07 História da Psicologia Estudos de Psicologia 1998, 3(2), 207-227 Reflexões sobre o estudo da História da Psicologia Lenita Gama Cambaúva



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L. G. Cambaúva, L. C. da Silva e W. Ferreira

Estamos, então, diante de uma oposição entre subjetividade (cri-

ação de idéias a partir da própria subjetividade) e objetividade (ocor-

rência de fatos de forma mecânica, que independem do homem), ou

seja, contrapõe-se o homem enquanto autor de idéias aos fatos que

acontecem à sua revelia. Temos assim homem/idéia de um lado; fato/

determinismo de outro.

Não é patente, nos manuais de psicologia, a unicidade entre teo-

ria e prática. Rompe-se com a unidade subjetividade e objetividade,

rompe-se com a unidade produtor e produção, e dessa forma não

conseguimos (retomando nosso objeto, que é a história da psicolo-

gia) apreender o por quê do seu nascimento, o por quê das transfor-

mações ocorridas no desenvolvimento do pensamento psicológico, e

nem mesmo o por quê de existirem tantas escolas ou teorias e sistemas

que se diferenciam quanto ao objeto e método de estudo, que vão

determinar as técnicas psicoterápicas, grandes instrumentos de atua-

ção prática do psicólogo.

Porém, se formos buscar tais conhecimentos fundamentando-nos

na história social do homem, teremos uma outra concepção de histó-

ria, outra concepção de homem e outra concepção de ciência. Se o

passado pode nos explicar o presente, necessitamos conhecer esse

passado não meramente factual, mas inserindo nele o homem que não

só cria a história, como vive na história. Necessitamos entender, antes

de tudo, esse homem como criador, produtor de idéias, produtor de

ciência, produtor de história. Para entendê-lo, temos que compreender,

através do movimento da própria história, a sociedade em que vive,

caso contrário estaremos concordando com o solipsismo, que é a

crença de que a única realidade é o eu, e assim o homem pode ser

criador a partir tão-somente de idéias.

Se estamos considerando que o homem produz sua história, te-

mos que compreender como ele desenvolve idéias, não na perspecti-

va da idéia pela idéia, mas na perspectiva de sua relação com o mundo.

O que pode ser encontrado nas obras de Rubinstein (s/d) de forma

muito clara e na de Figueiredo (1991).

Se ponderarmos que a primeira condição básica para a existência

humana é a sobrevivência da espécie, o homem se identifica com a

natureza enquanto ser biológico. Assim, tanto o homem como o ani-



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História da Psicologia

mal são seres em primeira mão naturais - orgânicos -, que atuam sobre

a natureza para sua sobrevivência. Entretanto, o homem se diferencia

do animal e da própria natureza na forma de sua atuação sobre ela. Na

atividade para produção de sua existência, o homem não só transfor-

ma a natureza, como a si próprio. Essa atividade humana prática, que

nada mais é que o trabalho, garante a sobrevivência da espécie huma-

na e ao mesmo tempo diferencia o homem de outros animais, pois é

uma atividade prática intencional e planejada, o que lhe confere cons-

ciência.


Relembrando Marx (1984),

O primeiro pressuposto de toda história humana é naturalmente a

existência de indivíduos humanos vivos [Suprimido no manuscrito: O

primeiro ato histórico destes indivíduos, pelo qual se distinguem dos

animais, não é o fato de pensar, mas o de  produzir seus meios de

vida]. O primeiro fato a constatar é, pois, a organização corporal

destes indivíduos e, por meio disto, sua relação dada com o resto da

natureza. (p. 27, grifos no original).

O homem, ao desenvolver sua atividade prática - trabalho -, cria

instrumentos, formas de relações sociais com outros homens (como,

por exemplo, a linguagem) e cria idéias, formas de pensar, que vão

auxiliá-lo em novas transformações, já que aquelas foram criadas atra-

vés e pelo trabalho. Isso significa que o homem não se limita à sua

condição biológica. Essencialmente, ao travar relações sociais, faz

história, pois transmite suas experiências a outras gerações através

da linguagem e da própria civilização.

Assim é a história da humanidade. Tem como condição fundamental

a transformação dos homens e da natureza. É através dessa história que

o homem desenvolve o pensamento, as idéias e dentre elas aquelas

referentes ao conhecimento do mundo. Dessa maneira, o conhecimento

humano se apresenta de diferentes formas: como conhecimento históri-

co, filosófico, teológico, senso comum, científico e tantos outros.

Concluímos, então, que a ciência é uma forma de conhecimento

que o homem produz e, portanto, a ciência, só pode ser entendida

como atividade humana que se desenvolve a partir da atividade práti-

ca - o trabalho.



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Pois bem, já temos alguns elementos para pensar a psicologia

como produção humana, tanto quanto as idéias psicológicas, e estas

como possibilidade de explicação e/ou interpretação daquela ciência,

posto que a história da psicologia começa com as idéias psicológicas,

pois aquela não aparece simplesmente no século XX. Dito de outra

forma, há entre o advento da psicologia como ciência, e as idéias

psicológicas desenvolvidas anteriormente, uma continuidade.

Se a primeira premissa fundamental da história é que ela é criada pelo




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