100 Lendas do Folclore brasileiro



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A CABEÇA Q UE VIROU LUA
Os índios kaxináuas explicam  de um a m aneira realm ente curiosa o
surgim ento da lua.
A história com eça com  um a caçada à cutia, um  roedor das m atas. Dois
índios haviam  acabado de caçá-la e retornavam  à oca de um  deles.
– Hoj e irei apresentá-lo à m inha m ulher – disse o prim eiro.
Quando chegaram  diante da oca, porém , o solteiro não quis entrar.
– Tenho vergonha de apresentar-m e assim  – disse ele, todo suado e
despenteado.
O dono da casa m andou ele esperar ali fora e retornou em  seguida com
alguns itens de higiene. O índio tím ido deu um a lim pada no suor, aj eitou os
cabelos e colocou alguns enfeites.
– Pronto, está perfeitam ente apresentável – disse o anfitrião, introduzindo o
am igo na oca.
O m arido ordenou rispidam ente à esposa que desse de com er ao am igo.
– Dê-lhe toda com ida que houver! Quero que com a até estourar!
A j ovem  índia trouxe um  alguidar repleto de com ida. Havia m ingau,
m acaxeira, bananas de todos os tipos, cruas e assadas, inham e, pipoca e um
m undo de outras com idas.
O visitante com eu o quanto pôde e depois guardou o resto num  farnel para
levar para casa.
– Muito obrigado pela acolhida, m as j á é tarde e devo partir – disse ele,
afinal.
– Vou com  você – disse o anfitrião, tom ando um  facão antes de sair.
– Para que o facão?
– Vou cortar m adeira. Estou fazendo um a enxada e preciso de um  cabo.
Os dois partiram  e, no m eio do cam inho, o anfitrião desfez todas as
gentilezas ao cortar fora a cabeça do outro, sem  qualquer explicação.
A cabeça rolou pelo chão, m as o corpo perm aneceu em  pé, recusando-se
a m orrer. Enraivecido, o m atador caiu de facão sobre o corpo até prostrá-lo sem
vida.
Enquanto isso, a cabeça, em bora caída sobre o solo, perm anecia viva.
– Que está olhando? – rugiu o m atador.
A cabeça não disse nada, m as as pálpebras bateram  várias vezes.
Diante do que j ulgou um a afronta, o m atador cortou um  pedaço de pau
com  o facão, aguçou-o e enfiou a cabeça na ponta. Depois, colocou o m arco
m acabro bem  no m eio do cam inho e deu no pé.
Logo em  seguida surgiu outro índio, tam bém  caçador, que tom ou um
grande susto ao ver aquela cabeça espetada na encruzilhada.
– Quero ver direito o que é isto! – disse ele, indo pé ante pé.
Ao chegar m ais perto, viu que a cabeça ainda batia as pálpebras,
derram ando lágrim as enorm es, e seu coração encheu-se de terror.
– Anhangá! – gritou ele, certo de estar diante de um a visagem .
Enquanto fugia, porém , deu-se conta de que aquela cabeça pertencia a um
m em bro de sua tribo e foi correndo contar aos restantes.


– Nosso irm ão foi m orto, e sua cabeça j az espetada no m eio da m ata!
Ao saberem  da notícia, todos da tribo j untaram -se e foram  ver o prodígio.
Um a m ultidão de índios cercou a cabeça com o se fossem  consulentes ávidos de
um  oráculo das m atas. Só que a boca, apesar de bater os lábios, não conseguia
em itir um a única palavra.
Então um  índio m ais destem ido arrancou a cabeça do poste e atirou-a num
cesto.
– Vam os em bora, na aldeia verem os o que se há de fazer! – disse ele,
partindo.
Os índios seguiram  atrás do valentão do cesto, até que, dados alguns passos,
a cabeça varou a parte de baixo do sam burá e caiu quicando no chão. Os que
vinham  atrás com eçaram  a pular, esquivando-se da cabeça com o se fosse de
fogo, até que ela parou de rolar ao alcançar um  barranco.
– Vam os, coloque-a em  outro cesto! – disse o líder.
A cabeça foi acom odada e a procissão recom eçou, até o instante em  que a
cabeça, a poder de dentadas, arrom bou a tram a do fundo outra vez. Um a nova e
frenética dança recom eçou até alguém  sugerir que deveriam  retornar para
enterrar o tronco do índio m orto.
– Enterrado o corpo, a cabeça sossega – disse o sabichão.
Quatro índios retornaram  e enterraram  o corpo. Ao voltarem , porém , para
a com panhia dos dem ais, encontraram -nos aos pulos, pois agora a cabeça, além
de quicar, queria m order a todos.
– Coloque-a num  cesto forrado e leve-a nas costas! – gritou o chefe a um
índio parrudo.
O índio fez o que o chefe m andara, e a com itiva retom ou a m archa.
De repente, porém , escutou-se um  berro agoniado. Todos voltaram -se e
viram , estarrecidos, a cabeça ensandecida com  os dentes na orelha do índio.
– Socorro, acudam ! – guinchava o pobre coitado.
Então, o chefe tom ou um a decisão realm ente sábia.
– Deixem  essa cabeça aí m esm o! Ela deve estar am aldiçoada e só irá
espalhar m alefícios pela aldeia!
Todos concordaram  a um a só voz, m enos a cabeça, que ao ver-se só e
abandonada com eçou a quicar velozm ente atrás deles.
Então, foi um  espalhar de índios em  todas as direções. Alguns buscaram  a
salvação ao avistarem  um  rio de águas revoltas
– Mergulhem os! Cabeça nenhum a sabe nadar!
Todos caíram  na água e bracej aram  com  fúria até alcançarem  a outra
m argem . Estirados na relva, ensopados e sem  fôlego, eles relancearam  um  olhar
para a correnteza do rio.
– É ela! – gritou um  deles. – Anhangá vem  vindo!
E vinha m esm o. Fazendo das orelhas duas nadadeiras, a cabeça avançava
velozm ente, espalhando água para todos os lados.
Então os índios reuniram  o que lhes restava de fôlego e treparam , com  a
agilidade de onças, num  pé de bacupari. Lá do alto eles viram  quando a cabeça,


