100 Lendas do Folclore brasileiro


O CASAMENTO DA MÃE-D’ÁG UA



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O CASAMENTO DA MÃE-D’ÁG UA
Havia, pois, um  pescador que de pescador, ultim am ente, só tinha o nom e,
pois não conseguia levar para casa peixe algum . Então, certo dia, obstinando-se
em  derrotar a m aré de azar, ele decidiu perm anecer pescando noite adentro, até
arrancar qualquer coisa que fosse das águas.
– Daqui só saio com  um  peixão de encher os olhos! – anunciou ele,
lançando o anzol.
O sol se foi, a noite chegou, e nada de peixe, até que, de repente, lá pelas
tantas da m adrugada, um  clarão se fez no m ar e um a cantoria de m ulher subiu
harm oniosa das águas.
Aquilo tinha todo j eito de visagem , e o pescador se encolheu todo, dando
quase para se esconder atrás do sam burá vazio. Mas a cantoria não cessava, até
que um a criatura esplendorosam ente bela em ergiu das águas e foi acom odar-se
num a das pedras, um  pouco depois da rebentação.
Bem , se o pescador queria algo de encher os olhos, realm ente conseguiu o
que queria, pois a criatura era realm ente deslum brante. Da cabeça à cintura ela
era m ulher, e da cintura para baixo era peixe.
O pescador, que não tinha m ulher nem  peixe, sentiu-se duplam ente
recom pensado.
– Deus é m esm o m aravilhoso! – disse ele, depois de blasfem ar a noite
toda.
De repente, a m ulher-peixe m ergulhou e o pescador entrou em  pânico.
– Espere, volte...! – gritou ele.
Fez-se o silêncio, até que a cantoria recom eçou, desta vez bem  próxim a, a
ponto de o pescador ficar m eio hipnotizado. Ele entrou no m ar, ficando com  a
água pela cintura, até que a m ulher-peixe apareceu bem  na sua frente. Com  os
cabelos m olhados e o torso com pletam ente nu, era um a visão de sonho ou de
pesadelo deleitoso, o que acharem  m elhor.
– Quem  é você? – balbuciou ele.
– Sou a Mãe-d’Água, e vou ensiná-lo a pescar – disse a sereia tupiniquim .
O pescador apanhou tanto peixe naquela noite que o sam burá vergou de
peso.
* * *
A partir daí, com eçou um  rom ance entre o pescador e a Mãe-d’Água, que
culm inou num  pedido de casam ento.
– Sim , eu quero! – disse ela, donzela ingênua e sedenta dos prazeres do
m atrim ônio.
– Você irá viver com igo? – perguntou o pescador.
– Está bem , vou viver em  terra com  você – disse ela, cedendo. – Mas
im ponho um a condição.
O pescador franziu a testa, pois era um  tipo truculento.
– Só viverei com  você enquanto não desfizer da m inha gente do m ar.
O pescador suspirou aliviado!


– É claro, j am ais falarei m al da sua gente! – disse ele, esquecendo-se logo
do que prom etera.
A partir desse dia, os dois foram  viver na cabana do pescador. Quando a
Mãe-d’Água chegou ao “ninho de am or”, entretanto, teve de fazer um  esforço
enorm e para esconder a sua decepção.
“Que pobreza!”, pensou ela, ao adentrar o casebre de duas peças.
Um  m orm aço sufocante pairava ali dentro. Não havia cam a nem  rede
para deitar, só um a esteira atirada no chão batido. A m esa, por sua vez, nada
m ais era do que um a tábua com prida deitada sobre duas pilhas de tij olos. Dois
latões vazios de óleo de cozinha, postos de cada lado da m esa, com pletavam  a
m obília.
Mas o que realm ente a incom odara fora a m udança no caráter do esposo.
Desde a chegada, ela percebera que os m odos do galante pescador haviam  se
alterado radicalm ente.
– Deite-se aí! Tem  a esteira inteirinha dando sopa ali.
Iara aproxim ou-se cautelosam ente da esteira toda desfiada. Quando estava
a um  passo dela, porém , retrocedeu instintivam ente: um a lufada de urina seca
explodira nas suas narinas rosadas com o um a bofetada.
– Água e sabão têm  por aí, peixinha. Trate de lim par a casa.
A Mãe-d’Água virou-se para o esposo, m as ele j á saíra. E foi assim  que
com eçou o seu m artírio terrestre.
* * *
O tem po passou, e o m arido da sereia foi ficando cada vez m ais grosseiro.
Já no segundo dia, o tratam ento afetuoso m udou. O dia inteiro era um  tal de
“faça isso!” ou “faça aquilo!” que dava engulhos na pobre m oça.
Dia após dia, a Mãe-d’Água, obrigada a viver naquela m aloca j unto com
um  hom em  tão grosseiro, foi perdendo todo o encanto pelo casam ento.
– Então, é isto viver em  terra? – dizia de si para si.
– O que está reclam ando, agora? – perguntou o m arido.
Ela desvencilhou-se, enoj ada, m as ele agarrou-a brutalm ente.
– Escute aqui! Com igo não tem  choradeira – disse ele.
“Onde está aquele pescador ingênuo e adorável?”, pensou ela.
Então, ela decidiu que, quem  sabe tornando o m arido rico, pudesse torná-lo
novam ente gentil. Graças aos seus dons m ágicos, as bênçãos com eçaram  a
chover sobre o casal, e logo eles estavam  m orando num  palácio à beira-m ar.
Pena que ela tivesse de lim par sozinha todos os trezentos aposentos.
– Não vou pagar criada algum a tendo um a m ulher em  casa! – disse o
pescador, com  m odos ainda piores do que os do tem po da penúria.
Então ela desesperou-se de tudo e, a partir daí, não fez m ais outra coisa na
vida senão postar-se, dia e noite, no j anelão do palácio que dava para o m ar e
entoar seus cânticos aquáticos de saudade.
Infelizm ente, as suas árias delicadas e pungentes só conseguiam  irritar
ainda m ais o m arido.
Um  dia, finalm ente, ela decidiu voltar para casa, custasse o que custasse.


* * *
A Mãe-d’Água sofreu m uito nas m ãos do m arido ao com unicar o seu
desej o, m as, perdendo todo o m edo, resolveu enfrentá-lo.
– Não suporto m ais esta vida em  terra! Quero voltar para j unto dos m eus!
– O que quer j unto dos peixes m alditos?
Neste instante, um  alívio abençoado desceu sobre a Mãe-d’Água. Ela
estava finalm ente liberta, pois o m iserável acabara de m aldizer os seus parentes
do m ar!
De repente, o céu ficou negro e um a onda m edonha com eçou a form ar-se
na linha do horizonte. O pescador arregalou os olhos ao ver a m assa d’água
avançar na direção do palácio e, abandonando a esposa, correu com o um
alucinado para o m orro m ais alto.
As águas invadiram  tudo, cobrindo o palácio dourado até o topo, e quando
refluíram  para dentro do m ar arrastaram  consigo a j ovem  sereia e o palácio
inteiro, até a sua últim a pedra.
E foi assim  que a Mãe-d’Água voltou a m orar nos seus adorados dom ínios,
enquanto o pescador voltou a ser um  pobre-diabo azarado e solitário. Nunca m ais
conseguiu tirar coisa algum a do m ar, nem  m esm o as tatuíras da areia, que lhe
escorriam  ágeis pelos dedos, sem  j am ais deixarem -se agarrar.



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