07 História da Psicologia Estudos de Psicologia 1998, 3(2), 207-227 Reflexões sobre o estudo da História da Psicologia Lenita Gama Cambaúva



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L. G. Cambaúva, L. C. da Silva e W. Ferreira

dos segundo a determinação do plano nacional de desenvolvimento

econômico, e forçosamente são voltados para a formação de recursos

humanos, onde a produção do saber é direcionada exclusivamente

para os meios de produção, visando unicamente ao crescimento eco-

nômico e acúmulo de riquezas de um grupo minoritário. Assim, o

aluno universitário, considerado como um SER histórico, ativo e cria-

dor, é reduzido a um sujeito passivo, a-histórico, domesticado e de-

pendente (Pereira, 1985, p.117).

Embora atualmente alguns daqueles princípios da Lei da Reforma

Universitária de 68 tenham sido excluídos da vida acadêmica de muitas

universidades brasileiras (como a revogação do regime de créditos, que

permitia a matrícula por disciplinas, e a implantação do regime seriado

anual, e também a conquista da eleição direta para reitores e vice- reito-

res), as conseqüências, após 30 anos, se fazem presentes, em geral,

numa vivência de universidade despolitizada que, via de regra, não pos-

sui o senso crítico, nem do momento histórico pelo qual passou e passa

o Brasil, nem das ciências a que se referem seus cursos de formação.

O caso da psicologia no Brasil (que não pode ser generalizado

para outros países, nem mesmo da América Latina), nesse período, foi



sui generis, porque, regulamentada como profissão em 1962, não foi

ameaça para o regime implantado, já que a concepção de ciência ado-

tada pela “psicologia brasileira” assumiu o modelo biológico, fazendo

uma analogia acrítica (a-histórica) entre o meio natural e o



 meio social

ao qual o homem –objeto de estudo- tem de ajustar-se da melhor

maneira possível para que sobreviva enquanto indivíduo. Não se con-

sidera, nessa concepção, a natureza histórica do homem e da socieda-

de que ele produz. Atendendo às necessidades de sustentação do

próprio modo de produção capitalista (que, em contextualizações es-

pecíficas, encontra respaldo político nos governos autoritários), a

psicologia vem atender aos imperativos do mercado de trabalho, que

apelam para um determinado tipo de racionalidade e produtividade

(Malheiro & Nader, 1987). Assim, a prática psicológica, de acordo com

os autores, orienta-se no sentido de "ajudar o homem a suportar e a se

adaptar às engrenagens do sistema" (p. 12).

Nesse âmbito, é fácil entender por que a psicologia clínica ganha

status. Se se entende que as perturbações dos indivíduos são de sua



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História da Psicologia

responsabilidade individual e que cabe a ele procurar 



ajustar-se à

normatização social, crê-se, também, que a solução deve se dar no

âmbito individual, com a cura da perturbação, do distúrbio particular

no qual se embrenhou o indivíduo, diluindo-se também a possibilida-

de de reflexões coletivas.

E além de retirar da psicologia a possiblidade de pensar o homem

enquanto produto social, enquanto ser coletivo, e problematizar suas

pesquisas, também, nesse âmbito, privilegiou-se muito mais a técnica

por esta ser muito mais pragmática. Quando Gomide (1984) analisa a

formação acadêmica em psicologia e suas deficiências, conclui que

"não estamos formando profissionais capazes de construir a psicolo-

gia, mas apenas de repeti-la pois o estudante apenas aprende técnicas

e busca o cliente para aplicá-las" (p. 74).

Esses depoimentos, que não são simples desabafos, mas análises

dos resultados da pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Psico-

logia em 1988, já citada, nos revelam que a psicologia no Brasil, en-

quanto ciência, parece ter passado incólume pelo regime autoritário,

revelando na sua prática os efeitos da reorganização universitária do

país pós-64, que, além da despolitização, encarregou-se de retirar, tan-

to da academia como da ciência, o senso crítico.

Podemos então dizer que a manifestação, ou melhor, que a

concretude na atualidade do passado autoritário imposto pelas políti-

cas educacionais governamentais no Brasil buscou, sem dúvida, o

aprimoramento técnico em detrimento da análise das teorias que

embasam essas técnicas.

A reversão desse quadro requer que se eleja como princípio da

formação profissional não só ensinar as técnicas, mas também discu-

tir, criticar e analisar o porquê de elas se desenvolverem, em que época

surgiram, para que propósitos serviram ou servem, ou seja, buscar

retomar com o aluno o processo de desenvolvimento histórico da

ciência com a qual vai trabalhar.

E aí entra a questão da história, a história como forma de apropri-

ação do senso crítico, de contextualização do advento da ciência, o

que pode levar a uma politização, a um compromisso social do aluno

frente à sua atuação, seja enquanto estudante, seja enquanto profis-

sional. Esse já é outro motivo para se estudar a história da psicologia.



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