após sair da água, sacudindo-se e cuspindo água com o um  chafariz, com eçou a
rolar sinistram ente até a base da árvore.
Naquela árvore havia, agora, m ais índios do que frutos dependurados.
– Desçam  ou sacudirei esta porcaria até caírem  todos! – rugiu a cabeça,
adquirindo, subitam ente, o dom  da fala.
Ao ver que ninguém  a obedecia, a cabeça com eçou a dar m arradas no
tronco, com o um  cabrito, enquanto os índios balançavam  no alto com o folhas
num  vendaval.
De repente, porém , a cabeça parou, talvez m eio tonta com  tudo aquilo.
– Antes de descerem , deem -m e algum as frutas, pois fiquei com  fom e! –
gritou ela.
Instantaneam ente com eçaram  a chover frutos sobre a cabeça esfom eada.
Ela deu algum as dentadas nos frutos, m as cuspiu tudo, enoj ada.
– Pfúi! Estão verdes! Deem -m e os m aduros!
Desses, ela gostou. Pena que, ao engoli-los, eles lhe saíam  pelo pescoço
cortado, sem  nunca m atar-lhe a fom e. Mesm o assim , continuava com endo-os.
Então, um  dos índios trepados teve um a boa ideia.
– Joguem  longe os frutos! Assim  poderem os fugir enquanto ela vai buscá-
los!
Os frutos foram  arrem essados o m ais longe possível, e a cabeça saiu
rolando para apanhá-los.
– É agora! – gritou o autor da ideia.
Num a só vez, despencaram  todos os índios. Nem  bem  seus pés haviam
tocado o solo, puseram -se a correr para a aldeia feito lunáticos. Ao chegarem  lá,
encerraram -se todos em  suas ocas e ficaram  esperando o pior, que era a
chegada da cabeça m aldita.
Todos espiavam  por entre as frestas das ocas, até que se escutou, cada vez
m ais nítido, um  tum -tum -tum  sinistro crescer de dentro da m ata.
– Anhangá! É ela! – gritaram  vozes esganiçadas de todos os sexos.
A cabeça finalm ente surgiu e foi postar-se no centro da taba. Apenas
algum as tochas ilum inavam  o tétrico cenário, pois naquele tem po ainda não
havia lum inária algum a nos céus.
– Toleirões! Se não m e deixarem  entrar em  suas ocas vou lançar um a
m aldição que vai reduzir sua aldeia a cinzas!
O silêncio, porém , perm aneceu, e então a cabeça passou a gritar um a
m istura incoerente de prom essas e am eaças, que só serviu para aterrorizar ainda
m ais os índios.
– Não m e deixarão entrar, então, m alditos? Pois saibam  que, a partir de
hoj e, subirei aos céus e m e converterei na lua! Minha cabeça será a lua, e m eus
olhos, as estrelas! Aparecerei em  quartos, e quando fizer m inha prim eira
aparição as m ulheres sangrarão, e quando estiver com pleta nos céus os cães e os
doidos se porão a uivar para m im !
Neste instante, um  urubu desceu dos céus, farfalhando suas asas negras.


Depois de enterrar suas unhas aduncas nos cabelos desgrenhados da cabeça, a
ave subiu, levando-a consigo.
Todos viram , abandonando suas ocas, quando o urubu gigante depositou a
cabeça no alto do céu. Im ediatam ente ela com eçou a fosforescer em  prateado, e
das suas órbitas espocaram  m ilhares de faíscas da m esm a cor que, após se
espalharem  por todos os quadrantes, se converteram  em  estrelas.
E foi assim  que, segundo os kaxináuas, a lua surgiu.



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