07 História da Psicologia Estudos de Psicologia 1998, 3(2), 207-227 Reflexões sobre o estudo da História da Psicologia Lenita Gama Cambaúva



Baixar 120.38 Kb.
Pdf preview
Página5/12
Encontro06.01.2021
Tamanho120.38 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12
L. G. Cambaúva, L. C. da Silva e W. Ferreira

Estudar a história da psicologia é apreendê-la na sua totalidade

enquanto criação humana, isto é, compreender como, por que e quan-

do foi criada. Isso pode significar a compreensão do predomínio de

linhas teóricas, a eleição dominante de uma determinada área de atua-

ção, o aparecimento de novas áreas de atuação.

Mas estudar a história da psicologia vai além disso: é também

estudar a nossa história enquanto homens, produtores de conheci-

mento, e dessa forma, através desse estudo, nos situarmos frente ao

mundo em que vivemos e no qual atuamos profissionalmente.

Assim, as idéias apresentadas neste artigo têm o intuito de contri-

buir com as reflexões sobre a ciência psicológica no que diz respeito à

sua construção – sua história. Dessa forma, temos duas motivações

intimamente vinculadas que impulsionam nossas reflexões: uma se

relaciona com a necessidade de compreensão da transformação das

idéias psicológicas em psicologia científica; a outra relaciona-se com

a possibilidade de apreensão do senso crítico quando da análise do

processo de transformação do homem de ser passivo em ser ativo e

criador, portanto, em ser autônomo, cuja capacidade essencial é a de

discernimento por si próprio. A vinculação desses dois motivos se

dá, ao nosso olhar, na apreensão da construção da psicologia como

ciência na história do pensamento humano.



2. Concepções de história

Entretanto, existem história e história. Isto é, existem concepções

de história que se antagonizam quanto ao papel do homem no seu

processo de desenvolvimento. As,sim podemos apontar duas concep-

ções da ciência da história; a prim,eira considerada como internalista

pressupõe que as idéias científicas são produto de outras idéias, nes-

te sentido não considera os fatores externos tais como as condições

sociais, econômicas e técnicas, relevando somente fatores ideológi-

cos, supondo desta forma que a origem de um pensamento científico

está no interior do sistema de idéias de uma época.

Quando lemos alguns autores de história da psicologia, como,

por exemplo, Brett (1972); Foulquié & Deledalle (1977); Heidbreder

(1981); Misiak (1964); Mueller (1978); Penna (s/d); Schultz & Schultz



215

História da Psicologia

(1992), observamos que a concepção de história contida nesses auto-

res é aquela contada cronológica e linearmente, em que não se faz

presente a análise da ciência como prática social de uma determinada

sociedade vivendo determinado momento histórico de sua produção.

Essa concepção revela o homem como ser criador da realidade a partir

da idéias, definindo a história como hóstoria intelectual. Dizemos que

tal concepção é uma história desligada do homem que a produz, por-

que trata somente das idéias em si, mantendo-as afastadas das cir-

cunstâncias de ordem social que as produziram. Assim, o que obser-

vamos é um levantamento de fatos mais imediatos que antecederam

essa ou aquela abordagem, esse ou aquele sistema de idéias.

A segunda concepção, definida como externalista, pressupõe que a

história das ciências condiciona os acontecimentos científicos às suas

relações com os interesses ss,ciais ideológicos, filosóficos e econô-

micos, podendo ser fatalista e mecânica, ao estabelecer uma relação de

causa e efeito, isto é, revela uma concepção de homem passivo diante de

uma realidade na qual não pode intervir, por estar totalmente condicionado

aos fatores sociais e econômicos. Assim, se a primeira concepção é a

história intelectual, esta segunda pode ser considerada a história social.

Para qualquer ciência, inclusive a psicologia, a concepção de his-

tória sem a interpretação ou análise dos fatos e do contexto em que foi

produzida dá a conotação de que a ciência em estudo (no caso a

psicologia), “aparece” na história do pensamento de forma casuística,

como se fosse obra de alguns homens geniais quando têm a revelação

do conhecimento. Tal concepção, internalista, dá a entender que o

homem cria individualmente, exclusivamente no plano das idéias, as

suas formas de conhecimento. A outra concepção, externalista, prede-

termina o homem como se ele fosse simples reflexo e registrador dos

fatos, sem neles intervir. Portanto, os fatos, por serem concebidos como

mecânicos e predeterminados, são independentes da ação humana, ge-

rando uma visão de homem como ser passivo diante do conhecimento.

Dessa forma, estamos diante de concepções de história que apon-

tam a história dos homens e a história das ciências como mundos

paralelos e não como um único mundo. Estas concepções rompem a

unidade produtor-homem e produção-ciência.



1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal