, deixando o Negrinho
sob o sol escaldante, sob o granizo furioso, sob o frio enregelante, e sob tudo o que
há de m olesto na m ãe natureza.
Durante as noites, o Negrinho provava outra colherada cheia do inferno:
cercado por coruj as, onças, lobos, j avalis ou outros bichos que havia então pelos
pam pas, só encontrava algum  sossego ao lem brar da sua Madrinha, e aí
adorm ecia com  um  sorriso nos lábios.
E foi j usto num a dessas pausas do sofrim ento que a sua ruína se com pletou:
um  bando de ladrões de gado, aproveitando o sono do pequeno vigia, levou
consigo todo o gado.
Não é preciso dizer que, no dia seguinte, o Negrinho provou outra surra
daquelas.
– Agora vai procurar o gado que deixou levarem ! – disse o patrão,
m andando-o, noite fechada, para os cam pos abertos.
O Negrinho passou antes na capelinha da sua Virgem  Madrinha e levou
um a vela para alum iar os cam inhos. Enquanto avançava pelos cam pos, deixava
cair um  pouco da cera incandescente. Os pingos ficavam  queim ando pelo chão,
com o pirilam pos, enquanto ele avançava.
Então, de tanto avançar, ele finalm ente achou o cam po do pastoreio. O
gado estava lá, e ele se deitou para dorm ir, agradecendo à Madrinha Celeste. No
m eio da noite, no entanto, o filho do estancieiro, um  rapaz ainda pior do que o pai,
veio de m ansinho e espantou, outra vez, os anim ais.
O laço cantou de novo, e desta vez o Negrinho não resistiu e m orreu.


A coisa toda se deu em  cam po aberto, e o patrão desgraçado achou que o
Negrinho não m erecia nem  m esm o um a cova.
– Atire-o ali no form igueiro! – disse ao filho.
O corpo do Negrinho foi posto sobre o form igueiro, e as form igas caíram
em  cim a, com endo tudo.
Quando chegou em  casa, o estancieiro sonhou que ele era m il estancieiros,
e que tinha m il filhos, e m il negrinhos para m altratar, e m il m il onças de ouro
para gastar em  bobagens.
Durante três noites, o estancieiro sonhou o m esm o sonho. Então, na terceira
noite, tom ado pelo rem orso – ou pelo m edo de ser descoberto –, resolveu voltar
ao form igueiro para ver se as form igas haviam  com ido todo o corpo. Ao chegar
lá, porém , deparou-se com  a figura do Negrinho, em  pé sobre o form igueiro, são
e sem  m arca algum a de ferida. Ao seu lado, estava a sua Santa Madrinha, toda
serena e fosforescendo em  azul. Os bichos perdidos tam bém  estavam  todos ali.
O estancieiro caiu de j oelhos e m ãos postas, arrependido, m as o que ele
sentia m esm o era um  m edo terrível de que algum  castigo caísse sobre si.
Enquanto o estancieiro se enchia de m edo, o Negrinho m ontou, em  pelo,
em  cim a de um  dos cavalos e saiu a tocar alegrem ente a tropa pelas coxilhas.
A partir daquele dia, o Negrinho passou a ser cham ado de Negrinho do
Pastoreio. Encarregado de encontrar coisas perdidas, ele faz a busca de bom
grado, m as sem pre pedindo um a vela para a sua m adrinha.



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