07 História da Psicologia Estudos de Psicologia 1998, 3(2), 207-227 Reflexões sobre o estudo da História da Psicologia Lenita Gama Cambaúva



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L. G. Cambaúva, L. C. da Silva e W. Ferreira

1. O porquê de compreender a História da

Psicologia

Segundo pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Psicologia

em 1988, publicada no livro

 Quem é o psicólogo brasileiro?, os motivos

apontados quando da escolha da profissão podem ser de três ordens:

Dos ‘motivos voltados para si’ emerge a busca de mudanças; daqueles

‘motivos voltados para o outro’ evidencia-se a orientação de ajuda e,

finalmente, dos ‘motivos voltados para a profissão’ fica patente a

atração e fascínio que o psíquico exerce sobre as pessoas (Carvalho et

al., 1988, p.56).

Isso significa que boa parte dos estudantes e profissionais da

psicologia no Brasil têm a sua atuação voltada para a chamada psico-

logia tradicional na área clínica, que tem, historicamente, caráter priva-

tivo e individualizado.

Mas, se os profissionais assim atuam é porque houve, e possivel-

mente ainda há, motivos para se pensar que a psicologia se compro-

mete somente com a pessoa a nível individual e não com o indivíduo-

sujeito da história. Para entender essa “preferência” de atuação, te-

mos de relembrar o caminho histórico recente da psicologia no Brasil,

bem como considerar as mudanças que ocorreram na política educaci-

onal brasileira nos últimos 30 anos.

Quanto à história da psicologia, podemos dizer, por enquanto,

que ela emerge como ciência quando reconhece a instância individual

do homem na sociedade e que, por motivos sociais, políticos e econô-

micos, necessita ser normatizada e padronizada. Isto é, a psicologia só

ganha espaço no rol das ciências quando se tem o reconhecimento da

experiência privatizada, bem como o reconhecimento da experiên-

cia da crise desta subjetividade (Figueiredo, 1991). Ainda, é quando

a doutrina liberal afirma a individualidade, liberdade e igualdade dos

homens que se dá o reconhecimento daquela subjetividade. Entretan-

to, o próprio indivíduo



 percebe que estes princípios são mera ilusão,

ocasionando assim a crise da subjetividade, que requer solução.

Quando os homens passam pelas experiências de uma subjetividade

privatizada e ao mesmo tempo percebem que não são tão livres e tão




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História da Psicologia

diferentes quanto imaginavam, ficam perplexos. Põem-se a pensar

acerca das causas e do significado de tudo que fazem, sentem e pen-

sam sobre eles mesmos. Os tempos estão maduros para uma psi-

cologia científica (Figueiredo, 1991, p.30).

Mas chegar nesses tempos que proporcionam a possibilidade de as

idéias psicológicas - idéias acerca de processos individuais e subjetivos

- se converterem em ciência requer um pensar sobre a história da humani-

dade, sobre o desenvolvimento do seu pensamento enquanto manifestação

da sua condição de vida material. Temos afirmado que esse é um bom motivo

para estudar a história da psicologia (Cambaúva, Silva & Ferreira, 1997).

Para o entendimento da psicologia, que termina por ter como obje-

tivo o indivíduo encerrado em si mesmo, acreditamos importar, tam-

bém para nós, profissionais brasileiros, o entendimento dos efeitos

das mudanças que ocorreram na política educacional brasileira nos

últimos 30 anos.

Ao analisar as propostas implantadas no ensino universitário nos

últimos 30 anos, temos a assinalar que as universidades, por serem

centros de excelência de formação, foram categoricamente atingidas

durante o período do governo militar. Isso significou uma reorganiza-

ção educacional através do “patrulhamento” dos conteúdos ensina-

dos nas universidades durante este período.

Esta reorganização, feita através da lei nº 5.540, de 28/11/68, acar-

retou grandes mudanças na organização e funcionamento das univer-

sidades (a departamentalização dos cursos, a matrícula por discipli-

nas, a nomeação de reitores e vice-reitores pelos governadores), de

modo a comprometer a criticidade da pesquisa científica. Além de

criarem-se disciplinas de cunho ideológico-vigilante, como Organiza-

ção Social e Política Brasileira (OSPB) e Estudos de Problemas Brasi-

leiros (EPB), foram concomitantemente retirados os cursos de filoso-

fia até então ministrados no 2º grau.

Ilustrando os efeitos dessa reorganização educacional, recorre-

mos às seguintes afirmações:

Se a política educacional brasileira é orientada para o desenvolvimento

econômico sob o prisma de um modelo de desenvolvimento capitalis-

ta, os objetivos e metas educacionais são conseqüentemente elabora-



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