100 Lendas do Folclore brasileiro



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A CURA DA VELHICE
Os índios kadiuéus contam  que havia, certa feita, um  padre que tom ara a
resolução de curar os velhos de todas as suas doenças.
– Cure-os da velhice, e os terá curado das doenças – corrigiu-lhe um  dia
um  paj é m ais astuto.
Esse padre, porém , não tinha tanto poder assim  e decidiu ir procurar quem
o tivesse. Era sabido entre os kadiuéus que um  certo Gô-Noêno-Hôdi tinha o
poder de pôr fim  aos torm entos da velhice.
– Vou procurá-lo! – disse im ediatam ente o santo hom em , esquecido até do
seu deus.
– Ninguém  sabe direito onde ele vive – respondeu o paj é.
– Pois irei descobri-lo! – insistiu o padre, determ inado.
O padre entrou pela m ata e foi em  busca do local onde diziam  viver esse
ser poderoso. Enquanto andava, ia conversando com  as árvores, pois recebera
dos céus este dom . Ao avistar um a árvore seca e velha, parou para dirigir-lhe
algum as palavras:
– Com o vai, m inha am iga?
– Mal, m uito m al! – gem eu a árvore. – Só aguardo, agora, o incêndio que
há de vir na floresta para ver m eus dias se acabarem !
– Isso não há de ser assim , pois vou em  busca de Gô-Noêno-Hôdi. Pode
m e dizer com o faço para encontrá-lo?
Então, a árvore fez o bom  hom em  entrar em  contato com  um  espírito das
m atas, que o guiou até o esconderij o do xam ã da floresta. Não havia nada ali de
fabuloso, e tudo parecia com o nas outras aldeias. A m ulher que se aproxim ou do
padre era do m esm o feitio das outras.
– O que desej a? – disse ela. – Você não é daqui.
O padre explicou que procurava o taum aturgo das m atas, e ela apontou-lhe
um a choça.
Im ediatam ente, o padre foi até lá e deu de cara com  um  velho.
– O senhor é Gô-Noêno-Hôdi?
– Não – respondeu o velho. – Siga adiante até chegar àquela casa.
O padre foi e perguntou:
– O senhor é Gô-Noêno-Hôdi?
– Não, sou apenas o cabelo dele.
“Há algum a brincadeira aqui!”, pensou o padre, j á irritado.
O padre passou por quatro ou cinco casas m ais, escutando sem pre
respostas parecidas.
“Pelo j eito esse suj eito foi deixando um  pedaço de si em  cada casa”,
pensou ele, j á convicto de que, quando encontrasse afinal Gô-Noêno-Hôdi, nada
encontraria.
Então a voz do espírito lhe disse que a próxim a casa era a tal.
– Mas cuidado! – alertou a vozinha. – Não fum e nada que ele lhe oferecer!
O padre entrou e avistou-se, finalm ente, com  o ser m isterioso, e a prim eira
coisa que ele fez foi lhe oferecer o tal cachim bo. O padre fez que não viu e
com eçou a falar.


– Grande sábio, venho em  busca de conhecim ento.
Gô-Noêno-Hôdi não respondeu, m as lhe ofereceu um  cigarro de palha.
A vozinha que estava abrigada na cova da orelha do padre lhe disse que
tam bém  não aceitasse, e o padre tam bém  fez que não ouviu esse novo
oferecim ento.
Diante disso, o m ago silvestre rendeu-se.
– Parabéns, você escapou duas vezes de virar um a fera – disse ele. – O
cachim bo tinha excrem ento de onça, e o cigarro tam bém .
Então, o sábio perguntou ao padre o que ele queria.
– Quero um  rem édio para rej uvenescer os velhos e tam bém  as árvores.
O sábio olhou para dentro da sua choça e gritou:
– Minha filha, traga os pentes.
Então a vozinha interior gritou ao padre que não a olhasse, pois doutro
m odo a engravidaria. A m oça entrou com  os tais pentes, m as o padre desviou os
olhos para o pó do chão.
– Penteie os cabelos do m orto com  um  destes pentes, e ele voltará a viver.
Mas faça isso no m esm o dia da sua m orte.
O padre ia responder que não pedira um  rem édio para ressuscitar, m as
para rej uvenescer, m as achou m elhor se calar. Decerto que, ao ressuscitar, o
m orto voltaria a ser j ovem .
– E quanto às árvores? – disse o padre.
– Minha filha, traga a resina – disse o taum aturgo.
A filha trouxe, e o padre colou os olhos, de novo, no chão. Quando os
ergueu, porém , viu que a choça se transform ara num a casa bonita, no centro da
qual havia um a m esa enorm e.
– Passe nela a resina – disse o m ago.
O padre lam buzou a m esa, e da m adeira com eçou a brotar um a vegetação
espessa. Dali a pouco, a m esa se converteu num a árvore que cresceu
desm esuradam ente até furar o teto da casa. Agora havia um a árvore encravada
bem  no m eio do salão.
Então o padre achou que j á era hora de partir. Tom ando os pentes e a
resina, ele ganhou a picada que levava para fora da m ata, e j á ia bem  adiante
quando escutou às suas costas a voz da filha do bruxo.
– Espere, espere! O senhor esqueceu o fum o!
Pressentindo um a cilada, o padre apertou o passo, sem  voltar-se para trás.
A j ovem , no entanto, foi m ais rápida do que ele e conseguiu ir postar-se à sua
frente.
– Tom e o seu fum o! – disse ela.
O padre desceu os olhos, outra vez, para o chão, só que desta vez enxergou,
por inadvertência, o dedo do pé da j ovem , e foi o que bastou para ela engravidar.
O padre foi inform ado de que estava proibido, desde aquele instante, de
deixar os lim ites da aldeia, m as m esm o assim  insistiu em  partir.
– Deixem -m e ir! Tenho de curar os velhos e as árvores da velhice!
Diz a lenda que ele partiu, m as que, logo em  seguida, m orreu, tendo de
retornar à aldeia m isteriosa para criar o seu filho. E lá continua até hoj e,
prisioneiro perpétuo de um  sonho vão.



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