100 Lendas do Folclore brasileiro



Baixar 0.75 Mb.
Pdf preview
Página11/97
Encontro07.02.2022
Tamanho0.75 Mb.
#21490
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   97
as-100-melhores-lendas-do-folclore-brasileiro-a-s-franchini
KONEWÓ E AS ONÇAS
E j á que se falou de onças, nada m elhor do que referir algum as disputas de
Konewó contra as onças, pois os taulipangs, especialm ente as crianças, parecem
adorá-las com  seu ritm o ágil de desenho anim ado.
Konewó é um  índio que parecia ter nascido para disputar com  as bichanas.
Certo dia, ele estava sentado, encostado a um a árvore, quando um a onça chegou
e perguntou:
– Por que está aí sentado, a escorar esta árvore?
– Para que ela não caia – respondeu Konewó, secam ente. – Todas as
árvores estão por cair. Por que não faz o m esm o que eu com  aquela outra árvore
ali?
A onça viu um a árvore que parecia prestes a ruir e achou que seria um a
boa distração ficar escorando-a, pois não tinha nada m elhor para fazer.
Depois de encostar-se ao tronco, a onça fechou os olhos, sentindo-se
vagam ente virtuosa.
“De vez em  quando é bom  ser útil”, pensou, vaidosa da sua virtude.
Mas a virtude logo transform ou-se em  sono, e, quando a onça com eçou a
roncar, Konewó ergueu-se e, ligeirinho, am arrou-a ao tronco com  cordas
trançadas de cipó.
Konewó desapareceu, a reprim ir o riso, e a onça só acordou algum as horas
depois, com pletam ente im obilizada.
Os dias se passaram  e ela j á estava quase m orta de fom e quando um
m acaco surgiu.
– O que faz aí, toda am arrada à árvore?
– Fui am arrada, não está vendo? – rugiu a fera. – Vam os, solte-m e j á!
– Ah, isso eu não faço, não! Se soltá-la, você m e com e!
– Não com erei, dou-lhe m inha palavra!
O m acaco não foi m uito atrás da onça, e ela precisou insistir várias vezes
para que ele finalm ente se decidisse a arriscar o pelo. Com  toda a cautela, ele
desam arrou a onça, e só por isso escapou vivo. Atento, assim  que viu a pata
peluda eriçar as unhas na sua direção, deu um  pulo para longe.
O m acaco desapareceu dentro da m ata, enquanto a onça ficou
m aquinando a sua vingança contra o índio que a aprisionara. Depois de andar
m uito, farej ando o rastro de Konewó, ela finalm ente encontrou o seu desafeto,
desta vez escorado num a rocha.
– Ah! Aí está você! – disse ela, pulando à frente do índio. – Desta vez você
m e paga!
Konewó olhou serenam ente para a onça.
– O que quer? – disse ele, friam ente.
– Vingança!
Ao observar, porém , a calm a do índio, a onça não pôde deixar de
perguntar-lhe:
– Ei! O que faz escorado aí nesse pedregulho?
– Estou im pedindo que ele caia. Todos os rochedos estão por cair.


