100 Lendas do Folclore brasileiro


POR Q UE ONÇA NÃO G OSTA DE G ENTE



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POR Q UE ONÇA NÃO G OSTA DE G ENTE
Os índios kay após explicam  da seguinte m aneira a razão de a onça detestar
gente.
Tudo com eçou quando um  índio viu-se abandonado no alto de um  ninho de
araras. Ele subira lá para pegar alguns ovos, m as term inara abandonado pelo
irm ão depois de, por descuido, ter-lhe j ogado pedras em  vez dos ovos.
O tem po passou, e o índio, que se cham ava Botoque, j á estava quase m orto
de fom e quando um a onça apareceu.
– Quer um a aj uda para descer? – disse a pintada, ao ver o índio sozinho lá
no alto.
Apesar de esfom eado, o índio achou m elhor não ir na conversa da onça.
– Não, obrigado. Você quer é m e com er!
A onça j urou que não o faria.
Depois de m uita negociação, Botoque finalm ente desceu, e a onça, caso
raro em  episódios desta natureza, nada fez para com er o índio. Em  vez disso,
deixou que ele m ontasse nas suas costas.
– Vam os para a m inha casa. Lá tem  carne assada à vontade!
Botoque, m ais m orto do que vivo, foi sacolej ando de bruços nas costas da
onça até a casa onde ela m orava.
A m ulher da onça, contudo, não gostou de Botoque.
– Qual Botoque! – disse ela, antipatizando logo com  o forasteiro.
Depois, voltando-se para o esposo, alertou-o:
– Deixe de ser ingênuo, que eu conheço essa gente! Essa é um a raça
m ofina e ingrata!
Mas a onça fez ouvidos m oucos e instalou o índio na casa e m andou-o
servir-se à vontade da carne assada que abundava por cim a das grelhas.
Botoque, que nunca tinha visto carne assada, adorou. Na verdade, a sua
gente não conhecia sequer o fogo, e foi com  grande espanto que ele viu a onça
acendê-lo num  tronco de j atobá.
E a m ulher sem pre reclam ando.
– Deixa de ser bobo, olha que essa raça é traiçoeira!
Então, no dia seguinte, quando a onça saiu para caçar outra vez, a fêm ea
com eçou a azucrinar o índio, tratando-o da pior m aneira possível, obrigando-o a
esconder-se até a volta da onça.
Quando o felino voltou, resolveu ensinar ao afilhado o uso do arco.
– Olha só! – exclam ou a fêm ea, levando as duas m ãos à cabeça. – Ficou
louco de vez?
Mas a onça gostava cada vez m ais da com panhia do j ovem , e ensinou-lhe
todas as artes do arco com  tam anho gosto que logo Botoque tornou-se quase tão
hábil quanto o seu m estre.
Então, quando a m ulher da onça com eçou a persegui-lo novam ente, na
ausência do esposo, Botoque não teve dúvida e arrem essou um a flechada
certeira no peito dela, m atando-a na hora.
Depois disso, Botoque fugiu, não sem  antes levar um  farnel inteiro com  a
carne assada da grelha. Ao chegar na sua aldeia, contou tudo quanto se passara


no covil da onça.
– Ela sabe m anej ar o fogo e assar carne com o ninguém !
A boca dos índios encheu-se de água, e todos pediram  a Botoque que os
levasse até lá.
– Nós precisam os do fogo! – disse o cacique.
Então eles retornaram  às pressas à casa da onça. Com o ela ainda devia
dem orar, os índios puseram -se a recolher toda a carne assada, além  de assarem
as que ainda estavam  cruas e gotej antes de sangue. Depois, ensacaram  tudo e
não deixaram  nada para a onça.
Mas o pior foi terem  carregado consigo o tronco de j atobá onde a onça
costum ava acender o seu fogo, não deixando nada ali senão, por descuido, um a
pequena brasinha, que o pássaro azulão recolheu com  o bico para levar ao seu
ninho a fim  de esquentá-lo nas noites frias de inverno.
Quando a noite caiu, a onça finalm ente retornou e descobriu que não havia
carne nem  fogo, e que a sua m ulher estava m orta, varada por um a flecha.
– Pobre esposa, você estava certa: essa raça é m ofina m esm o! – disse ele,
envergonhado.
Desde então, de tanto desgosto, a onça ficou sem  fogo algum , e um  brilho
am arelo nas suas pupilas foi tudo quanto dele restou. Desaprendeu, tam bém , as
artes do arco e da flecha, de tal m odo que suas arm as passaram  a ser apenas as
suas presas e as suas garras de unhas longas e aduncas.



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