100 Lendas do Folclore brasileiro



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A PRINCESA DE BAMBULUÁ
Havia, há m uito tem po, um a gruta situada entre duas cidades. Ela era
assom brada, e toda noite a cabeça de um a donzela m eiga surgia para pedir aos
hom ens que nela se aventuravam  que a desencantassem . A j ovem  intitulava-se
“princesa de Bam buluá” e fazia seu pedido aos prantos.
Muitos tentaram , m as o resultado era sem pre um a série de provas rudes
que acabavam  por fazer o pretendente fugir m ata afora.
Certo dia, surgiu por ali um  suj eitinho am arelo e enfezado. Ele estava
exausto e não sabia m ais o que fazer da vida. Depois de sentar-se à entrada da
gruta, com eçou a lam entar-se.
– Estou cansado de ser feio e fraco!
Então, de repente, surgiu flutuando a cabeça da princesa.
– Não quer desencantar-m e, belo j ovem ? – disse ela, na m ais m aviosa das
vozes.
O suj eitinho feioso, que se cham ava João, estava topando qualquer coisa,
ainda m ais um  pedido feito por um a cabeça tão linda. Im ediatam ente ele aceitou
a proposta, m as, antes de desencantá-la, pediu para com er e beber algo. A
cabeça linda levou o suj eitinho para o interior da gruta, onde um a m esa farta pôs
fim  à sua fom e e à sua sede.
– Agora vá até o alto da serra e deite-se debaixo da árvore m ais alta que lá
houver – disse a bela cabeça. – Haj a o que houver, suporte tudo até o fim .
João Am arelo fez o que ela disse e, quando estava deitado debaixo da
árvore, viu chover sobre si um a tem pestade de pauladas, até que ele rolou de
volta para a gruta.
Para sua surpresa, descobriu que a princesa estava desencantada de um
terço do corpo, podendo-se ver j á a figura desde a cabeça até o busto
pudicam ente coberto.
A princesa tratou dos ferim entos do j ovem , m as j á na noite seguinte ele
teve de retornar ao seu calvário, no alto da serra.
– Não se esqueça, suporte tudo sem  reclam ar ou gem er! – disse o busto.
João Am arelo foi e suportou a sova outra vez, voltando para a gruta com o
um a pedra que rola. Para seu consolo, a princesa j á estava desencantada até a
cintura, com  braços e tudo.
– Mais um a noite e estarei com pletam ente desencantada! – disse ela,
enquanto João m ordia os lábios rachados de apreensão: será que aguentaria m ais
um a sova?
Aguentou, sim , m as não foi fácil. Desta vez, os agressores invisíveis
m eteram -no dentro de um  barril cheio de espinhos e cacos de vidro e rolaram -no
pela noite inteira. Ao ver-se de volta à gruta, porém , todo o m artírio foi
recom pensado com  a visão da princesa de Bam buluá totalm ente desencantada.
* * *
A segunda parte com eça com  um a viagem  que João e a princesa fizeram
até um a cidade vizinha.


– Agora parto para m eu reino – disse ela. – Enquanto estiver lá, você
deverá instruir-se aqui na linguagem  dos pássaros e em  todos os dem ais saberes
de um  hom em  que pretende ser m eu esposo.
João prom eteu que estudaria tudo o que fosse preciso.
– De ano em  ano virei vê-lo, até cum prirem -se cinco anos – acrescentou a
princesa. – Minha visita anual será curtíssim a, durando apenas um a hora. Adeus.
João ficou na casa de um a preceptora velha e horrível, m as que possuía
duas filhas j ovens e lindas. Logo nos prim eiros m eses, ao ver que o j ovem ,
apesar de feio e am arelo, era m uito estudioso, a velha decidiu casá-lo com  um a
das filhas.
– A princesa que arrum e outro! – disse ela.
Quando fechou o prim eiro ano, a princesa veio ver João, m as a velha havia
lhe dado um a “dorm ideira”, que é com o se cham am , nos contos de fadas, as
poções para adorm ecer.
Resultado: João não pôde ver a sua adorada princesa, e ela retornou, m uito
frustrada, à corte.
Nos anos seguintes, a coisa se repetiu, e a princesa vinha e partia sem  ver
seu pretendente. Então, ao cum prirem -se os cinco anos, ela chegou à conclusão
de que ele a havia esquecido.
Quando João soube que a princesa não queria m ais vê-lo, entrou em  pânico
e fugiu da casa da velha para encontrar o reino da am ada. Depois de andar por
tudo, foi dar num a casinha à beira-m ar.
– Ó de fora, entre j á e agora! – disse um a vozinha no interior.
João entrou e deparou-se com  um  velho velhíssim o.
– Sente-se – disse o fio de voz, que era quase um  pipilar.
João contou que procurava o reino de Bam buluá.
– Sou o Príncipe dos Pássaros – respondeu o velho. – Pode ser que algum
de m eus súditos saiba lhe indicar o cam inho.
O velho tom ou de um a m atraca e com eçou a girá-la, réc-réc-réc, e surgiu
dos céus um a tam anha nuvem  de pássaros que o dia quase virou noite. As aves
entraram  pelas j anelas e por todos os vãos da casa, e com eçaram  a atacar o
j ovem , j ulgando-o um  inim igo.
Depois que o velho acalm ou as aves, fez um  inquérito para saber qual delas
sabia o cam inho para o reino de Bam buluá.
Nenhum a sabia.
– Então só lhe resta ir am anhã bem  cedo perguntar a m eu pai onde fica –
disse o velho.
– Seu pai? – exclam ou João, incrédulo de que aquele velho ainda pudesse
ter pai.
– Ele é o Rei dos Pássaros e m ora lá, em  tal lugar – disse o Príncipe dos
Pássaros, que, pelo andar da carruagem , parecia que j am ais chegaria a ser rei.
A casa do Rei dos Pássaros ficava na encosta de um  m orro. O tal rei era
tão velho que m ais parecia um a bola de penas encolhida j unto à lareira.
– Rei dos Pássaros, preciso saber onde fica o reino de Bam buluá – disse o
visitante.
Dentre os dedos recurvos do velho pássaro estava um  apito de prata, que