Konewó, então, olhou para o lado e apontou outro rochedo dez vezes m aior.
– Se você fosse um a onça realm ente útil, faria com o eu, im pedindo que
aquele rochedo caia.
Um a espécie de nuvem  estúpida desceu sobre a m ente da onça, obrigando-
a a ir tom ar o seu lugar, m as assim  que ela o fez, o índio ergueu-se.
– Espere aí, sabichão, onde pensa que vai? – gritou ela.
– Tive um a excelente ideia para poupar-m e trabalho. Vou procurar um
tronco para fazer um a escora e assim  livrar-m e de ficar o resto da vida
escorando a m inha pedra.
A onça sentiu o pedregulho chacoalhar às suas costas e deu um  grito:
–Traga um a escora para m im  tam bém !
Konewó sum iu e nunca m ais apareceu com  escora algum a. Quanto à
onça, das duas um a: ou está lá até hoj e, escorando o pedregulho, ou term inou
sepultada viva pelo desabam ento.
* * *
Konewó tam bém  gostava de passar a conversa nos hom ens brancos, pois
era crença de m uitos índios que as onças haviam  sido gente antes de virarem  o
que são hoj e.
Certo dia Konewó achou um  gam bá e introduziu debaixo do seu rabo um
punhado de m oedas de prata. Depois, andando por ali, cruzou com  um  hom em
branco carregando um a rede novinha em  folha.
– Bela rede! – disse Konewó. – Quer trocá-la por um  gam bá que bota
m oedas de prata?
– Está m e achando com  cara de bobo, é?
Então, Konewó apertou a barriga do gam bá, e as m oedas saltaram  por
debaixo do rabo.
O hom em  branco ficou pasm o.
– E esse fedorento faz isso m uitas vezes por dia? – perguntou ele.
– Quantas vezes lhe apertarem  o ventre – respondeu o índio, apertando
outra vez o bucho do gam bá.
As m oedas saltaram  outra vez, e o hom em  branco fez o negócio na hora.
Assim  que o índio afastou-se, o hom em  branco ergueu o rabo do gam bá e
quase enfiou o olho lá dentro.
– Vam os ver isto! – disse ele, apertando com  toda a força a barriga do
coitado.
Só que, desta vez, a única coisa que espirrou foi um  j ato fedorento de fezes.
* * *
Mais adiante, Konewó aplicou um  golpe parecido em  outro civilizado.


Depois de pendurar algum as m oedas em  alguns galhos de um a árvore, cham ou o
prim eiro que enxergou.
– Vej a, hom em  branco, esta árvore dá dinheiro! – disse ele.
O hom em  em basbacou-se. Ele estava cheio de m ercadorias que atraíram
a cobiça do índio.
– Se você m e der todas as suas m ercadorias, entrego a você esta árvore
m ágica.
O hom em  branco olhou para o seu farnel e depois para a árvore, ainda em
dúvida.
– Quantas vezes por ano ela dá m oedas assim ? Estou vendo poucas ali.
– É que estou no fim  da colheita – disse o índio. – Mas não se preocupe,
pois esta árvore dá m oedas o ano todo. Esta j á é a décim a colheita!
Fechado o negócio, o índio tratou de pegar o dinheiro e dar o fora, enquanto
o hom em  branco olhava para a m eia dúzia de m oedas penduradas nos galhos
altos. Im paciente, ele com eçou a chacoalhar o tronco, e duas m oedinhas caíram
j unto com  um a porção de folhas.
Ainda m ais im paciente, ele continuou a chacoalhar até que um  galho
despencou e quase rachou a sua cabeça, e isto foi tudo que ele viu cair, depois do
prim eiro chacoalhão, da árvore am aldiçoada.
* * *
Mas os golpes prediletos de Konewó eram  aplicados m esm o às onças.
Certo dia, ele estava sentado à beira de um  rio de águas profundas quando
um a onça surgiu por detrás.
– Que faz aí, bobão? – disse a onça, m ais curiosa do que esfom eada.
– Estou pensando em  m ergulhar no rio para apanhar aquele bolo de tapioca
que está lá no fundo.
Konewó apontou para o reflexo da lua sobre a água.
– Então vá – disse a onça, desconfiada. – Quero ver se consegue apanhá-
lo!
Konewó tinha escondido debaixo da tanga um  pedaço de bolo e m ergulhou
para logo em  seguida retornar.
– Ah, aqui está! – disse ele, dando um a dentada no bolo.
A onça lam beu os beiços, m as o índio enfiou ligeiro o resto na boca.
– Por que não trouxe o bolo inteiro? – disse a onça, frustrada.
– Acontece que sou m uito leve – respondeu o índio. – Por que você, que é
m ais pesada, não desce e traz o restante do bolo?
A onça estava tão ávida por provar aquela delícia que aceitou na hora o
desafio.
– Am arre esta pedra ao pescoço – disse o índio. – Ela a aj udará a descer
m ais rápido, pois há m uita correnteza nestas águas.
A onça aceitou, e depois de ter o pedregulho bem  am arrado ao pescoço,
m ergulhou. Quando chegou ao fundo do rio, porém , constatou que não havia bolo
algum  por ali. Olhou para cim a e viu que o bolo – ou a lua – agora estava boiando
na superfície.


