07 História da Psicologia Estudos de Psicologia 1998, 3(2), 207-227 Reflexões sobre o estudo da História da Psicologia Lenita Gama Cambaúva


homem, a segunda premissa igualmente fundamental é a necessidade de que nesta criação exista uma continuidade



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homem, a segunda premissa igualmente fundamental é a necessidade

de que nesta criação exista uma continuidade. A história só é possí-

vel quando o homem não começa sempre de novo e do princípio, mas

se liga ao trabalho e aos resultados obtidos pelas gerações preceden-

tes.  Se a humanidade começasse sempre do princípio e se toda ação

fosse destituída de pressupostos, a humanidade não avançaria um passo

e sua existência se escoaria no círculo da periódica repetição de um início

absoluto e de um fim absoluto (Kosik, 1976, p.218, grifos no original).

Para deixar clara nossa opção de como reencontrar essa história,

devemos estar atentos para a concepção de homem produtor de sua

vida material e de suas idéias.

Ora, a compreensão da trama da História só será garantida se forem

levados em conta os ‘dados de bastidores’, vale dizer, se se examina a

base material da sociedade cuja história está sendo constituída (Saviani,

1982, p.38).

O que sentimos falta nos autores apontados no início deste item

são exatamente esses 

dados bastidores, pois que são eles que vão

nos remeter à análise e interpretação da sociedade num determinado

período histórico.

3. A filosofia e o desenvolvimento do pensamento

Da mesma forma que afirmamos que dentre as idéias que o homem

desenvolve no seu processo de existência humana, a ciência é uma

forma de conhecimento, dizemos que a filosofia também o é.

Quando o homem, através do trabalho, deixa de só se identificar

com a natureza e passa também a diferenciar-se dela, faz um




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História da Psicologia

“descolamento” da natureza. Isso significa uma mudança qualitativa

que impõe o aparecimento do pensamento racional, já que o homem

deixa de ser somente ser biológico. Ou seja, começa a observar, anali-

sar os fatos da natureza, o nascimento, a morte, o sangramento e

tantos outros aspectos que compõem a vida cotidiana.

Quando ainda “colado” à natureza, a explicação do mundo girava

em torno do mito (narrativa sobre a origem do mundo, dos homens,

dos deuses, das guerras etc.). Essa forma de pensamento mítico existe

nas chamadas sociedades primitivas, na qual o homem produz somen-

te para consumo imediato. Essa forma de vida primitiva se caracteriza

pelo imediatismo da sobrevivência e também pela falta de diferencia-

ção que o homem tem de si em relação ao mundo/natureza.

É com a atividade prática que lhe garante a sobrevivência - traba-

lho - que o homem vai desenvolvendo essa diferenciação, tanto atra-

vés da fabricação e utilização de instrumentos para o trabalho, como

através da linguagem quando da transmissão de conhecimento. Isto

é, à medida que o homem vai se socializando na relação com outros homens

e com a própria natureza, também vai superando sua condição biológica e,

sem deixar de ser um ser natural, começa a se diferenciar da natureza.

Ainda, nessas sociedades o pensamento se firma pela crença, pela

fé. Isso significa que o homem primitivo explica a sua origem, a origem do

mundo, através de forças tidas como superiores a ele. Assim, através do

mito, o homem tendia a tão-somente ser um ser natural, na medida em que

a narrativa mítica “revelava” que o passado é tal como o presente.

Entretanto, à medida que o homem vai se “descolando” da natu-

reza, se diferenciando dela, se transformando e transformando-a, te-

mos outra estrutura de pensamento, em que o mítico não mais se

sustenta, porque apoiado na revelação e não na explicação. Essa

reordenação de pensamento está intimamente ligada às transforma-

ções da vida material humana.

A filosofia nasce em virtude da necessidade de o homem ordenar,

organizar seu pensamento. Assim, se, segundo Chauí (1995), perguntar-

mos o que é filosofia, a primeira resposta poderia ser "a decisão de não

aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situa-

ções, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; ja-

mais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido" (p. 12).


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