100 Lendas do Folclore brasileiro



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COMO SURG IU O DIA
Os índios do Xingu têm  um a lenda m uito divertida e original para explicar
a origem  do dia. A originalidade com eça pelo fato de o sol nada ter a ver com  a
lum inosidade ou com  o dia, tal com o acontece na Bíblia. Tanto o Sol quanto a
Lua estavam  im ersos na m esm a treva dos hom ens, sendo os vaga-lum es a única
fonte de luz naqueles dias, ou antes, naquelas noites.
Mas a verdade é que a luz dos vaga-lum es era m uito pouca e rarefeita, e
ninguém  aguentava m ais viver nas trevas. Então, certa noite, dois gêm eos
cham ados Inaê e Porã resolveram  colocar um  ponto final nesse problem a.
– Você sabe perfeitam ente que o urubu-rei é o dono da luz – disse Inaê ao
Sol. – Até quando vai perm anecer inerte, sem  fazer um  acordo com  ele?
O Sol, im erso na treva, coçou a cabeça e disse:
– As coisas não são tão fáceis assim . Ter a propriedade exclusiva da luz faz
do urubu-rei um  ser m uito poderoso. Ninguém  abre m ão de um  poder por
sim ples liberalidade.
– Ora, o urubu não ficará sem  luz, apenas a dividirá conosco! – exclam ou
Inaê.
– E perderá, assim , o trunfo suprem o da exclusividade da luz – com pletou o
Sol.
– Ora, m as a luz é para todos!
– Muito bem , se o urubu-rei não quiser dividir por bem  a luz conosco,
irem os tom á-la por outro m eio! – exclam ou o Sol, determ inado.
Os gêm eos expuseram  então um  plano e, na m esm a noite, trataram  de
confeccionar um a anta de m adeira, colocando dentro dela um  m onte de esterco.
Não dem orou m uito, e os escaravelhos com eçaram  a entrar e a sair da anta
pelas frestas, carregando suas bolas fedorentas.
– Muito bem , j á tem os o bastante! – disse o Sol, m andando em brulhar os
escaravelhos.
O Sol convocou, então, as m oscas para que levassem  o em brulho para o
urubu-rei.
– O que querem ? – disse o urubu a um a das m oscas.
Com o não entendia o que as m oscas diziam , o Sol m andou buscar o j apim .
O j apim  é um  pássaro versado no canto de todas as aves, do qual, m ais
adiante, lerem os um a lenda. Infelizm ente, neste caso, com o se tratavam  de
m oscas, o pássaro tradutor nada pôde fazer.
– Melhor cham ar m eu prim o – disse o j apim .
O urubu-rei fez cara feia e m andou cham ar o tal prim o, um  certo j oão-
conguinho que, apesar de ser m enor do que o j apim , dizia entender o idiom a dos
insetos.
A avezinha veio e, na hora, decifrou o zum bido da m osca.
– Elas trazem  um  presente da Terra das Trevas para o Senhor da Luz.
– Muito bem , diga então que o presente está aceito, e que voem  todos de
volta para as trevas! – disse o urubu-rei, apoderando-se avidam ente do em brulho,
pois um  odor de podridão havia atiçado aquela m áscara que recobre o orifício


nasal do urubu e da m aioria das aves.
– Escaravelhos com  bolinhos de esterco! – exclam ou ele, devorando, em
questão de segundos, todo o em brulho.
Aquilo fora tão bom  que o soberano decidiu convocar um a reunião de
em ergência do seu Conselho.
– Lá na Terra das Trevas deve ter, por certo, m uito m ais desses quitutes
saborosíssim os! – disse o urubu-rei aos conselheiros, um  bando de urubus que só
sabiam  balançar a cabeça de cim a para baixo toda vez que o rei falava.
Na m esm a hora o urubu organizou um a com itiva para ir até a Terra das
Trevas. Junto com  ele iriam  aves de todos os tipos, e não só urubus.
Enquanto isso, na aldeia trevosa, o Sol e a Lua j á estavam  dentro da anta de
m adeira.
– Tudo pela abençoada luz! – dizia o Sol, até que o urubu-rei chegou, afinal,
com  a sua com itiva.
– Querem os m ais quitutes daqueles! – ordenou ele, com o um  conquistador.
Im ediatam ente as m oscas lhe apontaram  a anta gigante, toda coberta de
escaravelhos e suas bolinhas de esterco. Todas as aves se arrem essaram , num
voo alucinado, na direção do boneco.
Neste instante, o Sol aproveitou para espiar no buraco destinado aos olhos,
para ver se o urubu tam bém  vinha. Mas o gavião, que ficara no ar, fiscalizando
tudo, percebeu o perigo e deu o alerta:
– Cuidado, m aj estade! O boneco m exeu os olhos!
Mas a gula era tanta que nem  m esm o o urubu-rei teve ouvidos para escutar
a advertência. Logo, todas as aves estavam  sobre a anta de m entira,
abocanhando todos os escaravelhos que enxergavam .
Então, quando a com ilança estava no auge, o Sol espichou o braço para
fora e agarrou a perna do urubu-rei. Um  grasnido aterrador escapou da sua
garganta, fazendo as outras aves levantarem  voo e desaparecerem  nos céus. Só o
urubu-rei perm aneceu prisioneiro na desolada Terra das Trevas, j unto com  o
j acubim , um a avezinha valente que não costum ava fugir da luta quando as coisas
iam  m al.
– Solte-m e! – gritava o urubu-rei.
– Dê-nos o dia e poderá voltar para o seu reino!
O urubu-rei renitiu o quanto pôde, m as teve, afinal, de ceder.
– Vá buscar a arara verm elha! – disse o urubu-rei ao j acubim .
A arara verm elha era a portadora da luz e, depois de algum as horas,
retornou j unto com  o j acubim . Assim  que a ave de penas escarlates pousou num
galho alto, o dia com eçou a raiar pela prim eira vez para os índios da Terra das
Trevas.
Um  coro de espanto subiu aos céus, e o Sol foi colocar-se no seu lugar.
– Quando o dia term inar, será a sua vez de ir ocupar o lugar do Sol – disse o
urubu à Lua.


Os índios do Xingu ficaram  tão agradecidos ao urubu-rei que, desde esse
dia, passaram  a depositar oferendas regulares de carne apodrecida nos lugares
altos da aldeia ao generoso doador da luz.



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