ele levou à boca. Um  assovio estridente escapou do apito, e nova nuvem  de aves
tapou o sol e o céu. A passarada quis botar-se inteira, tam bém , contra o
forasteiro, m as o Rei im pediu o m assacre.
– Digam  onde fica o reino que o j ovem  procura – ordenou o velho.
Infelizm ente, ninguém  sabia, e só restou ao Rei dos Pássaros sugerir ao
visitante que fosse fazer um a visita ao seu pai, o Im perador dos Pássaros.
– Como? – disse o j ovem , no lim ite da incredulidade.
– A sua casa fica em  tal lugar – disse o Rei. – Ele é im perador, e
im peradores sabem  de tudo.
João saiu e subiu um a colina enorm e até deparar-se com  um a casinha
branca. Desta vez, ninguém  m andou-o entrar, o que ele fez por conta própria. Na
pequena sala, não havia nada senão um a cabaça suspensa num  gancho em  cim a
do fogo. João olhou para dentro e viu um  pequeno pássaro, todo enrolado em
ram as de algodão. Era o poderoso Im perador dos Pássaros.
– Senhor Im perador, pelo am or de todas as aves do m undo, diga-m e onde
fica o reino de Bam buluá ou vou m orrer de desgosto e exaustão!
O Im perador, m ovido pela piedade, tom ou das ram as do algodão um  osso
de em a e assoprou por entre os furos. Um  ruído fino m as estridente cortou os
ares, e foi tudo de novo, o bando de pássaros, depois as bicadas no intruso, até que
confessaram  não saber de nada.
Um  urubu velho e depenado, no entanto, que ficara num  canto, parecia
saber finalm ente a resposta.
– O reino de Bam buluá fica para além  do Inferno, m as antes é preciso
sobrevoar a caldeira do Diabo.
O Im perador dos Pássaros ordenou a João que desse um  boi inteiro para o
urubu com er, pois seria ele a sua m ontaria para transpor o fogo do Inferno.
– Ele? – disse João, ao ver o urubu quase pelado.
– Dê-lhe de com er e am anhã estará com o um  gavião – disse o im perador.
O urubu com eu o boi inteiro e readquiriu, com o por m ágica, todas as suas
penas. No m esm o instante, João m ontou nas costas da ave, e puseram -se a
cam inho do reino da am ada princesa.
João fechou os olhos, e tudo o que conheceu do inferno transposto foi um
calor enorm e no traseiro. Então, quando sentiu um a brisa divinam ente
refrescante, reabriu os olhos e viu-se num a cam pina verde e am ena. O urubu
deu-lhe adeus, e João seguiu sozinho até avistar, no topo de um a m ontanha, um
palácio realm ente deslum brante. No cam inho do palácio, ele parou na casa de
um a velha solícita.
– Faça um  pouso aqui, j ovem  andarilho – disse ela.
Então, sem  dizer nada, a velha sacou um  violino estropiado e com eçou a
tocar um a m istura estridente de valsa e m azurca. João pediu para a velha lhe dar
o instrum ento.
– Tenho cordas novas – disse ele, pois a princesa lhe dera um  conj unto
antes de partir.
João trocou as cordas e com eçou a tocar ele m esm o. As cordas eram
encantadas, e logo a velha com eçou a requebrar-se feito doida. Em  pouco
tem po, todo m undo que passava na rua entrava e punha-se tam bém  a dançar


freneticam ente.
Um a m ensageira tinha sido enviada ao palácio para pedir com ida. Ao
chegar de volta, porém , ela atirou o tabuleiro para cim a e saiu dançando j unto
com  os outros. Enquanto isso, no palácio, m andaram  outra m ensageira com  m ais
com ida, im aginando que a prim eira tivesse se perdido. Resultado: a segunda
tam bém  caiu na dança, e todos no palácio ficaram  ainda m ais intrigados.
– Que alaúza se passa lá em baixo? – perguntou a rainha, afinal.
Após j untar-se com  as suas dam as de com panhia, a digníssim a senhora foi
ver pessoalm ente o que se passava e term inou, ela tam bém , caindo na dança.
Logo em  seguida, o rei foi ver o que houvera com  a rainha e não deu outra,
caindo ele tam bém  na festa.
Todos estariam  dançando até hoj e se João não tivesse posto um  fim  à sua
arte.
– Minha filha se casa am anhã – esbravej ou o rei. – Você há de tocar na
festa ou então terá sua cabeça cortada!
Quando João chegou ao palácio, a princesa reconheceu nele
im ediatam ente o antigo benfeitor. Sem  pestanej ar, ela anunciou ao pai que não
se casaria m ais com  o seu noivo, um  oficial enfadonho de bigodes encerados
com o ganchos, m as com  o seu prim eiro e verdadeiro am or, o tocador de rabeca.



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