E essa foi a últim a coisa que a desgraçada viu antes de m orrer afogada.
* * *
Mais um a com  onça.
Konewó ia andando na m ata quando viu um a trilha de antas. No m esm o
instante, um a onça surgiu.
– O que espia aí? – perguntou a bichana.
– Não está vendo? – respondeu o índio. – É o rastro de um a anta gorda.
A onça lam beu-se três vezes antes de voltar a falar.
– Acha que está longe?
– Que nada! Vej a, o rastro ainda está fresco!
– Então deixe com igo! – disse a onça, preparando-se para um a boa
corrida.
– Não, espere, tenho um  plano m elhor – disse Konewó. – Está vendo
aquele m orro elevado e coberto de vegetação? Foi por lá que ela se escondeu. Eu
vou atrás dela, e você fica aqui em baixo. Vou assustá-la e encam inhá-la bem  na
direção da sua boca.
A onça adorou a ideia e foi colocar-se na base do m orro, enquanto o índio
o escalava. Ao chegar ao topo, Konewó encontrou um  pedregulho enorm e e
rolou-o até o com eço da descida.
– Aí vai a anta! – gritou o índio.
Ao escutar o ruído de algo pesado descendo, a onça firm ou-se nas pernas.
– Que anta enorm e deve ser! – disse ela, lam bendo os bigodes.
De repente, porém , surgiu do m atagal inclinado o pedregulho enorm e, a
rolar furiosam ente, e passou por cim a da onça, deixando-a esm igalhada e fininha
com o um  tapete.
E esse foi o fim  de m ais um a onça.
* * *
Um a últim a.
Konewó estava sentado em  um  galho elevado de um a enorm e árvore. Ele
havia encontrado um a colm eia e estava se deliciando com  o m el quando um a
onça chegou e perguntou:
– Que faz aí?
– Estou saboreando esta delícia – disse Konewó, lam bendo os dedos
dourados de m el.
– Tam bém  quero! – disse a onça, apaixonada por m el.
– Então, façam os o seguinte: eu desço e corto a árvore. Quando ela cair,
você apara a colm eia nos braços e fica o resto do dia se deliciando.
A onça topou e ficou aguardando enquanto o índio m etia o m achado na
árvore.
Quando a árvore finalm ente com eçou a inclinar-se, a onça fez m enção de
sair correndo.


– Idiota, fique no lugar! – berrou Konewó. – Apare a colm eia, senão ela
vai se estraçalhar.
A onça se encheu de coragem  e esticou os braços na direção da colm eia.
Só que atrás dela vinha a árvore inteira, e foi assim  que a pobre felina viu-se
esm agada e coberta de picadas de abelhas.
* * *
Konewó, segundo a lenda, teve um  fim  grotesco, m as que o am or ao saber
obriga a contar.
Certo dia, ele estava se aliviando, no alto de um a árvore, quando um
besouro vira-bosta aproxim ou-se, lá em baixo. Konewó olhou para o serzinho e
disse, apiedado:
– Gostou? Aqui dentro tem  m uito m ais! – disse ele, apontando para o
traseiro.
O vira-bosta subiu, entrou-lhe traseiro adentro e com eu o resto da porcaria,
e j unto com  ela as tripas e tudo m ais, dando um  fim  m iserável ao m aior tapeador
de onças j á surgido nas m atas brasileiras.



Baixar 0.75 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   97




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal